Hoje é o dia ''D'' para os que são contra a privatização do BEC. Além do julgamento das ações que estão tramitando na área jurídica, dirigentes do Sindicato dos Bancários e da Associação dos Funcionários do BEC devem se reunir à noite para decidir se vai ou não haver greve da categoria. Além disso, o governador Lúcio Alcântara afirma que vai entrar na Justiça contra o sindicato Os antiprivatistas - sindicalistas, políticos e membros da sociedade civil em geral que são contra a privatização do Banco do Estado do Ceará (BEC) - prometem lutar até o fim para impedir o leilão de venda do banco marcado para amanhã, às 10 horas, na Bolsa de Valores de São de Paulo (Bovespa). O dia de hoje é aguardado com expectativa por causa de decisões na área jurídica (o julgamento das ações diretas de inconstitucionalidade - Adins - no Superior Tribunal Federal - STF), além do parecer do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o preço mínimo, que podem impedir a venda do banco na quinta-feira. Nas agências do BEC, os funcionários estão apreensivos com o que pode acontecer após a privatização. O governador Lúcio Alcântara (PSDB) disse ontem, durante solenidade no Porto do Pecém, que vai entrar na Justiça contra o Sindicato dos Bancários do Ceará para processar a entidade por danos morais. Segundo ele, as informações passadas na propaganda que está sendo veiculada nos meios de comunicação contra a privatização não é verdadeira. Ele rebate a afirmação de que o Estado seria o responsável pela venda lembrando que o banco não é mais estadual. O governador completa ainda que o Estado está apenas querendo receber corretamente o que tem direito nesse processo a fim de abater a dívida no empréstimo para sanear o banco (R$ 945 milhões à época) e receber pela manutenção da conta única. ''A propaganda é desonesta porque oculta a verdade'', disse, prometendo negociar com o futuro controlador para não haja demissões. Ontem, dirigentes do Sindicato dos Bancários e da Associação dos Funcionários do BEC (Afbec) percorreram agências mobilizando os becistas para a assembléia de hoje à noite, às 19 horas, que pode decidir sobre uma greve. ''O objetivo é garantir uma negociação para a proteção social dos funcionários'', comenta o presidente da Afbec, Erotildes Teixeira. Ele adianta que a idéia é assegurar estabilidade para os que estejam próximos de se aposentar, o que deve ocorrer no período de permanência da conta única no banco privatizado. ''O benefício que eles vão receber seria estendido aos funcionários.'' Outro ponto de negociação na assembléia seria a elaboração de um plano de incentivo às demissões voluntárias para quem não quisesse esperar até a aposentadoria. ''Não vamos aceitar demissões em hipótese nenhuma e eles não vão fazer como fizeram quando assumiram outros bancos estaduais, pois aqui temos uma categoria organizada e motivada'', afirma Erotildes Teixeira. Hoje, o deputado Nelson Martins (PT) vai falar, na Assembléia Legislativa, sobre uma nota interna, assinada pelo presidente do BEC, Carlos Alberto Ribeiro da Silva, que foi considerada um deboche. ''Na nota, ele oferece um canal direto (Intranet) para aconselhamento e apoio aos funcionários e cuidados de psicólogo e massoterapeuta para esse período'', diz o presidente da Afbec. ''Isso foi um tapa que gostaríamos de devolver, pois nós não precisamos de compaixão nem de assistência médica'', completa. O presidente do BEC foi procurado por O POVO, mas a assessoria informou que ele não está atendendo a imprensa.
Opiniões "Se é bom para a banca privada (Bradesco, Itaú, GE Capital e Unibanco) ficar com o BEC, também é bom para o Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Na véspera da privatização, eu quero dizer que sempre fui a favor da incorporação. Acho que essa seria a solução. A que manteria mais agências e, conseqüentemente, o nível de emprego atual. Acho que o BEC não deveria ser privatizado, mas incorporado. Porque além de todas essas vantagens, tem umas 150 mil contas - entre funcionários ativos e inativos - que seria fantástico para o BNB incorporar." Raimundo Padilha, presidente da Bolsa de Valores Regional (BVRg).
"Sou contra não só em relação à privatização do BEC, mas de todos os bancos estaduais. O setor financeiro é estratégico para o desenvolvimento de um país com as desigualdades regionais como o Brasil. O segundo ponto é que a venda do BEC ajuda no processo de concentração bancária, que é um desastre para o País. Vamos chegar ao final dessa década com 90 bancos no máximo concentrando a nossa economia. Nos Estados Unidos, são mais de 10 mil bancos, e a economia brasileira é só 20 vezes menor do que a americana. Além disso, a venda dos bancos estaduais abre precedente para privatizar no futuro o Banco do Nordeste, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil, uma tragédia para o Nordeste." Alberto Amadei, administrador e coordenador do Fórum da Transparência.
"O Banco do Estado do Ceará (BEC) é um patrimônio do povo do Ceará e como tal tem que servir aos interesses da sociedade cearense. Infelizmente, a história tem demonstrado o contrário. O povo ficou sempre com os prejuízos e uma minoria se apoderou dos resultados. Ou seja, os prejuízos foram socializados e os lucros, capitalizados para um pequeno grupo. Ademais, o Estado nunca foi um bom gestor financeiro diante da necessidade de contemporizar os interesses políticos e a manutenção do poder. É melhor para o Ceará vender o BEC e aplicar os resultados na construção do seu desenvolvimento econômico e social. Acredito que seja melhor privatizar porque ele sempre serviu a uma minoria de políticos ou empresários, independentemente de qual fosse o governo. Na história dos outros estados essa situação também tem se repetido. O que se verifica é que os governos não são treinados para fazer a gestão financeira de nenhum banco. É incompatível." Alcântara Macedo, economista e diretor da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).
Fonte: Jornal O Povo |