Foi nas salas de aulas das universidades, professor ou aluno, que o economista Roberto Smith adquiriu com Karl Marx (filósofo alemão 1818-1883) o jeito de presidir o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) dentre a urgência de reestruturação e a cautela: operar na realidade, viver na contradição. ‘‘Quando se é governo ou você opera com a realidade ou vai deixar de ser governo’’, diz. Sair do que ele chama de ‘‘faz-de-conta’’ da conturbada administração anterior de Byron Queiroz, retomar o papel de desenvolver o Nordeste, investir no varejo, aumentar o número de operações e o rigor nos empréstimos são diretrizes da presidência que assumiu em fevereiro de 2003, depois de 41 dias de espera pela confirmação do ministro da Fazenda, Antonio Palocci.
Diretrizes que não geraram, até agora, manobras bruscas, tal qual no governo Lula. A meta para aplicação de recursos do Fundo Constitucional de Desenvolvimento do Nordeste (FNE) em 2004 é de R$ 2,5 bilhões, contra cerca de R$ 1 bilhão em 2003. As operações do Programa de Agricultura Familiar (Pronaf) e do microcrédito também deverão ser ampliadas.
Desconhecedor confesso de bancos até então, precisou solucionar o impasse da Caixa de Previdência da instituição (parte dos benefícios foram suspensos na gestão passada) e a greve dos bancários em outubro, pelo reajuste salarial. Não bastasse, passou por uma cirurgia cardíaca feita em São Paulo que o afastou temporariamente do trabalho, mas o forçou a melhorar hábitos.
Smith lecionava na Universidade Federal do Ceará (UFC) antes de chegar ao comando do BNB, além de ser consultor econômico e estar na militância do PT desde a fundação do partido. Paulista, mudou-se para o Ceará em 1977, já nessa época, estudioso do desenvolvimento regional. Smith é mestre pela UFC, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e tem pós-doutorado pela Universidade de Paris XIII. No centro administrativo do banco, no Passaré, Smith recebeu o O POVO para a seguinte entrevista.
O POVO - O senhor vem da academia e agora tem de trabalhar num ritmo diferente e com uma quantidade de temas muito mais ampla. Como foi a adaptação?
Roberto Smith - No banco, trabalho menos em termos de horas. Trabalhava intensamente como consultor e como me dedicava à faculdade, à pós-graduação, à orientação, muitas vezes, o trabalho de consultor ficava atrasado e descontava à noite e nos fins de semana. Na verdade, não sou formado na área bancária, que é muito específica. O ministro da Fazenda quando me nomeou disse ‘‘olha eu avaliei o teu currículo e você não entende de banco’’. ‘‘Tem razão ministro, eu não entendo nada de banco nem de medicina’’. Ele riu muito e disse que nomearia uma diretoria que entendesse de banco para me monitorar. Mas o acerto da diretoria demorou até setembro (de 2003) e tive de aprender forçado. A administração de um banco opera com muita cautela. É como um transatlântico, não se faz manobras bruscas. Um banco é administrado sempre com conservadorismo porque mexe com a questão central do risco.
OP - Por exemplo?
Smith - Primeiro, a situação dos aposentados, da caixa de aposentadoria do banco (Capef). Era urgente porque estava em nível judicial. Tínhamos perdido em duas instâncias e se perdêssemos na terceira também liquidaríamos o banco. Tivemos de convencer os aposentados a sustar as ações judiciais para formularmos um juízo em números e avançarmos em duas frentes, com os aposentados e com o Governo federal. O governo se colocava irremovível com a possibilidade de nos fazer um aporte de recursos porque anteriormente, em 1998, houve um processo envolvendo todas as caixas de aposentadoria e o Banco do Nordeste alegou que não precisava. Perdemos a vez e a coisa ficou aguda. Decidimos resolver a questão endogenamente ao banco, sem esperar recursos nenhum. Fizemos a conta para ver quanto o banco suportava. Fechamos o balanço de 2003 com nível de lucro baixo, mas com a situação resolvida. O Governo federal está nos cumprimentando e dizendo que pretende implementar nossa solução em outros problemas semelhantes. Haveria a possibilidade do processo se estender por mais três anos e deixar os aposentados esperando. Pessoas já em nível de desespero, face à queda no padrão de vida.
OP - O senhor mudou o estilo de vida depois da cirurgia?
