Por Marco Aurélio Weissheimer
Após pagar o custo da farra do mercado financeiro, os governos devem ser austeros. No final da reunião de cúpula do grupo dos 20 países mais ricos do mundo, realizada neste fim de semana no Canadá, a chanceler alemã, Ângela Merkel, anunciou que todos os países se comprometeram a reduzir pela metade seus déficits até 2013 (veja aqui a declaração final da cúpula). Já a proposta de criar um imposto global sobre transações financeiras não foi aprovada. França, Alemanha e Inglaterra prometeram avançar unilateralmente com este imposto. A decisão pela redução do déficit foi comemorada pela Alemanha. “Estamos muito contentes por constar na declaração final, de forma inequívoca, a necessidade de os países desenvolvidos cortarem os seus déficits até 2013, começando a reduzir a dívida a partir de 2016”, disse Merkel.
A posição da Alemanha contrastou com a de outros países como o Brasil e a China. O ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, criticou a prioridade dada pelos europeus à questão do déficit. “Em vez de estimular o crescimento, eles prestam mais atenção aos equilíbrios orçamentários”, disse Mantega. Posição semelhante foi manifestada pela China. “Temos de agir de uma forma cautelosa, quanto ao timing, ao ritmo e à intensidade com que abandonamos as políticas de estímulo à economia”, afirmou o presidente chinês Hu Jintao. No documento final do encontro, o G-20 apela aos países emergentes “que tem excedentes” para que contribuam para o combate à crise, adotando “taxas de câmbio mais suaves”, um apelo com endereço certo: a China.
“Sem prejudicar o crescimento”
As duas posições que se enfrentaram no G-20 acabaram matizadas no documento final que defende a sustentabilidade fiscal e a redução dos déficits públicos “sem prejudicar o crescimento”. O documento, obviamente, não sugere como essa mágica pode ser feita. As duas posições que se enfrentaram na cúpula tiveram, de um lado, Europa, Japão e Canadá, e, de outro, Estados Unidos, os países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), mais países emergentes como Argentina, África do Sul e Turquia. Liderados pela Alemanha, o objetivo dos países europeus era conseguir a legitimação do G-20 para os duros planos de ajuste fiscal que a maioria deles está implementando internamente, com cortes de salários e pensões e aumento da idade para aposentadoria.
A reunião de cúpula do G-20 foi marcada por intensos protestos. Cerca de dez mil manifestantes foram violentamente reprimidos pela polícia a poucos quarteirões do lugar onde se reuniam os governantes. A polícia usou bastões e sprays de pimenta para afastar manifestantes que estavam sentados no chão. Os protestos foram organizados por sindicatos e movimentos sociais em protesto contra as medidas propostas na cúpula. O resultado final da cúpula foi uma mediação entre as posições defendidas pelos Estados Unidos (que não abre mão de investimentos públicos para evitar o aumento do desemprego) e pela Alemanha (a principal defensora da agenda da austeridade fiscal). Essa agenda está sendo implantada com força na Europa e já enfrenta forte reação dos sindicatos de trabalhadores.
Ao final da reunião, as diferentes posições declaravam a vitória de suas respectivas posições, o que pode indicar que nada, efetivamente, foi decidido de novo. A União Européia considerou que seus pontos de vista foram em grande parte adotados pelos dirigentes dos demais países. “O resultado da cúpula reflete uma ampla convergência em torno da perspectiva européia”, disse o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso. Ao comentar a menção à “não prejudicar o crescimento”, Guido Mantega disse: “Nessa posição nós vencemos de modo que os países vão continuar estimulando a recuperação”. Já a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, definiu o encontro como “uma cúpula de transição” e que não houve um “choque de ambos mundos”. Possível tradução: o choque foi adiado.
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