Apelando para “uma maneira extrema” de sensibilizar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a sua posição contraria à transposição do rio São Francisco, o bispo diocesano da Barra (BA), Luiz Cappio, iniciou nesta segunda (26) uma greve de fome que poderá levá-lo a morte caso o presidente, como afirmou em documento registrado em cartório, não revogue e arquive o projeto de transposição.
“Quando cessa o entendimento e a razão, a loucura fala mais alto. Quem sabe seja uma maneira extrema de ajudá-lo a entender pelo coração aquilo que a razão não alcança”, afirmou o bispo em carta endereçada a Lula, na qual pede que o presidente reveja sua posição favorável à obra.
“Desde que o Governo Fernando Henrique apresentou a proposta de transposição do Rio São Francisco, fomos críticos acirrados deste projeto (...). Esperávamos do senhor um apoio maior em favor da vida do rio e do seu povo. Esperávamos que, diante de tantos e consistentes questionamentos de ordem política, ambiental, econômica e jurídica, o governo revisse sua disposição de levar a cabo este projeto que carece de verdade e de transparência”, diz a carta.
Já no documento registrado em cartório, que “oficializa” a greve de fome, onde afirma que o gesto foi pensado e consciente e onde pede que sua vontade seja respeitada “até o fim”, Dom Luiz declara que o protesto tem “o propósito de entregar minha vida pela vida do Rio São Francisco e de seu povo contra o Projeto de Transposição, a favor do Projeto de Revitalização”.
O documento diz que o bispo permanecerá em greve de fome até a morte, “caso não haja uma reversão da decisão do Projeto de Transposição”, e que o protesto só será suspenso se a revogação da transposição for assinada por Lula. “Caso o documento de revogação, devidamente assinado pelo Exmo. Sr. Presidente, chegue quando já não for senhor dos meus atos e decisões, peço, por caridade, que me prestem socorro, pois não desejo morrer”, adverte.
Ligado à ordem dos Franciscanos, Dom Luiz, que completa 59 anos no próximo dia 4 de outubro – dia de São Francisco -, se retirou para uma capela em Cabrobó, Pernambuco, na proximidade do local da tomada da água do eixo norte da transposição.
Nascido em Guaratinguetá, interior de São Paulo, em 1974 o bispo se mudou para o sertão nordestino do Médio São Francisco, onde criou “uma trajetória fabulosa que iluminou a vida de muitas pessoas”, como relata o sociólogo Adriano Martins, há 15 anos atuante na região.
Segundo Martins, que deve acompanhar a greve de fome do religioso, a principal motivação da radicalização do protesto de Dom Luiz contra a transposição é o fato de que a obra não deve resolver, como se propões, a miséria na região, abrindo, por outro lado, as portas para a mercantilização e a privatização da água e do rio.
Questionado sobre a possibilidade de o protesto levar à morte do bispo, Martins diz que prefere não pensar sobre isso no momento. Ele afirma ter conversado longamente com Dom Luiz, principalmente diante do alto investimento do governo na transposição e dos interesses econômicos e políticos envolvidos, “como os contratos com as empreiteiras e os votos para a reeleição de Lula”. Mas o gesto, teria dito o bispo, deve mobilizar a opinião pública nacional e internacional sobre as posições contrárias à obra.
“Podemos traçar, em relação a Dom Luiz, um paralelo com o jejum de Gandhi. Se o governo for até o fim e tiver que carregar o cadáver de um bispo, vai ser muito difícil. Chegou o momento do governo recuar, como sinal de avanço”, afirma o sociólogo, que, já no primeiro dia da greve de fome, recebeu manifestações de solidariedade de várias organizações européias e nacionais.
Repercussão O Ministério da Integração Nacional, responsável pela implementação do projeto de transposição do São Francisco, afirmou, através de sua assessoria, que não se pronunciaria sobre o protesto do bispo por entender que se trata de uma decisão de foro íntimo. Já a assessoria de imprensa do Planalto não deu retorno à reportagem da Carta Maior.
Em setores ligados à Igreja Católica, as opiniões se dividem. Para Frei Betto, ex-assessor da Presidência, a decisão de Dom Luiz é muito radical, já que existiriam outros canais de diálogo com o governo. Já Dom Pedro Casaldáliga, ex-arcebispo da Prelazia de São Felix do Araguaia, declarou, através de nota, sua solidariedade com Dom Luiz.
“Estamos de coração unidos ao querido irmão Dom Luiz e, com ele, ao clamor nacional e internacional que exigem que o Governo Federal reveja sua decisão, tão contestada e com argumentos tão sérios, de levar a cabo o projeto da transposição do Rio São Francisco”, afirma Dom Felix.
Também a Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou uma nota nesta terça em que afirma que se solidariza publicamente com D. Luiz. “Entendemos a radicalidade, o profetismo e a magnanimidade de seu gesto. Quando em nível nacional assistimos a exibição da mediocridade, da mesquinharia, das atitudes mercenárias, o gesto de D. Luís ganha um significado maior. (...) A capacidade de expor a própria vida pelo bem dos outros e em respeito a todas às formas de vida é um gesto raro na humanidade. Não queremos que D. Luís cause danos à sua saúde e muito menos que coloque sua vida em risco. Mas queremos reafirmar nossa solidariedade à grandeza de seu gesto”, diz a CPT.
O teólogo Leonardo Boff, que foi professor de Dom Luiz por cinco anos, avalia que a greve de fome do bispo terá uma “ressonância enorme, já que na região ele é muito popular, tido como uma espécie de Frei Damião”. Boff, para quem Dom Luiz é “um dos bispos mais santos do país”, acha que seu gesto vai causar um grande constrangimento ao governo, já que o bispo é conhecido por sua radicalidade em função de princípios evangélico e, “assim como Gandhi, deve ir até o fim”. Por outro lado, o teólogo também prevê que o bispo sofrerá pressões para suspender a greve de fome por parte da CNBB e do Vaticano, já que a Igreja tem restrições a este tipo de manifestação.
Pressões sociais A greve de fome de Dom Luiz teve início no mesmo dia em que a Agencia Nacional de Águas (ANA) concedeu a outorga e o Certificado de Sustentabilidade Hídrica ao projeto de transposição. Ao mesmo tempo, o Fórum Permanente de Defesa do São Francisco, que já conquistou na Justiça uma decisão que proíbe o início das obras no rio, deve entrar com uma nova ação judicial para anular a outorga, alegando que os documentos que a justificaram contêm várias irregularidades.
Religiosos, ativistas e lideranças de organizações ligadas ao Fórum também deverão ir à Cabrobó no próximo dia 4 para prestar solidariedade ao bispo e chamar a atenção da opinião pública.
Fonte: Agência Carta Maior |