Smith - Eu estava muito mau e não sabia. Era preguiçoso para ginástica. Sempre gostei de acordar cedo, mas era a hora para fazer minhas leituras. Faço ginástica por duas horas duas vezes por semana. Chego mais tarde ao banco, às 10h, e tenho tempo para fazer ginástica. O projeto de sair mais cedo já vi que não consigo. Esse ano ainda estava vinculado com a universidade e comecei a pegar um discurso atrás do outro, muita viagem. Mudei também a minha forma de atuar. Como estavam proibidas as viagens comecei a trabalhar mais internamente em cima da resolução dos assuntos do banco.
OP - O senhor assumiu um banco com uma imagem desgastada perante a opinião pública por uma série de questões, desde a Capef, desde denúncias contra o antigo presidente ....
Smith - A Capef foi uma delas, outra que está dentro desse quadro, é a animosidade que existia no corpo funcional. Ao meu ver, a gestão anterior foi infeliz no tratamento da questão das relações humanas. Criou problemas internos. Assumi com a diretoria anterior. Lembro que assim que assumi marquei uma reunião com todos os superintendentes e diretores e começamos um processo muito forte de apaziguamento, de dizer que somos profissionais e isso é uma instituição pública e o que é importante é a instituição. Se formos trabalhar do ponto de vista das paixões vamos liqüidar a instituição. A visão de instituição foi forte. Enfrentamos a primeira greve dentro do banco. Não foi fácil. Tinha acabado de assumir com um mês de operado. O banco estava operando de forma muito baixa com resultados ruins e evidentemente qualquer atendimento das reivindicações salariais passava pelo resultado do banco. O Banco do Brasil saiu na frente com um aumento de 12,5% e a gente não podia segui-lo. Faço um balanço de final de ano e confesso que me sinto de alma lavada. Encontramos um banco que tinha deixado de ser banco. A nossa tarefa era fazer o Banco do Nordeste voltar a ser banco. Ele está capacitado para um volume de operações e tipo de operações de muito maior envergadura.
OP - Havia ou não havia balanços fraudados? O que o senhor constatou nesses meses de presidência do banco?
Smith - Disso eu já tinha pleno conhecimento antes de assumir o banco. Vinha acompanhando com o deputado Pimentel (PT-CE), tínhamos um grupo de trabalho que promoveu um seminário pela universidade denominado ‘‘Fundos Públicos e Democracia’’. A gente fazia as análises das contas do banco.
OP - Estavam fraudadas?
Smith - O termo correto não é fraudado. Quando a gente fala em contabilidade e finanças não estamos perante uma ciência exata. Existem correntes. Se você me perguntar se elas espelhavam a realidade do banco, diria que não. Quando assumimos, a primeira atitude foi de procurar o Ministério da Fazenda para trabalharmos essa questão de trazer o balanço principalmente o balanço de 2002 para a realidade sob vários aspectos. O balanço de 2002 apresentava lucro elevado que não correspondia à realidade. Não é que houve fraude. O que houve foi uma forma de fazer. Não é que ela ofendia as regras contábeis, mas era passível de ser questionada, contestada. Dou um exemplo. Não havia nenhuma provisão para a Capef. No balanço de junho de 2003, fizemos as provisões necessárias e trouxemos o balanço do banco para um contexto de realidade. Apontamos outros problemas. Chamamos atenção dos ministérios da Fazenda e da Integração para o FNE, onde também existe um problema. O patrimônio do FNE não considera prejuízos, está inflado. É necessário estabelecer uma regra para trazer o patrimônio do FNE para a realidade. Quando assumimos, o patrimônio do fundo era de R$ 13 milhões e tínhamos quase metade disso em operações com grande atraso.
OP - Que não eram provisionadas?
Smith - Ainda não são. Uma parte passou a ser provisionada. Até 1998, quando houve o processo recuperação bancária, todo o dinheiro que o banco emprestava enquanto gestor do fundo não gerava risco de crédito para o banco, ou seja, o prejuízo era do fundo. Depois, passou-se a ter uma atuação não expressiva em termos financeiros, mas expressiva em volumes. O valor médio das operações de crédito eram da ordem de R$ 2 mil. A partir daí, foi criado o microcrédito, exitoso, com um programa que merece apoio. Outro programa importante é o de financiamento da agricultura familiar, onde se destaca o Pronaf. Tanto o microcrédito, com o Crediamigo, como o Pronaf têm intenso espectro social. O problema do Crediamigo tem problemas de ordem legal fortemente criticados pelo Tribunal de Contas da União.
