O índice de sindicalização da mão-de-obra norte-americana caiu de 35% nos anos 50 para 15% nos anos 90. Hoje é de 12,5% no total e apenas 7,9% no setor privado, o pior índice desde os anos 20. Essa decadência, somada à derrota eleitoral do candidato democrata John Kerry, em novembro de 2004, somou-se a precipitar a crise da tradicional central estadunidense e canadense AFL-CIO, nascida, em 1955, da fusão da moderada AFL, que desde 1886 reunia destacados sindicatos profissionais, com a algo mais agressiva CIO, fundada em 1935 para organizar novas indústrias de produção em massa.
Novidade. O perfil de Anna Burger não é o clássico Alguns dos maiores sindicatos uniram-se, no fim de 2004, por enxugamento da burocracia sindical, concentração de recursos na sindicalização de trabalhadores (em oposição à política eleitoral) e reorganização de sindicatos pequenos ou de profissões em um menor número de organizações setoriais mais amplas e fortes, reduzindo a quantidade de sindicatos de 60 para 20.
Insatisfeitos com as respostas a essas reivindicações, três dos cinco maiores sindicatos anunciaram o rompimento na 50ª convenção da AFL-CIO, celebrada no fim de julho: SEIU (empregados de serviços, 1,6 milhão de filiados), Teamsters (caminhoneiros, 1 milhão) e UFCW (industriários e comerciários em alimentos, higiene e limpeza, 1 milhão).
Em 27 de setembro, fundaram a nova central Change to Win (Mudar para vencer), aliados ao novo United Here (fusão do sindicato de trabalhadores em hotéis, restaurantes com o de lavanderia e costura, 450 mil). Os sindicatos Laborers (550 mil), de trabalhadores da construção civil e UFW (20 mil), de trabalhadores agrícolas, filiaram-se à nova central sem romper com a velha. O sindicato independente Carpenters (520 mil) também se uniu à nova central.
Os dirigentes da nova central, como os da velha, são quase todos homens, idosos e “brancos” (salvo pelo “chicano” Arturo Rodríguez, da UFW). Mas, ao menos simbolicamente, reconheceram a necessidade de se ajustar a novos tempos ao eleger a presidente Anna Burger, militante de 55 anos, que ganhou projeção nacional em 1972, ao liderar, contra a posição do sindicato, uma greve de assistentes sociais na Filadélfia e, em 1986, ao desafiar o governador da Pensilvânia quando esse proibiu funcionários públicos de registrar eleitores. Mais recentemente foi tesoureira do SEIU. Aliás, administrou a campanha eleitoral do atual presidente da AFL-CIO, John J. Sweeney, também do SEIU.
Tradição. Sweeney representa 50 anos de unidade. Mas também de decadência De mais de 90% dos trabalhadores sindicalizados, a AFL-CIO foi reduzida a pouco mais de metade: 54 sindicatos com 9 milhões de membros (56% do total), ante sete sindicatos com 6 milhões de filiados da Change to Win (37%), havendo 3% em sindicatos filiados a ambas as entidades e 10% em sindicatos independentes.
A AFL-CIO perdeu mais do que esses números sugerem. Além de 40% dos filiados e do orçamento, a velha central perdeu seus sindicatos mais dinâmicos, que atuam nos setores com mais perspectivas de crescimento. Tornou-se um agrupamento de sindicatos na maioria pequenos e estagnados. Só ficaram dois com mais de 1 milhão de filiados: AFSCME (servidores municipais e estaduais) e USW (siderurgia, papel e borracha).
A ênfase em dinamismo e militância sindical da rival não a situa, necessariamente, “à esquerda”. A nova central, tanto quanto a velha, parece sonhar com a ressurreição da parceria entre empresas e sindicatos do New Deal. Mesmo se os empregadores repudiam a idéia desde os anos 80: hoje, 75% das empresas contratam consultores especialmente para conduzir campanhas anti-sindicais – e 92%, ao saber de empregados querendo se sindicalizar, os forçam a comparecer a reuniões a portas fechadas para ouvir propaganda contrária ao sindicalismo.
