Alta taxa de informalidade, baixa escolaridade, dificuldade de acesso ao crédito, baixos salários, pouco investimento em capacitação, pequena participação em ações coletivas e infra-estrutura reduzida nas empresas convivem com geração de emprego, longevidade dos negócios e manutenção da auto-estima étnica. Este é o resultado da pesquisa divulgada, nesta segunda-feira, pelo Círculo Olympio Marques - Colymar (organização criada para estimular e aprimorar a atividade empresarial da comunidade afro-brasileira) em parceria com a Fundação Interamericana e que será apresentado na próxima quarta-feira, na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).
Os empresários negros brasileiros, mostra a pesquisa, atuam em sua maioria quase na invisibilidade, mesmo quando estão com empresas legalmente constituídas. Os diversos mecanismos de proteção e apoio existentes no país praticamente não são utilizados pelo segmento. Na relação com o sistema financeiro, por exemplo, empréstimos formais praticamente inexistem.
O trabalho releva que 41,1% dos empresários negros recorrem aos cheques pré-datados em suas operações. Ainda com relação ao sistema bancário, entre os que apresentaram pedidos de empréstimos, 60% tiveram suas solicitações negadas sob o argumento de faltas de garantias reais. Talvez essa imagem consolidada, explique o fato de que no universo dos entrevistados, 67,2% digam nunca ter procurado o sistema bancário, embora apenas 16% tenham afirmado que nunca precisaram de empréstimos.
O sistema de microcrédito, criado para facilitar o acesso dos empreendedores aos financiamentos, também não atinge seus objetivos. Apenas 16% se dizem bem informados quanto às alternativas oferecidas, contra 25,47% que afirmam nunca ter ouvido falar da modalidade.
A pesquisa ouviu 326 empresários de oito municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro: Belford Roxo, Duque de Caxias, Nilópolis, Niterói, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, São João de Meriti e São Gonçalo no segundo semestre de 2004. Tomou por base a distribuição proporcional de empregadores por raça e gênero demonstrado pelo IBGE no Censo de 2000. O objetivo do trabalho foi traçar um perfil dos negócios que permita definir propostas de políticas públicas para o segmento e a edição da primeira versão do "Guia de Negócios Afro-brasileiros", que será lançado no dia 21.
O presidente do Colymar, Osvaldo Neves, destaca que, apesar da importância social das empresas pertencentes a negros (pretos e pardos), estas têm peso econômico reduzido: "Socialmente esses negócios têm valor inestimável na formação na cadeia de emprego, sendo ao mesmo tempo uma fonte de renda e de valorização da auto-estima para aqueles que estão empregados. No entanto, temos que reconhecer que ainda formam um contingente de muito baixo valor agregado. As características dos empregos gerados estão na base da cadeia, onde a exigência de capacitação é menor, assim como os rendimentos e salários pagos. É um retrato do quadro social brasileiro."
Entre as principais dificuldades apontadas pelos empresários estão aquelas relacionadas aos custos das empresas, com destaque para as despesas com aluguel (59,9%); a inadimplência dos clientes (49,1%) e as despesas com pessoal (40,5%). Outro grupo é o relacionado ao crédito e tributação. Têm relevância as taxas de juros elevadas (81%); o crédito difícil (65,3%) e carga tributária alta (61,7%). A informática também é um objeto de consumo distante. Não são informatizadas 61,66% das empresas e apenas 20,25% têm páginas na Internet.
Os negros, segundo os dados do IBGE, são 14,80% dos empregadores em todo o estado, enquanto os brancos são 85,20%. No universo pesquisado a proporção é semelhante, com 15,24 % de negros e 84,76% de brancos. Dos 326 ouvidos, 236 foram homens (71,5%) e 90 mulheres (28,5%). A escolaridade revela que 52,31% têm entre oito e 11 anos de estudos e 33,54% mais de 12 anos, enquanto 1,85% têm até três anos de estudos.
As empresas concentram suas atividades majoritariamente no setor de serviços, com 51,05%, seguido pelo de comércio, com 41,54%. A indústria responde por 4%. Em relação ao número de empregados, 188 (57,7%) das empresas têm entre um e três trabalhadores. No outro extremo, com mais de 50 empregados, estão quatro (1,2%) empresas.
Quanto à remuneração, a maior concentração dos empregados (41,10%) recebe entre um e dois salários mínimos. Nos extremos estão 18,71% com um salário e 0,31% entre seis e mais de dez salários mínimos. Outro dado que revela a importância da rede social dessas empresas é o emprego por 37,42% de familiares.
As empresas revelam uma boa estabilidade no mercado, a mais antiga, por exemplo, foi fundada em 1910 (ver Box) e a maior concentração fica entre seis e dez anos de existência (29,63%). Com onze a 15 anos foram encontradas 16,98%. Entre um e cinco anos foram 28,70%. A longevidade, no entanto não significa transmissão entre gerações. A maioria das empresas (62,27% - 203 delas) foi criada pelo próprio entrevistado, que são os únicos proprietários. A informalidade também é elevada: 36,50% não estão legalizadas.
Para criação dos negócios 81,29% do capital tiveram origem familiar. Já 9,51% recorreram a empréstimos de amigos; 8,28% em instituições financeiras; 6,13% em fontes não declaradas e 2,45% em empréstimos obtidos junto a outras empresas.
A motivação para criação do negócio baseia-se principalmente na utilização de experiência profissional no ramo escolhido, com 29,75%. Em seguida equilibra-se entre aqueles que o fizeram por necessidade em função de desemprego e os que criaram devido a oportunidades de mercado, ambos com 22,09%.
Discriminação e Dificuldades - A atividade empresarial nem sempre é tranqüila para os empresários negros. Entre os entrevistados, 35,6% afirmaram que já sofreram discriminação racial no exercício das atividades. Esses afirmam que em 71,6% por parte dos clientes, mas no grupo entram também os próprios empregados, fornecedores, outros empresários, instituições financeiras e, mesmo, durante processos de licitação públicas e privadas.
Outro dado revela que, apesar das inúmeras entidades de apoio aos pequenos negócios, 92,64% dos entrevistados dizem nunca ter se beneficiado de qualquer um desses serviços. Os dados mostram também que 70,86% deles não são associados aos sindicatos de suas categorias, assim como somente 22,70% freqüentam feiras, reuniões e encontros de negócios, com 46,63% que nunca freqüentam. Há, no entanto, segundo Osvaldo Neves, boas perspectivas, pois 70,99% dizem que participariam de associações de empresários afro-brasileiros que oferecessem novas oportunidades de negócios. Fonte: Correio do Brasil
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