OP - Quais problemas?
Smith - O microcrédito tem uma forma específica de operação. Não consegue ter estrutura de custos que sobreviva com padrões bancários, porque a estrutura funcional de um banco faz com que as taxas de juros sejam elevadas, o que entra em contradição com a função social do microcrédito. Criamos então uma Ocip (Organização de Sociedade Civil de Interesse Público) que vai ser responsável pela gestão do microcrédito, que parte do antigo instituto de cidadania do banco e passa a ser o Instituto de Cidadania do Nordeste que vai fazer essa e uma série de ações sociais no Nordeste. Provavelmente, toda a parte cultural do banco ficará com ela. A Ocip está fundada e vai operar em 2004. Passa a financiar atividades rurais não-agrícolas e negociamos com o Ministério do Desenvolvimento Agrário linhas de microcrédito ligadas à agricultura familiar.
OP - Os créditos relativos à inadimplência vão ser recuperados?
Smith - A primeira coisa é diminuir o nível de inadimplência e depois recuperar os créditos não pagos. Para que a inadimplência caia é preciso aparato na avaliação de risco na concessão de crédito. Estamos trabalhando com uma consultoria da Universidade de São Paulo e fortalecendo então esse processo, que é gradual, que depende do conhecimento do mercado, do acúmulo de operações pregressas. Precisamos melhorar o teor da análise dos projetos que entram no banco. Isso não existia. Precisamos implementar.
OP - Como o banco chegou a esse nível de inadimplência?
Smith - Como não tinha risco, até 1998, emprestava à vontade, depois brecou totalmente, então essa área não foi devidamente valorizada. Tanto é que os relatórios do Banco Central são reiterativamente voltados para essa recomendação. Fizemos um esforço de fevereiro até junho para remontar as áreas de controles internos, de auditoria, de controladoria. O banco já teve isso mas teve um retrocesso muito grande. As operações do ano passado do FNE começaram a partir de julho porque a gente não se sentia à vontade para fazer empréstimos sem ter essa retaguarda que nos desse o mínimo de segurança. Estamos também num processo intenso da preparação para recuperação de créditos. Houve recuperação de R$ 580 milhões até novembro, baixa ainda. Percebemos que o banco não vinha cobrando há cinco, seis, sete anos.
OP - As dívidas não cobradas representam quanto?
Smith - Temos um valor da ordem de R$ 6 bilhões. É muito dinheiro.
OP - E o projeto de ampliar para o varejo?
Smith - O banco precisa de autonomia em relação aos recursos do FNE. Sessenta e cinco por cento dos ativos do banco são do FNE. É importante que o banco trabalhe na área comercial de captação de recursos. Temos um corpo de clientes que poderia ser conquistado dentro dessa nova função. O banco está indo competir na função de banco de segundo piso captando recursos e emprestando para bancos de desenvolvimento como os de Minas Gerais e da Bahia, agências de desenvolvimento. Para todos os bancos e inclusive para o Banco da Amazônia estamos repassando recursos captados do BID no Programa de Estruturação de Mercado (PEM) para eles emprestarem a pequenas e médias. São recursos da ordem de US$ 300 bilhões.
OP - Quais as metas para 2004?
Smith - Vamos dobrar praticamente o saldo médio dessas operações. Vamos começar a trabalhar com financiamento de exportações e operações de contrato, expandir operações com FNE que deverão ser superiores, vão mais do que dobrar em 2004. Se aplicamos R$ 1 bilhão em 2003, pretendemos chegar a R$ 2,5 bilhões em 2004. O Crediamigo vai crescer. As operações no Pronaf deverão atingir R$ 550 milhões. O Prodetur terá recursos da ordem de US$ 450 bilhões, são US$ 240 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e US$ 260 milhões, metade do ministérios do turismo, metade dos Estados. A marca Conterrânea do banco, na linha comercial, vai ser bastante divulgada, o cheque especial, o CDC.
OP - Críticos dizem que o banco perdeu o papel de desenvolver o Nordeste. O senhor concorda?
