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Notícias

  22/08/2005 

O semi-árido é rico e viável

O agropecuarista paraibano Manuel Dantas Vilar, o Manelito Dantas, defende a viabilidade econômica do semi-árido em sua mais remota vocação: a criação de gado e a ovinocaprinocultura, aliadas à riqueza do próprio ecossistema, com forrageiras nativas de excepcional qualidade

No áspero sertão dos Cariris Velhos da Paraíba fica o município de Taperoá, que já foi o maior produtor de algodão do Estado. A praga do bicudo, na década de 70, acabou com a riqueza vinda das fibras mas, recentemente, uma linhagem selvagem, naturalmente colorida, ressurgiu e anda fazendo sucesso. Mas há uma outra cultura que resiste, faz cinco séculos, às pragas, secas periódicas, modismos e mesmo à nova feição da economia agrícola: a criação de gado e de miunças (ovelhas e cabras). Um dos maiores entusiastas da pecuária no semi-árido e do uso das forrageiras nativas é o engenheiro civil e produtor Manuel Dantas Vilar, o Manelito Dantas, que em meados dos anos 70 iniciou uma criação de cabras sertanejas em parceria com o escritor Ariano Suassuna.

Ariano disse sobre o primo: ''Manelito, que tem uma visão extraordinária, começou a achar que numa zona seca, como o Cariri da Paraíba, não cabe agricultura. E ele tem razão. Porque, veja bem, quando chove, Taperoá é o maior produtor de milho do sertão da Paraíba. Mas quando não chove lá é zero. Zero e mais do que zero, dá ponto negativo, que a pessoa ainda gasta. E a lavoura de milho é delicada, tem que chover, alguns dias depois tem que chover de novo, senão a semente murcha e morre. Manelito plantava milho, algodão e prejuízo. Depois é que a gente começou a criação de cabra, no lugar do milho e do feijão. Ele também cria boi, como o pai dele criava. E a gente acertou''.

A Carnaúba é propriedade da família Dantas Vilar desde o século 18. De pai pra filho, a fazenda foi adiante, anos e décadas, e entrou no século 21 mantendo o mesmo nome. Distante sete quilômetros da cidade de Taperoá, a Carnaúba é uma reserva particular de plantas oriundas do semi-árido, não só do Brasil. O nopal - um tipo de cactácea mexicana, tão importante à cultura do seu povo que figura na bandeira do país - exibe seus verdes e espinhos junto com as nordestiníssimas palmas, facheiros e mandacarus. Pés de acácia dão sombra e servem de casa a uns tantos camaleões que se disfarçam na folhagem. E, na capoeira, uma ema corre livre e solta, como as ancestrais nhandus pré-cabralinas. Visitamos a Carnaúba quando da feitura do caderno especial sobre Ariano Suassuna. A prosa com Manelito foi além das recordações familiares, transbordou o tema do caderno, e abriu a cena para uma visão sobre a caatinga que transcende em muito alguns estudos sobre a viabilidade da região.

OP - A caatinga nordestina é economicamente viável? Por quê?
Manelito Dantas -
Entre todas as zonas secas do mundo, áridas ou semi-áridas, o Nordeste do Brasil é a que tem a maior riqueza vegetal, é a que recebe a maior quantidade de chuva anual, e é a que, até hoje, tem a maior densidade de população. Agora, é a única aonde as coisas ainda não aconteceram pra garantir a vida concreta das pessoas. Ficam agarrados com a transposição das águas e o que aconteceu, secularmente, foi a transposição do povo do Nordeste, comprimido à condição de mão-de-obra barata pra ser incorporada ao desenvolvimento econômico das outras regiões do Brasil. Algumas das nossas plantas são tidas como erva daninha, praga! Passei um pedaço da vida arrancando elas. Depois, fui entendendo: as pragas eram as boas, as leguminosas, as forrageiras melhores do mundo. Aí, passei a plantar e fazer um programa de difusão.

OP - Como o senhor vê a literatura técnica brasileira sobre o semi-árido?
Manelito Dantas -
Se eu encarar a Bíblia como manual técnico, ela foi muito mais importante pra mim, pra me dar baliza pra eu saber como escapar em Taperoá, do que os manuais técnicos de agronomia, mal e porcamente decalcados da cultura do clima temperado. A filosofia contra a seca é contra a realidade, do mesmo jeito que a filosofia da água como fator de produção. O solo do Nordeste é pobre e raso, segundo os manuais. É pobre e raso se você quiser plantar alface ou milho. Pra plantar as forrageiras nativas e as plantas de zona seca, ele é o bom. A fertilidade natural das zonas secas dá de dez a zero na do litoral, exatamente porque não teve água pra lixiviar, pra lavar.


