A greve dos bancários, realizada na primeira quizena de outubro, não foi travada apenas na porta dos bancos e na mesa de negociação. Na frente midiática, sindicalistas e banqueiros se enfrentaram numa batalha de versões, uns proclamando o sucesso da manifestação, outros o seu fracasso. De acordo com a Confederação Nacional dos Bancários, ligada à Central Única dos Trabalhadores, no auge da greve, 120 mil dos 360 mil trabalhadores representados pela entidade estavam parados no país. Já a Federação Nacional dos Bancos tinha números bem diferentes. Segundo ela, apenas 5% das 17,5 mil agências do país haviam fechado as portas.
A versão mais próxima da realidade pode ser obtida a partir do resultado da greve. Após cinco dias de protestos, os banqueiros apresentaram uma nova contra-proposta bem mais gorda do que a primeira versão. A oferta de reajuste salarial subiu de 4% para 6% e a do abono de R$ 1.000 para R$ 1.700. O valor da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) oferecido passou a ser de 80% do salário mais uma parcela fixa de R$ 800 – antes essa parcela era de R$ 733. Diante da nova proposta, os trabalhadores decidiram pelo fim da greve no sexto dia.
Se não é o melhor paradigma de uma greve no país, afinal o sistema financeiro é o setor que mais tem se beneficiado pelas políticas econômicas das últimas décadas, a paralisação dos bancários traz pelo menos um traço do novo perfil assumido pelas mobilizações mais recentes dos brasileiros: ao contrário do passado, quando as paralisações tinham um perfil defensivo para manter direitos mínimos, agora o que se vê é o trabalhador cruzar os braços para ampliar suas conquistas nas chamadas greves de interesse.
Essa tendência tem sido constatada pelos últimos estudos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-econômicos, o Dieese, principal braço de apoio técnico do movimento sindical brasileiro. Dados preliminares apurados em 2005 indicam que das 124 greves registradas em todo país ao longo do ano, 74 delas (ou 59,7%) ocorreram para obter avanços nas relações trabalhistas, introduzindo novas conquistas ou ampliando as já asseguradas.
A tendência é semelhante à observada em 2004, ano em que o Dieese registrou 302 paralisações no país. Desse total, 197 delas (65,2%) foram classificadas como greves de interesse. Como parte delas também miravam a manutenção de alguns direitos ou serviam de protesto ao descumprimento deles, 161 (53,3%) do total são consideradas greves defensivas. Ainda 28 (9,3%) do total das greves foram classificadas como de protesto, em geral realizadas na esfera pública para criticar medidas tomadas por um governo que vão além das questões trabalhistas.
Segundo Clemente Ganz Lúcio, diretor-técnico do Dieese, o fato de as greves acontecerem geralmente associadas às campanhas salariais das diversas categorias indica que os dirigentes sindicais têm associado essa forma de pressão à pauta de reivindicações do trabalhador. A estratégia é mais usual em períodos de expansão econômica, como a dos dois últimos anos. “Greve é um sinal de saúde do mercado de trabalho, de que a atividade econômica está bem e o trabalhador quer repartir os ganhos”, afirma Clemente.
Ao mesmo tempo em que aponta que as greves têm sido usadas pelo trabalhador para ampliar seus direitos, o estudo do Dieese revela que permanece a tendência de queda do número de paralisações no país. “Nos anos 80 havia muitas greves por causa da inflação. As categorias faziam diversas paralisações ao longo do ano para repor as perdas”, explica o diretor do Dieese. O ano com mais greves foi 1989, com 1.977 paralisações que envolveram no total 14.097.878 trabalhadores. Já em 2004 foram apenas 304 greves, com 1.291.332 trabalhadores parados – quase 11 vezes menos.
Funcionalismo A média do número de greves no país está em queda. Mas dentro desse número se pode observar tendências opostas, se forem analisadas algumas categorias separadamente. O caso do funcionalismo público federal é o mais relevante. O número de paralisações nas diversas categorias desse setor vem aumentando: foi de 13 paralisações em 2002, de 17 em 2003, e de 31 em 2004. Ao longo desse período, o total de horas paradas saltou de 264 em 2002, para 1.784 em 2003, e finalmente 4.000 no ano passado.
A primeira tentação seria vincular o crescimento das paralisações no funcionalismo federal à chegada de Lula à presidência da República. Ex-sindicalista, o presidente poderia desde (i) ser mais conivente com os grevista a (ii) ter frustrado as expectativas que criou ao chegar ao poder. No entanto, Clemente Ganz Lúcio prefere evitar essas hipóteses e afirma que as greves recentes são causadas por um acúmulo de fatores que vêm desde os governos anteriores. “O arrocho salarial e a terceirização é que pressionam os trabalhadores a se mobilizar. Hoje há até mais abertura para o diálogo”, diz.
Segundo Clemente, o governo Lula criou, com o auxílio do Dieese, um mecanismo de “permanente negociação” com os trabalhadores, favorecendo o encaminhamento de soluções para as greves. Na Prefeitura de São Paulo, um instrumento desse tipo foi implantado durante a gestão Marta Suplicy (PT), entre 2001 e 2004, e mantido pelo atual prefeito, José Serra (PSDB). Mas outros governos municipais e estaduais, sem mecanismos permanentes de negociação, acabam enfrentando greves de mais difícil solução, diz o diretor do Dieese. Na esfera estadual, o número de paralisações passou de 65 em 2002, para 76 em 2003, e 80 no ano passado. Na esfera municipal, foi de 50 em 2002, para 68 em 2003, e 47 em 2004.
O Dieese também tentou apurar o resultado das 302 greves no ano passado, mas só obteve informações sobre 82. Destas, 57 encerraram-se com acordos, sendo 32 parcialmente satisfatórios para os trabalhadores e 25 atendendo à totalidade das demandas colocadas pelos grevistas. Em 27 ocasiões, as paralisações foram suspensas diante do compromisso dos empregadores em intensificar as negociações sobre os assuntos de interesse dos trabalhadores. E em 6 paralisações, os pleitos dos trabalhadores foram negados.
Fonte: Agência Carta Maior |