Fale Conosco       Acesse seu E-mail
 
Versão para impressão Diminuir tamanho das letras Voltar Página inicial Aumentar tamanho das letras


Saiu na Imprensa

  29/06/2012 

‘Novos tipos’ de golpe de Estado e subversão permanente na América Latina

Transcorreram 13 anos desde que na América Latina e no Caribe, por vontade dos povos, se inaugurasse um período de constituição de governos de esquerda e progressistas que, sem a existência do campo socialista da Europa do Leste como contrapeso, porém com a presença ativa e digna de Cuba, representam uma condição de possibilidade para construir ou pelo menos alterar a ordem destrutiva do capital.

 
Porém, esses governos revolucionários e progressistas, produto da combinação das resistências ao neoliberalismo e ao colonialismo –antes e depois da fundação das repúblicas-, desenvolveram-se em um cenário caracterizado pelo permanente assédio aberto e encoberto das forças capitalistas lideradas pelo império mais implacável que a humanidade já conheceu em sua história de milhares de anos.
 
Não há dia que transcorra para os povos e para os governos que estão protagonizando o terceiro momento emancipador da América Latina e do caribe, sem que centenas de obstáculos apareçam em seu caminho: uns, complexos e numerosos devido às grandes dificuldades de desmontar mais de cinco séculos de ordem do capital; outros, construídos pela criatividade destrutiva do império.
 
As tarefas são bastante grandes e difíceis. A transição mostra-se complexa e longa; não há um dia que passe sem que a condição de possibilidade de avançar rumo à emancipação não esteja acompanhada da condição de possibilidade da reversão dos processos e da instalação da contrarrevolução em suas piores formas.
 
A cada medida revolucionária ou de reforma social progressista que tomam os governos de esquerda, a direita responde com outra, para frear sua materialização. É a luta permanente entre a vida e a morte. Entre a construção de uma sociedade de novo tipo e o restabelecimento de fios ocultos da ditadura do capital.
 
Desde 1999, quando em Nossa América se instala o governo bolivariano de Hugo Chávez, até a vitória de Fernando Lugo, no Paraguai, em 2008, as formas do assédio contrarrevolucionário têm sido muitas e todas comandadas pela Casa Branca e pela direita internacional.
 
Por ter sido bastante empregadas na década dos 70, quando as ditaduras da "segurança nacional” assassinaram, torturaram e exterminaram milhares de pessoas, a tática dos golpes de Estado tem sido a mais utilizada no século XXI, com a adição não menos significativa de mecanismos permanentes de subversão, entendida como a alteração sistemática da nova ordem que se pretende edificar. Uma parte dos meios de comunicação privados joga um papel importante no desenvolvimento da subversão, amplificando os conflitos, tomando alguns elementos da realidade para construir a realidade que querem mostrar. Ou seja, é a estratégia do desgaste prolongado.
 
Contra Chávez, desenvolveram-se duas modalidades de golpe: a patronal e a militar de novo tipo. Na primeira, fez-se uso do predomínio das formas privadas de concentração da propriedade e da produção para desabastecer a provisão de alimentos e de serviços e, assim, gerar um ambiente de desconcerto e desespero dos setores mais amplos da sociedade. Na segunda, se utilizou uma parte dos destacamentos especiais de homens armados (militares e policiais) do Estado capitalista para sequestrar ao presidente legal e legitimamente constituído por vontade popular. A segunda modalidade, diferente da experiência das décadas de 60 e 70, caracteriza-se em que uma fração dos militares faz o trabalho sujo; porém, os civis assumem a direção.
 
Essa segunda modalidade de golpe de Estado de "novo tipo” tem sido desatada contra Chávez e contra Manuel Zelaya, em 2002 e 2009, respectivamente. A primeira foi derrotada decido á rápida reação popular e por uma correlação de forças sociais internas desfavoráveis aos golpistas. A segunda, teve êxito, apesar da imediata reação internacional liderada pelos países da Alba (que não existia quando se pretendeu liquidar a revolução bolivariana) e devido à escassa coesão social interna. Porém, em ambos casos, correspondeu aos civis (dirigentes empresariais ou políticos) assumir o mando: por não mais de 48 horas, na Venezuela, com Pedro carmona e por vários meses, em Honduras, com Roberto Micheletti.
 
