Fale Conosco       Acesse seu E-mail
 
Versão para impressão Diminuir tamanho das letras Voltar Página inicial Aumentar tamanho das letras


Notícias

  09/09/2005 

Furação Katrina ilustra a relação entre efeito estufa, preços e crescimento

Quando o furacão Ivan, categoria 5, atingiu os EUA em setembro de 2004, meteorologistas disseram que uma tempestade dessas dimensões acontece uma vez a cada cem anos. Com Katrina, a repetição agravada do fenômeno em apenas 11 meses já é citada por cientistas (como Sir David King, principal assessor científico do governo britânico) e ambientalistas (como Jörn Ehlers, da WWF alemã, e Ross Gelbspan, editor do jornal The Boston Globe) como mais um sintoma da deterioração do clima global.

O caos em New Orleans e no setor de petróleo pode ser um subproduto do efeito estufa
Como também o foi, aliás, a xará tupiniquim Catarina, de março de 2004 (categoria 1) – primeiro furacão extratropical da história da meteorologia –, e as tempestades, inundações e ondas de calor que têm castigado a Europa, a Ásia e outras partes da América do Norte.

Katrina matou centenas, causou estragos estimados em US$ 25 bilhões e exigiu a remoção total, sob lei marcial, da população de New Orleans, submetida a pilhagem, vandalismo, violência e miséria em uma escala raramente vista em países desenvolvidos depois da Segunda Guerra Mundial. Além disso, paralisou a produção e o refino de petróleo e gás em toda a costa do Golfo. Cerca de 7% da oferta estadunidense foi atingida – o que significa 20 milhões a 40 milhões de barris de produtos ou dois a quatro dias de consumo do país, conforme a duração da interrupção.

No mercado futuro, o barril chegou a ser vendido a US$ 70,80 durante a terça-feira 30 de agosto. A decisão de Washington de liberar parte da reserva estratégica governamental (que totaliza 700 milhões de barris) evitou que as cotações continuassem a subir: nos dias seguintes, giraram em torno de US$ 69.

Em 2004, o auge da alta ocorreu um mês após a passagem do Ivan. Se o precedente valer, o petróleo poderá alcançar US$ 80 em algumas semanas. Mas também é importante notar que os preços já oscilavam em torno de US$ 60 em julho e US$ 66 em meados de agosto, uma semana antes de se ouvir falar de Katrina. Este apenas acelerou a alta, praticamente ininterrupta desde abril de 2003 – ou seja, desde que se completou a invasão do Iraque.

Os constantes ataques da resistência aos oleodutos, termoelétricas e refinarias que se seguiram à intervenção de Washington em Bagdá, bem como a redução da produção da PDVSA depois do locaute e da prolongada interrupção da produção que se seguiram à tentativa de golpe em Caracas, frustrada apesar do apoio estadunidense, têm um efeito não desprezível na restrição da oferta.

Mas, assim como as catástrofes naturais e os intermitentes conflitos étnicos na Nigéria, esses eventos ajudaram a antecipar um processo inevitável. Restam poucas reservas importantes a explorar fora da Opep e talvez nenhuma a descobrir. Há pouquíssima capacidade ociosa em todo o mundo e os países exportadores não estão ansiosos por investir no aumento da produção que poderia diminuir os preços e sua rentabilidade final. Suas reservas, embora grandes, são finitas e se esgotariam em poucas décadas se o crescimento do consumo mantivesse o ritmo atual.

As razões estruturais da alta já foram bem discutidas. Produção e refino não conseguem acompanhar o crescimento continuado da demanda, puxado principalmente pela industrialização da China e pelo consumo dos Estados Unidos. É mais interessante agora perguntar por que esta alta não tem sido economicamente tão nociva quanto os choques dos anos 70 e 80.

A alta se aproxima do recorde de 1980 do ponto de vista dos preços ao consumidor e já o ultrapassa se considerada sob o aspecto dos preços ao produtor. Mais ainda se a referência forem os preços médios das mercadorias do comércio internacional. É verdade que, nos países desenvolvidos, o peso do petróleo no PIB caiu nos últimos 25 anos. Mas muitas de suas indústrias consumidoras de energia foram transferidas para novos países industrializados da Ásia, que hoje usam mais petróleo relativamente a seu PIB que nos anos 70.

