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Notícias

  07/07/2005 

Pra onde vão nossas esperanças?

Ao ver o governo Lula mergulhado no atoleiro, muito me comove a falta de alternativas para a esquerda no Brasil. Até parece que eu já tinha curado minhas cicatrizes, de quando decidi me desfiliar do PT em 2003, um ano depois de decepção e desesperança com o governo petista. Foi um momento difícil, pois fui atingida nos meus sentimentos mais profundos de militante, através de notas anônimas e até insultos, como tentativas de neutralizar as denúncias que fiz da falta de ética e da sede de poder dos petistas, ao chegarem ao poder em 2002. Só mesmo a solidariedade de muitos/as companheiros/as me deu forças para continuar minha trajetória de intelectual engajada.

A pureza da pessoa de Lula, que conheci de perto, me contagiou com seu discurso emocionado e desejoso de justiça social. Quando tomamos as ruas de vermelho no dia de sua vitória no segundo turno, acreditávamos que aquele nordestino imigrante, que era o próprio símbolo do brasileiro, seria o único capaz de mudar o significado de nossa política tão viciada de nepotismo, fisiologismo e mau uso da coisa pública. Jamais imaginei que o PT poderia se tornar “farinha do mesmo saco”. Porém, Lula se cercou de pessoas autoritárias e ambiciosas como José Dirceu, Genoino e muitos outros, responsáveis pela lama que jorra no Planalto.

Fui considerada radical por muitos dos militantes petistas que ainda tinham esperança numa guinada à esquerda. Eu já tinha abandonado esta ilusão, com Palocci e Meireles à frente de nossa economia, entregando nosso país aos banqueiros, da maneira mais sórdida.

Meus sentimentos voltam mais uma vez a me atormentar com a situação criada pela falta de ética na política e pelo desprezo por aqueles que ainda acreditam nos ideais de justiça social deste país tão desigual. Sabemos que a oposição de direita se organiza com muita competência para voltar ao poder nas próximas eleições, mas ela não seria capaz de criar por si só este mar de lama.

E agora, para onde vão as nossas esperanças? A pobreza e as desigualdades sociais de nosso país já ameaçam a paz com a violência de uma guerra civil não declarada nas grandes cidades. Esta situação me comove pela falta de alternativas para os rumos políticos do país. E diante da crise em que chegamos, penso em Suplicy, Paulo Paim e Jair Meneguelli, que conheço de perto e são políticos que me sensibilizam, mas perderam poder dentro do PT, exatamente por serem éticos.

Aqui no Ceará ainda não perdi as esperanças em Luizianne, a quem ajudei a eleger e tenho respeito e admiração. Mas a sucata de cidade que herdou de Juraci é um fardo pesado demais pra ela, que ainda tem de carregar o estigma de um partido que jogou na lama todos os seus princípios éticos e políticos.

Esta crise política me entristece, choro por naqueles que ainda têm fé, pelos que perderam a esperança e por todos os militantes de esquerda que, como eu, sentem-se órfãos de lideranças e de projetos políticos que possam nos acalentar nesta trajetória de busca da verdade e da justiça.

Cleide Bernal é funcionária aposentada do BNB e professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Ceará

Última atualização: 07/07/2005 às 10:19:00
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