Porém, às duas modalidades empregadas contra Chávez e Zelaya se agrega outra de aparente legalidade: o golpe de Estado do Congresso, apesar de que uma foi combinada com a participação de militares e a outra com a ação dos parlamentares. No caso do presidente hondurenho, foram empregadas ambas, pois o general Vásquez encabeçou o golpe, porém a condução do país foi assumida pelo presidente do Congresso Nacional. A variante da participação somente parlamentar foi experimentada na sexta-feira passada (22 de junho de 2012), no Paraguai, quando em menos de 48 horas, deputados e senadores abriram e fecharam, respectivamente, um julgamento político no qual o acusado, Fernando Lugo, não teve tempo nem para defender-se. Por isso foi qualificado como "Golpe Parlamentar Express”. Nesse caso, a condenação internacional saiu da Unasul, do Mercosul e da Alba. A OEA –braço político dos Estados Unidos- acompanhou o golpe com seu silêncio.
 
Porém, sempre na linha dos golpes de Estado, a América Latina e o Caribe do século XXI experimentaram uma quarta modalidade: a do golpe cívico-prefeitural, em referência à combinação de forças sociais conservadoras e autoridades subnacionais. Esse é o caso da Bolívia, onde, em 2008, o presidente Evo Morales enfrentou uma arremetida ultradireitista focalizada no que se chamou "a meia luna”, integrada pelos Departamentos orientais de Pando, Beni, Santa cruz e Tarija. Tratava-se de forçar o derrocamento do presidente e líder indígena pela via da divisão do país em dois. A ofensiva direitista foi derrotada; porém, seu exemplo despertou a simpatia das classes dominantes assentadas no Estado de Zulia, na Venezuela, e em Guayaquil, no Equador.
 
Pois bem, aos quatro "novos tipos” de golpe de Estado que a direita tem posto em jogo no século XXI, somamos outra: a do amotinamento policial. Tudo começa como protesto reivindicativo e, em questão de horas, vai tomando a forma de projeto político. Correspondeu ao presidente equatoriano, Rafael Correa, experimentar, em 2010, e sua derrota só foi possível devido à atitude valente do chefe de Estado e da rápida reação da maior parte da cidadania, além do rechaço internacional da Unasul e da Alba; porém, também com o silêncio da OEA.
 
Apesar de que teremos que esperar para organizar os fatos e apreciar melhor o deslocamento dos atores, uma situação mais ou menos parecida está se registrando agora na Bolívia. Um protesto policial baseado em uma demanda setorial tomou a forma de um motim violento e que, horas depois, apesar da covocação do governo ao diálogo, traduziu-se em tomada de instalações, saqueio e queima de documentação, apedrejamento dos Ministérios (de Governo e da Justiça), da advertência de abrir as prisões e a ameaça de pôr fim ao mandato do presidente Evo Morales.
 
O protesto policial se registra, casualmente ou não, pouco tempo depois que fosse descoberta a falida tentativa da embaixada dos Estados Unidos de trasladar armas, sem autorização alguma, do Departamento de Beni para Santa Cruz, e da mudança no mando policial que desativou o operativo estadunidense e em meio à disputa pela ascensão ao posto de generais.
 
A resposta do governo tem sido "encapsular” o conflito no reivindicativo e somente algumas parcas declarações das autoridades e uma reação dos movimentos sociais através dos meios de comunicação, principalmente estatais, tem mostrado alguns componentes do político. Na Bolívia não se registrou nenhuma alteração estrutural da ordem constitucional; porém, é inegável que se construiu um cenário de golpe de Estado.
 
Desde 2002, mais de cinco golpes de Estado de "novo tipo” –dos quais dois tiveram êxito- mostram os grandes perigos que rondam aos governos de esquerda e progressistas da América Latina e do Caribe. A transição não está cheia de pétalas de rosa.
Fonte: Adital
Link: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=68304
Última atualização: 29/06/2012 às 10:27:43
Versão para impressão Diminuir tamanho das letras Voltar Página inicial Aumentar tamanho das letras

Comente esta notícia

Nome:
Nome é necessário.
E-mail:
E-mail é necessário.E-mail inválido.
Comentário:
Comentário é necessário.Máximo de 500 caracteres.
código captcha

Código necessário.
 

Comentários

Seja o primeiro a comentar.
Basta preencher o formulário acima.

Rua Nossa Senhora dos Remédios, 85
Benfica • Fortaleza/CE CEP • 60.020-120

www.igenio.com.br