Smith - Essa crítica é pertinente. Na verdade, tanto a idéia de desenvolvimento regional como também de uma política de desenvolvimento industrial foram muito desfocalizadas dentro de toda a interferência do pensamento neoliberal que contraria esse tipo de política, na medida em que ela poderia cheirar um certo dirigismo. Lembro que como consultor, num trabalho na área de planejamento de turismo num estado do Nordeste, fui crucificado porque disse que seriam necessários um planejamento e um sistema de licenciamento de criação de unidades hoteleiras para que não houvesse excesso de oferta. O turismo é um exemplo marcante. O banco deve ter uma visão para o setor produtivo e de serviços pautada numa visão estratégica. Conversei com o presidente do BNDES, Carlos Lessa, sobre ajustar a posição do BNDES, do Banco do Nordeste e do Basa, numa configuração de política industrial para o setor produtivo. Combinamos de começar a estruturar essa visão de política industrial. Se a Sudene for criada como agente espera, ela estaria integrada nesse aspecto.
OP - Mas existe uma expectativa não muito positiva sobre a Sudene.
Smith - Perdeu-se tempo na criação da Sudene que acabou se confundindo com a reforma tributária. Isso acabou esvaziando os recursos do Fundo de Desenvolvimento Regional (FDR) e gerou impasse. É muito ruim a não criação da Sudene porque existem certos aspectos da Sudene como efeito de coordenação em regional que são extremamente importantes.
OP - O senhor disse que o modelo neoliberal não condiz com a política desenvolvimentista, no entanto, a política macroeconômica do Governo Lula tem sido muito semelhante à considerada política neoliberal do Fernando Henrique.
Smith - Descordo. Quando se assume com uma série de condicionantes tem de se eliminar entraves para se ter maiores graus de liberdade para uma condução política. Lembro que, quando eu era estudante na época em que o Delfim Netto era ministro, caiu nas minhas mãos um relatório confidencial mostrando que a margem de manobra do ministro era como se ele estivesse andando num fio de navalha. Quer dizer, com o risco-país que a gente tinha, com essa enorme dependência da dívida externa, sem folga no orçamento, você tem de pôr a casa em ordem minimamente para poder começar a criar graus de liberdade para o exercício de uma política macroeconômica mais direcionada. O risco-Brasil dentro da expectativa de o Lula assumir o governo era praticamente quatro vezes maior e isso influencia na taxa de juros, que começou a decrescer recentemente e tem de decrescer mais para a volta do crescimento.
OP - Não temos um governo de esquerda decididamente. O que é esquerda para o senhor?
Smith - Não temos um governo de esquerda porque não é possível ter um governo de esquerda. Estamos criando as condições para que os programas que a esquerda defendeu possam ser efetivados. Podíamos ter assumido e dito: Não vamos pagar a dívida externa. Mas deixaríamos de ser governo no dia seguinte.
OP -Havia necessidade de ir ao Fundo Monetário Internacional (FMI) novamente?
Smith - O Brasil foi ao FMI em condições favoráveis, agora, de imposição de suas prorrogativas. É muito diferente. É difícil ignorar o FMI. O sistema capitalista está todo dentro de um risco sistêmico. Qualquer grande crise que estourar, estamos de numa situação de exposição. Agora, veja a ação do Brasil na política externa. Estamos construindo um bloco mínimo de poder para que a gente possa fazer passar alguma coisa dos nossos projetos. Credibilidade, poder, ação junto à Organização Mundial do Comércio (OMC). Estamos criando essa formulação de poder dentro de uma visão que não pode ser estreita. Ela significa chamar para a consciência política de uma visão de nação, e não de esquerda, acho que é isso que está faltando. Não diria que é totalidade do partido mas que tenha hoje um pessoal que pensa em termos de nação, mas do que de grupos ou de estados. O processo de aprovação da reforma tributária foi um evidente retrocesso porque os governadores não tiveram visão de nação, mas de estados. A gente até entende, porque eles estão tendo que pagar a folha, o 13º salário e estão afogados.
OP - O senhor concorda com a forma como o governo está negociando a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA)?
