Contra as políticas adotadas pelo governo, cerca de 2 mil agricultores organizados na Via Campesina participaram, na semana passada, de mobilizações em cinco Estados (Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás e Paraná) e no Distrito Federal. Em Brasília, mais de 300 produtores protestaram contra a Instrução Normativa 51/2002 e o baixo preço recebido pelo litro do leite. De acordo com dados do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), os produtores de Goiás são os que recebem menos pelo produto, chegando a apenas R$ 0,19 o litro. Em Minas Gerais, em alguns locais o valor recebido é de R$ 0,25. Em algumas regiões de Santa Catarina, os produtores receberam R$ 0,28 por litro. No Rio Grande do Sul, a média é de R$ 0,30, sendo que em março os produtores receberam até R$ 0,62 pelo litro. Os agricultores lavaram com leite as calçadas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). "É mais barato lavar o chão com leite do que com água", afirmou Altacir Bunde, da direção nacional do MPA.
PELO BRASIL Uma comissão foi recebida pelo secretário de Defesa Agropecuária, Gabriel Alves, que assumiu o compromisso de criar um grupo de trabalho que contará com representantes do Mapa e da Via Campesina. A intenção é levantar dados sobre a cadeia produtiva do leite e as causas da crise. Com isso, a Instrução Normativa 51/2002 continuará sendo instrutiva e não punitiva, até que sejam concluídos os estudos do grupo. Além do Mapa, a comissão foi recebida pelos ministérios do Desenvolvimento Agrário (MDA), do Desenvolvimento Social (MDS), das Relações Exteriores (MRE), da Casa Civil, e pelos líderes do Congresso. O governo se comprometeu a liberar cerca de R$ 130 milhões para a compra direta de leite, pelo Programa de Aquisição de Alimentos. Para Altacir Bunde, houve avanço nas negociações com o governo: "As mobilizações foram proveitosas. Alcançamos alguns objetivos, mas vamos continuar lutando para aprovar todas as reivindicações".
No Rio Grande do Sul, cerca de 2 mil trabalhadores ligados à Via Campesina ocuparam, dia 26 de outubro, uma empresa de distribuição das principais indústrias de leite do Estado, localizada em Esteio, na região metropolitana de Porto Alegre. A mobilização dos agricultores em uma empresa privada irritou a elite gaúcha. "Vejam o nível do protesto, protesto entre aspas, não se respeita mais nada neste país. Isso é coisa de marginal, bandido e criminoso, não há argumento que sustente o gesto desses marginais", afirmou em seu programa o jornalista Rogério Mendelsky, porta-voz da direita gaúcha, que fez carreira na grande imprensa durante a ditadura militar. Na Rádio Pampa, Adroaldo Streck, ex-deputado federal pelo PSDB, reclamou da demora da ação policial, mas elogiou o sucesso da operação, "ao contrário do que aconteceu em Carajás, quando alguns PMs, para se defender, tiveram que matar alguns manifestantes".
QUESTÃO CENTRAL Os agricultores escolheram a empresa de logística Standard porque ali passam os produtos das principais indústrias de leite do Estado, que exploram os pequenos produtores. "A questão central é o preço do leite, que hoje chega a R$ 0,28 o litro ao produtor, enquanto o produto é vendido por mais de R$ 1 no mercado", afirmou Mario Lill, da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Como garantia de pagamento aos prejuízos na empresa, a juíza do município Uiara Maria Castilho dos Reis ordenou a apreensão dos cerca de 30 ônibus que levaram os trabalhadores à mobilização. Os ônibus só foram liberados no dia seguinte, depois que os agricultores trancaram a BR-116, principal rodovia de acesso a Porto Alegre, durante quatro horas. Instado a agir rapidamente, o delegado Ireno Schulz, titular da Delegacia de Polícia de Esteio, deu um show de agilidade e eficiência, anunciando que irá indiciar mais de mil integrantes da Via Campesina por roubo, formação de quadrilha, cárcere privado, invasão de local de trabalho e dano ao patrimônio público.
No Paraná e em Santa Catarina, centenas de agricultores discutiram em assembléias a crise do setor. Em Governador Valadares (MG), os produtores ocuparam a sede da Receita Federal.
Fonte: Jornal Brasil de Fato
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