"Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, depois brigam, e então você vence". Com esta frase do influente líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948), o inglês David Hillman conclamou o público presente ao seminário Taxação sobre fluxos financeiros para um mundo melhor, promovido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), para entrar na luta por um mundo melhor e ajudar a popularizar a ideia de taxar os fluxos financeiros.
Hillman é coordenador da organização inglesa Stamp Out Poverty, que vem promovendo a campanha Robin Hood de taxação dos fluxos financeiros. Ele participou do último painel do seminário, intitulado Como mobilizar apoio político?, e apontou que os bancos ganham 26% mais do que qualquer negócio no mundo. "Já passou da hora dos ricos redistribuírem suas rendas e colaborarem por um mundo melhor", argumentou.
Também participaram deste painel Jacques Cossart, representante da Associação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (ATTAC)/França, Adhemar Mineiro, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese)/Rede Brasileira Pela Integração dos Povos (Rebrip), e o deputado federal Pepe Vargas (PT/SC). O debatedor da mesa foi o ministro Carlos Alberto Den Hartog, da Coordenação de Mecanismos Inovadores para Financiar o Desenvolvimento.
No primeiro dia, o seminário debateu os temas Crise e regulação financeira, Financiamento do Desenvolvimento e os Objetivos do Milênio e Viabilidade técnica de uma taxação sobre transações cambiais. Na abertura do evento, o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, depois de observar que hoje 2/3 do crescimento do mundo está associado ao desenvolvimento de países não desenvolvidos, como a China, Índia e Brasil, defendeu que o custo dessa nova centralidade deve ser o de conceder maior espaço, maior desenvolvimento global. "Precisamos deixar de ser governados por aqueles que pensaram e propuseram ações para uma realidade que não existe mais", afirmou Pochmann.
O Brasil é país membro da Força-Tarefa de Financiamento Inovador para o Desenvolvimento formada junto com a Alemanha, Áustria, Bélgica, Chile, Espanha, França, Itália, Japão, Noruega, Reino Unido e Senegal. Pochmann foi indicado para o Comitê de Peritos que lançou a versão preliminar de um sumário executivo durante o seminário.
O presidente do Ipea alertou que o desenvolvimento previsto nos Objetivos do Milênio não serão atingidos por todos os países signatários e que a crise financeira internacional afastou ainda mais a possibilidade de se chegar a 2015 com resultados positivos para todos as nações. "Há sinais do retorno a ortodoxia de cortes aos gastos públicos, especialmente na área social, que inviabiliza não apenas a possibilidade de desenvolvimento, mas compromete em termos da possibilidade de uma globalização muito desigual. Estamos diante de uma questão que não pode ser considerada apenas no espaço nacional", colocou Pochmann.
No relatório preliminar do Comitê de Peritos, há estimativas do déficit (gap) de recursos globais entre US$ 324-336 bilhões por ano, entre 2012 e 2017, da soma para mudanças climáticas e Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD). Segundo o documento, "a crise financeira global e a recessão econômica, e as condições fiscais resultantes minaram seriamente a capacidade de os governos respeitarem seus compromissos."
O seminário contou ainda com o lançamento do livro Globalização para todos: Taxação solidária sobre os fluxos financeiros internacionais, editado pelo Ipea e organizado por Marcos Antonio Macedo Cintra, Giorgio Romano Schutte e André Rego Viana. O livro tem o prefácio assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Lula foi citado pelos palestrantes estrangeiros presentes neste seminário como o líder natural desse movimento pela taxação dos fluxos financeiros, que surgiu depois de sua proposta apresentada na Organização das Nações Unidas (ONU), de Ação Contra a Fome e a Pobreza, junto com os líderes da França, do Chile e da Espanha.
"Em 2004, as transações cambiais estavam em torno de US$ 2 trilhões de dólares por dia. Hoje, mesmo depois das graves consequências provocadas pela crise internacional, estão em quase US$ 3 trilhões. Chamar esse setor a dar uma pequena contribuição para construirmos uma globalização mais civilizada não é nada demais", afirma o presidente Lula no prefácio.
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