Smith - É extremante eficiente. É a forma correta, porque na hora que a gente se impõe, tem respeito e credibilidade e consegue formar um grupo que pensa da mesma forma, vai ter melhores condições de negociar. Se não, vamos virar um quintal do Estados Unidos. Nesse ponto, há uma pressão enorme junto à mídia para forjar um ponto de vista que é contrário a essa formação do pensamento de nação. E isso não é nacionalismo ultrapassado. Presenciei estruturação de negócios extremamente interessantes para o Brasil, mas que ofendiam algum pequeno interesse norte-americano. O departamento de estado norte-americano interfere e destrói. Eles fazem uma política centrada nos interesses deles e ninguém ataca o governo norte-americano de ser estatizante. Crítica que a mídia contempla ao Carlos Lessa, que é uma figura brilhante. Realmente a Vale do Rio Doce precisa estar dentro da órbita brasileira. É a única multinacional que temos, com poderio fora de série. Aí ele deriva uma política siderúrgica para o Brasil. Esses ataques estão impregnados na imprensa e é um sentimento antinação. Então, você diz que eu era de esquerda. Se isso é que é ser de esquerda eu era de esquerda. Não me prendo a palavras. Eu me considero de esquerda. Porém, também sou crítico da esquerda e o principal ponto que eu critico é que ela, em geral, não vem operando dentro da realidade. O que me faz estar dentro do governo Lula com toda essa situação é que a gente opera a realidade. Para mudar você precisa ter coerência. Parece neoliberal porque o neoliberalismo opera com a realidade em alguns pontos. Reconhece que existe um sistema financeiro e toda uma estrutura internacional de poder. Você não muda só com poder de palavras de ordem e pichando muros. E até reconheço que aqueles que exercem palavras de ordem e picham os muros têm seu lugar na política. Um papel importante de não deixar a gente ir muito para direita.
OP — O senhor não acha que o programa Fome Zero está caminhando devagar demais?
Smith - O programa está caminhando muito bem. E é devagar mesmo. É um programa difícil de se cumprir. Vai se arraigando à medida em que pessoas percebem que não é um programa para distribuir dinheiro. Inclui uma noção de cidadania, de reestruturação. Somos um dos principais agentes de apoio. A gente não é muito favorável a estar distribuindo alimentos, gostamos de fazer produzir, mas achamos importante os comitês gestores municipais. O programa vai gerar uma movimentação da renda no Interior. O que foi devagar foi a nossa história. Temos 500 anos de clientelismo. O problema desse programa é não cair no clientelismo. Cadê as mudanças? Não dá para comer cru.
OP - Mas há uma expectativa muito grande da sociedade criada pelo próprio partido ao longo de anos...
Smith - A gente criou e agora está pagando por isso, mas foi a forma de conseguir chegar lá. É contraditório isso. Grande parte do partido percebe que ser governo é outra coisa. Quando se é governo ou se opera na realidade ou se deixa de ser governo. Tem de se trabalhar com a realidade, sobretudo. No governo, passa-se a trabalhar com as restrições.
OP - O senhor não se sente frustrado?
Smith - Muito pelo contrário. Isso Marx (Karl Marx) me ensinou e é o que eu gosto. Ele me ensinou a viver na contradição. A realidade é contraditória e é preciso trabalhar a partir dela. Da minha própria contradição. Do meu lado homem e do meu lado mulher. Tenho uma sensibilidade feminina e trabalho bem com ela.
OP - Então, na sua concepção, o governo Lula é o governo do real?
Smith - Diria que é do real em contraposição ao governo anterior que foi um governo do faz-de-conta. O governo do Banco do Nordeste que me antecedeu foi um governo do faz-de-conta. Ele fez o Farol do Desenvolvimento, que o pessoal diz que é só Farol. A pessoa chegava num município e fazia reunião com associação, sindicatos e escrevia na ata ‘‘contratei 500 pessoas’’. Aí se tem números estratosféricos. Isso aqui é um banco. As variáveis bancárias são financeiras, tem de ter cifrão. E o banco, nos seus demonstrativos, todas as variáveis eram sem cifrão. Então, é faz-de-conta. E a gente está trabalhando com a realidade, porque a gente tem de pôr a casa em ordem. No governo anterior, do senhor Byron, ele tinha amizade com o presidente do Banco Central e o pessoal do banco chegava aqui e era mal recebido. Não se dava informação. A mesma coisa com o Tribunal de Contas. E isso eu falo porque é real. Estamos trabalhando com o Banco Central e o Tribunal de Contas porque estamos querendo consertar. Não dá para acabar com instituições em nome do faz-de-conta.
Fonte: Jornal O Povo ( Páginas Azuis), segunda-feira, dia 5/12/2004. |