A tese de que há ‘‘exagero’’ nas políticas fiscal e monetária comandadas por Palocci divide opiniões de ministros e também de especialistas Há quem defenda a política de superávit primário da equipe econômica do governo, quem prefira uma diminuição do superávit para aquecimento da economia e ainda os que sugerem um modelo intermediário
As propostas de política econômica que dividem a opinião dos ministros Antonio Palocci (Fazenda) e Dilma Rousseff (Casa Civil) também provocam divergências entre especialistas. Há quem defenda a política de superávit primário posta em prática pela equipe econômica do governo, quem prefira uma diminuição do superávit para aquecimento da economia e ainda os que sugerem um modelo intermediário, com margem para investimentos, mas sem perder as rédeas da economia. O professor e membro do Conselho Regional de Economia (Corecon), Ricardo Eleutério, explica que quando um governo prioriza o superávit primário, ele automaticamente perde em investimentos e vice-versa. ''Por conta da opção de Palocci, o Brasil só ganhou do Haiti e El Salvador numa análise do crescimento econômico em países da América Latina este ano'', afirma o professor, ressaltando, no entanto, que por conta do mesmo método o real foi a moeda que mais se valorizou frente ao dólar, cerca de 40%, e o risco-país - cálculo que mensura o risco que investidores internacionais correm ao investir em países, empresas etc - caiu cerca de 400 pontos. ''Acho que o governo deveria suavizar a política monetária e fiscal e começar a fazer investimentos, sem perder, no entanto, a meta de superávit primário'', sugere o economista. O professor Henrique Marinho é favorável à política econômica adotada por Palocci e afirma que o modelo é copiado de diversos países da Europa e do Canadá. ''O ministro defende um crescimento sustentável. Palocci quer que o País cresça com consistência e não apenas via medidas populistas que põem em risco a estabilidade econômica'', diz o economista criticando a insistência da ministra Dilma em aumentar a execução orçamentária. Uma política econômica ''intermediária'' é a melhor opção para o governo na visão do economista Cláudio Ferreira Lima, assessor de Articulação Política do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Ele afirma que deve haver um esforço para o alcance da meta do superávit, mas sem grandes prejuízos para o País. ''É interessante que também sejam atendidas as demandas da sociedade'', diz. Sobre o ajuste fiscal proposto pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que pretende reduzir a despesa corrente do governo para implemento do superávit primário, Ferreira argumenta que ''cortes indiscriminados'' tendem a trazer prejuízo à máquina pública. ''É preciso buscar uma máquina pública eficiente, que cumpra com sua função objetivamente, essa é a discussão e não simplesmente o corte de cargos'', ressalta o economista concordando com a visão da ministra-chefe da Casa Civil para quem a despesa corrente do governo representa a ''vida'' da máquina estatal, a certeza de um Estado forte. O cientista político Carlos Alberto Furtado, do Instituto Brasileiro de Mercados de Capitais (Ibmec), afirma que esse ''mal-estar'' entre integrantes do governo e oposição em relação à política econômica demonstra que os atores do processo não estão preocupados com o bem-estar da população, papel que teoricamente pertence ao Estado. ''Ao invés de discutir simplesmente a política econômica, deveria estar em debate a maneira como o dinheiro público vem sendo gasto e um meio de fazer chegá-lo, efetivamente, ao contribuinte'', diz o cientista.
Fonte: Jornal O Povo
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