Além disso, os Teamsters são conhecidos não só por sabotar outros sindicatos ao garantir o abastecimento e a entrega para fura-greves quanto por seus laços com a Máfia – pelos quais seu presidente James R. Hoffa (pai do atual, James P. Hoffa) foi preso em 1971 e o sindicato esteve expulso da AFL-CIO de 1957 a 1985. Alguns sindicalistas ligados à nova organização apoiaram candidatos republicanos e rejeitaram posições relativamente progressistas da velha central, como o apoio ao casamento homossexual.
O racha. Imagem de dinamismo a todo custo Mas o apelo da AFL-CIO por unidade, em meio à acomodação e decadência, é ainda mais vazio que o da rival, por mudança. Ao menos a SEIU mostrou um meio de reconstruir um mínimo de organização sindical. Recorre a estratégias publicitárias quase empresariais e usa uma estrutura eficiente e agressiva de relações públicas para obter apoio da comunidade contra os empregadores.
Em muitos lugares, os patrões tiveram de ceder e assinar acordos pelos quais a administração se compromete a reconhecer e aceitar o sindicato se uma maioria simples de seus empregados decidir se filiar. O SEIU ajudou 900 mil trabalhadores a se organizar nos últimos nove anos, tornou-se um dos maiores sindicatos, se não o maior, em número de sócios ativos e obteve alguns ganhos e melhorias entre trabalhadores majoritariamente mulheres e membros de minorias, tradicionalmente considerados difíceis de organizar. Essas vitórias foram obtidas, porém, em empresas e comunidades locais. Desafio muito maior é cumprir a promessa de fazer o mesmo com a Wal-Mart, maior empregador privado do mundo (1,2 milhão de empregados), o que exigirá uma campanha e, conseqüentemente, posicionamentos políticos em escala nacional (e internacional, considerando o Canadá).
Felizmente, as organizações de base da AFL-CIO parecem não apoiar a disposição da cúpula de boicotar os sindicatos filiados à central rival. A AFSCME, por exemplo, mantém seu pacto de cooperação com a SEIU. Conduzir a luta sindical no espaço público e comunitário, priorizar a sindicalização dos serviços e desprezar velhas distinções corporativas entre categorias, como quer a Change to Win, parece razoável, quando a flexibilização e a alta rotatividade do emprego enfraquecem os laços no local de trabalho e o setor terciário cresce entre os trabalhadores. Resta ver se essa prática será compatível com a postura política conservadora de alguns de seus dirigentes.
DE VOLTA AO FOX-TROT Como o sindicalismo recuou oito décadas
Uma das precondições para o “milagre” neoliberal foi quebrar a espinha dos movimentos sindicais, na repressão à greve dos controladores de tráfego aéreo, por Ronald Reagan, em 1982, e dos mineiros de carvão, por Margaret Thatcher, em 1984. Ali se abriu caminho para o desmantelamento de direitos sociais como contratação coletiva, horas extras e planos de saúde e previdência.
Grande parte do crescimento do lucro das empresas e dos mercados financeiros nos Estados Unidos dos anos 80 e 90 foi resultado da “flexibilização” dos contratos de trabalho e da transferência de etapas selecionadas da produção primária e industrial para países com salários muito mais baixos.
Indústrias tradicionalmente sindicalizadas, como a siderurgia ou as montadoras de veículos, encolheram e transferiram ou terceirizaram atividades para setores ou regiões onde os sindicatos eram mais fracos ou não existiam. A cada dificuldade ou crise nesses setores, seja qual for a sua causa, os acordos trabalhistas ainda de pé são apontados como os culpados e se propõe sua abolição sumária.
Foi assim na crise da United Airlines, cujas primeiras vítimas foram seus fundos de pensão e também, provavelmente, será na concordata da Delphi, que pediu cortes drásticos nos salários (vários concorrentes os cortaram em até 50%) e nos planos de saúde e aposentadoria, além do fim do banco de horas que permitia a funcionários demitidos continuar a receber pagamento. Tanto a União quanto os estados têm planos para desmantelar os sindicatos do funcionalismo público, o único setor em que a sindicalização teve algum avanço desde os anos 70.
Enquanto isso, crescem setores nos quais os sindicatos são fracos, não existem ou são proibidos. Como acontece, nos EUA, em duas das empresas mais representativas da expansão do setor terciário: a Wal-Mart e o McDonald’s proíbem seus empregados de se filiar a qualquer sindicato, sob pena de demissão sumária.
Fonte: Revista Carta Capital
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