"A mídia olha para você?", "Você tem voz na mídia?" Estampadas em letras garrafais, sobre uma faixa de quatro metros de comprimento, essas perguntas chamavam a atenção de quem passava a pé ou de carro na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, no dia 17. Um mural com depoimentos anônimos mostrava alguns pontos de vista de quem vê a mídia do lado de fora da produção de conteúdo. "A mídia brasileira deveria ser mais democrática", ressaltava uma das frases escritas.
Em uma privada colocada em meio à calçada, as pessoas também jogavam papéis com suas opiniões, registro esse que também foi gravado em vídeo. Logo em frente, uma banquinha, como aquelas de camelô, distribuía CDs de software livre gratuitamente. Esse ato público, organizado por militantes de diversas organizações e entidades, marcava o início de uma série de atividades da semana de 17 de outubro - dia que simboliza a luta pela democratização dos meios de comunicação no país.
A 3ª Semana Nacional pela Democratização da Comunicação ocorre, esse ano, em dez cidades brasileiras. Atividades serão feitas também na Baixada Santista, litoral paulistano, em João Pessoa (PB), Porto Alegre (RS), Vitória (ES), Brasília (DF), São Luís (MA), Rio de Janeiro (RJ), entre outras. Já, em Recife (PE), as atividades foram realizadas antecipadamente, há duas semanas.
MOBILIZAÇÃO A iniciativa partiu, há dois anos, da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecos). Segundo Rodrigo Mendes, coordenador da entidade, o objetivo do evento é provocar alguma mobilização sobre um tema que não está colocado no imaginário das pessoas. "A democratização da comunicação é uma bandeira histórica da Enecos. A gente espera também que seja um momento de acumular informações sobre o tema."
No dia 18, também em São Paulo, uma mesa de diálogo com representantes de movimentos sociais foi organizada na sede da Ação Educativa, entidade que também organiza a Semana. Estiveram presentes representantes de movimentos de moradia urbanos como a União dos Movimentos de Moradia, do movimento negro, como o Grupo Identidade, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, entre outros. O debate abordou como o monopólio da mídia no Brasil atrapalha a luta dos movimentos sociais e de que maneira a democratização da comunicação poderia ajudar na conquista de seus objetivos. Além de apontar as dificuldades para as lutas sociais causadas pela concentração da mídia no país, a iniciativa pretendeu unir atores de diferentes campos para a busca de soluções conjuntas.
Em Brasília, uma série de debates nas universidades antecipou o evento, que começou com um ato lúdico-político no Circuito Jovem (Ceilândia) no domingo, dia 16. No dia 17, houve uma exibição do fi lme Super Size Me - A dieta do Palhaço em frente a uma loja do McDonalds, com o objetivo de problematizar o papel da indústria do fast-food e questionar a influência da propaganda nas pessoas.
Segundo o jornalista Jonas Valente, integrante do Intervozes, coletivo que atua na área de comunicação social, "a Semana pela Democratização é a data mais importante do calendário de lutas das entidades da área de comunicação. É quando diversas organizações, tendo ou não relação orgânica umas com as outras, se juntam para botar esta pauta na rua e levar o debate à sociedade".
Esse ano, a Semana pela Democratização tem um alvo específico de protestos, o atual ministro das Comunicações Hélio Costa. Um ato público batizado de "De costas para Hélio Costa" está previsto para ocorrer em São Paulo, em frente à sede da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e no Rio de Janeiro, num ato cultural na Praça 15.
A proposta é promover uma manifestação simbólica contra as políticas do ministro. Mendes explica: "Como ex-funcionário da Globo, ele representa os interesses dos empresários das comunicações e tudo o que nós somos contra." As políticas de Hélio Costa têm desagradado as entidades que trabalham com o tema. Os militantes pretendem sair em defesa de um sistema brasileiro de TV digital, do software livre e das rádios e TVs comunitárias. Em todas as cidades ocorrem também debates e seminários sobre a digitalização dos meios de comunicação.
Fonte: Jornal Brasil de Fato
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