OP - A Carnaúba tem uma enorme plantação de palma, acho que foi a única fazenda, por onde já andei, onde a planta é cultivada em grande escala.
Manelito Dantas - Esta é uma das grandes brigas minhas. É a sétima planta mais consumida do mundo. E aqui, ficam mandando os sertanejos plantar milho, feijão, sorgo, mamona, planta de germinação anual que precisa de distribuição de chuva. Na bandeira do México, tem um tipo de palma, o nopal. Tenho dele aqui, na Carnaúba.


O POVO - Outro destaque da fazenda é a caprinocultura...
Manelito Dantas -
É um animal muito simpático. As cabras nordestinas, sob o ponto de vista genético, são uma coisa superior. Selecionadas por elas mesmas, pela natureza e a intuição criativa de modestos nordestinos da periferia das secas. O administrador e zootecnista das cabras fui eu, mas o ideólogo foi Ariano. Estas cabras daqui são minhas e dele, ainda hoje. Terminou sendo um bom negócio e uma enorme contribuição para a caprinocultura. Hoje em dia, cabra tá na moda, tudo quanto é amador da cidade e intelectual tá se metendo a criar cabra, embora elas continuem valendo mesmo é pro povo do sertão, tá certo?

OP - E que tipos de cabra o senhor cria na fazenda? A maioria dos produtores rurais desdenha a criação das miunças, é quase como um ''enfeite'', só pra dar um leitinho pros meninos e não uma criação que possa gerar lucro.
Manelito Dantas - As cabras foram preservadas da mais remota das secas pelos homens e mulheres simples do campo. Cabra era uma atividade das mulheres, nas fazendas. As cabras brasileiras do Nordeste os técnicos chamam SRD, sem raça definida. É o único lugar do mundo que as cabras não têm nome oficial. Eu disse a eles, peraí, o povo definiu! Moxotó, Gurguéia, Cabra Azul, Canindé, Graúna, Marota e Surrão. Os estrangeiros estranham que no Brasil as cabras se chamem SRD, é o único país do mundo! Repare, é uma expressão transcendendo a menosprezo e desvalorização, não é verdade? Do ponto de vista genético, funcional, elas incorporaram um processo de seleção natural que produz as melhores peles e a carne mais saborosa, enxuta de gorduras perniciosas. E isto não é pensado como um valor. Eu disse a uns técnicos, que vieram aqui: estou convencido de que quem é SRD são vocês. Não sei se vocês são franceses frustrados, portugueses ressentidos ou brasileiros vagabundos, mesmo. Fiquei com fama de linguarudo e agora, ficando velho, quando vou contar estas histórias que já cansei de ficar contando, já digo nome feio na frente das damas. Mas também, já me conformei! Elas não só sabem mais nome feio do que eu como sobretudo usam. Deixei de sofrer.

OP - Com a mudança nos criatórios sertanejos, os pastos cada vez menores, a saída será então a criação extensiva de cabras, ao invés do gado? Penso que, assim, vai favorecer até a preservação da mata caatingueira.
Manelito Dantas - É importante preservar, mas no meio disso tem frescura pra burro, alienação e equívoco, tenha cuidado! Taí a algaroba, uma planta de fora. Ela chegou a ser eleita a redenção do semi-árido. É invasora e tóxica. E se o nome da bicha vier em inglês, é a glória! Enquanto isso, as nativas, adaptadas secularmente, são desprezadas.

OP - Mas o senhor não acha que o ciclo do gado já se acabou?
Manelito Dantas - Se você disser que a era do boi passou no Nordeste, você está atropelando a história do Nordeste e a pecuária do mundo inteiro, que é predominantemente feita nas zonas secas. Representando graficamente esta postura - a era do boi passou, agora é a cabra - passe uma linha que vai dar na direção do preá e da lagartixa. Não entre nesse papo de condenar a vaca e dizer que bom é cabra. Bom são os dois, de acordo com cada microrregião. A Civilização do Couro não aconteceu por acaso nem foi imposta de cima pra baixo, ela veio de baixo pra cima, do semi-árido real pro oficial, tá entendendo? Roteiro que é atropelado pela cultura oficial e tecnológica. E as ovelhas? No Nordeste, ainda hoje tem 56% das ovelhas do Brasil. Aqui, elas perderam o pelo e a pele virou a melhor do mundo.

Fonte: Jornal O Povo

Última atualização: 22/08/2005 às 09:28:00
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