Para Freud, pai da psicologia, o desejo do inconsciente se realiza pelo "ato falho", ou seja, nenhuma fala aparentemente equivocada ocorre por acaso. Acadêmico que é, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sabe disso. É revelador que, ao ser informado de que o PSDB também fez caixa dois com o dinheiro do publicitário Marcos Valério, FHC tenha se entregado: "O que aconteceu no passado, no meu governo, é coisa da história", disse, sem perceber que a denúncia se referia tão somente à campanha do hoje senador e presidente nacional do PSDB, Eduardo Azeredo, ao governo do Estado de Minas Gerais, em 1998.
Na mídia, esse "ato falho" acontece já de forma intencional. Os meios de comunicação de massa preferem chamar de caixa dois o que o PT chama de "dinheiro não contabilizado", ao passo que o mesmo caixa dois, quando aparece no PSDB, por exemplo, transforma-se nas páginas dos jornais em "aporte de recursos numa ação paralela de fortalecimento de campanha" (Folha de S. Paulo).
INVESTIMENTO Apesar desse eufemismo, a mídia não pôde, na semana passada, silenciar a descoberta de R$ 1,9 milhão de reais depositados pela agência SMPB Comunicação, de Marcos Valério, nas contas da campanha de Azeredo, em 1998. E nem que Valério foi avalista de Pimenta da Veiga, ex-presidente nacional do PSDB e ex-ministro das Comunicações de FHC, num empréstimo de R$ 152 mil reais com o banco BMG, em 2004. Por trás desta curiosa predileção da grande mídia estão doações dela própria às campanhas eleitorais. Em relação às registradas no caixa um - doações declaradas - como informa o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fica a dúvida do porquê a Editora Abril, por exemplo, proprietária da revista Veja, doou R$ 50,7 mil a dois candidatos do PSDB e a um do PPS, em 2002. Quais são as razões que levaram o nome da editora da Veja a surgir na CPI dos Correios como a responsável por um depósito de R$ 303 mil em uma conta de Valério? As dúvidas também podem ser estendidas à TV Globo que, com a quebra do sigilo bancário de Valério, aparece com depósitos no valor de R$ 3,6 milhões nas contas do publicitário. Ou ao jornal Folha de São Paulo que, segundo palavras do seu próprio ombusdman, também se esqueceu de explicar aos seus leitores "a transação comercial que o levou a depositar R$ 223 mil na conta da DNA (agência de Valério)".
ÀS CLARAS Apesar de limitado, o financiamento de campanhas políticas por tais empresas ou por pessoas físicas no Brasil é lícito, mas seus dividendos são imensuráveis. Vide a empresa Promodal, associada à Skymaster, que doou R$ 500 mil à campanha de Lula à Presidência, em 2002, e que já no primeiro ano de governo obteve R$ 104 milhões em contrato com os Correios.
Fonte: Jornal Brasil de Fato
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