Segundo o modelo do FMI, o aumento de US$ 40 nos preços desde 2003 deveria ter reduzido em 2,4% o ritmo do crescimento mundial. Até agora isso não aconteceu, apesar de alguns países asiáticos terem reduzido ligeiramente suas previsões de crescimento para 2005 (de 5,1% para 4,1% a 4,6% na Tailândia, totalmente dependente de petróleo importado) e alguns bancos privados estarem reduzindo suas projeções para 2006 (segundo o UBS, de 8,2% para 7,6% na China, de 7% para 5,5% na Índia, de 4% para 2,5% na Coréia do Sul e de 3,5% para 2,5% em Taiwan).

A revista The Economist de 27 de agosto apontou o aparente paradoxo e concluiu que esta alta é menos danosa por ser resultado não de um choque de oferta imposto pelos fornecedores e sim de um aumento de demanda que reflete uma oferta global mais “saudável”. Além disso, a pressão competitiva da China e de outros países recém-industrializados mantém baixos os preços internacionais de bens de consumo.

É igualmente importante, apesar de não notado pela Economist, que na China, na Índia e em outros países periféricos, inclusive Brasil e Argentina, os preços internos dos derivados estão regulamentados e não refletem a alta internacional. Não afetam seu crescimento e suas exportações – e, por serem esses países superavitários no comércio exterior e parcial ou totalmente auto-suficientes em petróleo, também não afetam drasticamente suas balanças comerciais.

Na Argentina, os preços não aumentam desde 2001, na Índia, desde 2003 – e, no Brasil, desde 2004, embora a alta internacional tenha acumulado 56% em dólar desde o último reajuste, ou 34% se descontada a valorização do real. Na China, os preços foram reduzidos em maio de 2005 (quando o petróleo recuou temporariamente para US$ 48 o barril) e não voltaram a ser reajustados. A decisão de Pequim de suspender o subsídio à exportação de refinados, proibir novos contratos de exportação e estimular a racionalização do consumo mostra disposição de bloquear o efeito inflacionário da alta internacional.

Isso limita o efeito da alta do petróleo sobre o custo de vida dos países desenvolvidos, de forma que seus bancos centrais não se sentem compelidos a aumentar drasticamente os juros para conter a inflação. Nos EUA, por exemplo, a gasolina subiu 6,1% em julho, mas a inflação foi 0,5% e seu núcleo (excluindo energia e outros itens voláteis), de apenas 0,1%.

Naturalmente, se isso é verdade, também significa que esta alta não deverá provocar uma queda abrupta do consumo e dos preços – deverá ser duradoura e, se recuar, será para um patamar bem mais alto do que o mundo estava acostumado há alguns anos. Isto certamente terá conseqüências importantes, mesmo que não tão imediatamente explosivas quanto nas altas anteriores.

Na Europa, dependente de petróleo importado e com uma política monetária apertada, as conseqüências sobre o crescimento são imediatas, ainda que não catastróficas. Na França, esperava-se ver o crescimento econômico acelerar de 0,3% no primeiro trimestre para 0,5% no segundo, mas na realidade freou para 0,1%, dificultando a implantação das reformas trabalhistas liberais desejadas pelo atual governo. Por outro lado, na Alemanha isso tende a manter alto o desemprego e provavelmente favorecer a eleição de um governo conservador.

Nos EUA, com um banco central mais flexível e disponibilidade de crédito ainda praticamente ilimitada, os efeitos tendem a ser adiados, mas poderão ser sentidos com força a médio prazo. A maioria dos estadunidenses comprou carros e decidiu onde morar com gasolina entre US$ 0,30 o litro (1999) e US$ 0,40 o litro (2003). Hoje, têm de pagar pelo menos US$ 0,70, praticamente o dobro. A diferença representa tipicamente US$ 900 a US$ 1.200 por ano, 2% a 3% da renda familiar bruta.

Pode-se esperar uma redução do consumo: de julho de 2004 a julho de 2005, os salários nominais aumentaram só 2,7%, ante uma inflação de 3,2%. Até a bolha imobiliária, que tem sustentado o crescimento da demanda, apesar da queda dos salários reais, pode ser afetada: o alto custo do transporte desvaloriza imóveis mais distantes dos centros de emprego e lazer, responsáveis por grande parte do boom da construção nos últimos anos.

O déficit comercial dos EUA aumenta (recorde de US$ 342,9 bilhões no primeiro semestre), apesar da desvalorização do dólar ante a maioria das moedas do mundo, pois suas importações de petróleo continuam a crescer e o atraso tecnológico de Detroit quanto à eficiência no uso de combustível estimulará a importação de veículos asiáticos e europeus, mais econômicos.

O petróleo barato dos anos 90 foi um estímulo ao desperdício que dificilmente se repetirá. Mesmo setores industriais avançados, dos quais seria de esperar a máxima eficiência no uso de energia, redirecionaram a criatividade dos engenheiros para outras prioridades e muitas oportunidades de economia bem simples e evidentes foram desprezadas.

Em vários países recém-industrializados, a pressa de crescer e conquistar mercados levou as novas indústrias a descuidar do consumo de energia, pois a falta de legislação ambiental e a mão-de-obra barata tornavam rentáveis tecnologias obsoletas e energeticamente ineficientes.

Segundo o Rocky Mountain Institute, ONG estadunidense que patrocina a economia de combustíveis fósseis, poupar um barril de petróleo custa, em média, US$ 12. Isso podia não parecer muito estimulante nos anos 90, quando o petróleo flutuou em torno de US$ 20 e muitos acreditavam que cairia para US$ 5 na década seguinte (no fim de 1998 e início de 1999 chegou a roçar nos US$ 10), mas hoje representa uma economia de mais de 80%. Essa organização criou projetos para novas construções capazes de reduzir o consumo de energia em 75% em uma indústria química e em até 90% em supermercados, além de propor aperfeiçoamentos em refinarias, minas e indústrias microeletrônicas já existentes que reduziriam o consumo em 40% a 60%.

A incitação ao consumo ostensivo de veículos, eletrodomésticos e residências grandes e relativamente ineficientes trouxe estagnação ou retrocesso na economia de combustível relativamente aos padrões atingidos nas décadas anteriores. Nos EUA, o consumo médio dos veículos leves melhorou de 6,8 quilômetros por litro em 1978 para 9,4 em 1987 – mas em 2004 era de 8,9.

Segundo a projeção oficial, o consumo médio nos EUA será de 9,6 quilômetros por litro em 2025 – quase nenhum avanço em 37 anos. Se confirmada, poderia significar a virtual extinção da indústria montadora estadunidense. O Japão já está muito à frente e até a China poderá tomar-lhe a dianteira.

Voltam a florescer tecnologias para economizar petróleo, desta vez provavelmente para ficar. Nos EUA, os motores híbridos gasolina-elétricos, com os quais as fábricas japonesas estão a conquistar o mercado americano. No Brasil, os carros com motor bicombustível ou tricombustível, que passaram de 22% da vendas na média de 2004 para 59% em julho de 2005 e logo deverão chegar a 80%.

Em 2004, Pequim anunciou uma estratégia de melhora rápida da eficiência de novas construções, fábricas e produtos e de controle do consumo de combustíveis: em 2008, carros estadunidenses de alto consumo serão banidos.

É possível até imaginar historiadores do futuro a descrever a alta precoce do petróleo como uma bênção, pois teria colocado a China e outros países periféricos de rápido crescimento econômico (e ainda mais rápida deterioração ambiental) em uma trilha menos insustentável. Por uma das maiores ironias da história, Bush júnior, arquiinimigo do Protocolo de Kyoto, talvez venha a ser visto, pelos efeitos colaterais de sua desastrada política internacional, como artífice involuntário dessa revolução tecnológica. E Katrina como o 11 de setembro ambiental que começou a despertar o público estadunidense para o fato de que o aquecimento global pode ser ainda mais perigoso que o terrorismo.

Fonte: Revista Carta Capital

Última atualização: 09/09/2005 às 14:05:00
Versão para impressão Diminuir tamanho das letras Voltar Página inicial Aumentar tamanho das letras

Comente esta notícia

Nome:
Nome é necessário.
E-mail:
E-mail é necessário.E-mail inválido.
Comentário:
Comentário é necessário.Máximo de 500 caracteres.
código captcha

Código necessário.
 

Comentários

Seja o primeiro a comentar.
Basta preencher o formulário acima.

Rua Nossa Senhora dos Remédios, 85
Benfica • Fortaleza/CE CEP • 60.020-120

www.igenio.com.br