*Priscilla Dibai
Nosso grito de guerra nas passeatas e protestos de antigamente era algo do tipo: “Quem tem opinião, muda a nação”. Hoje, isso é completo démodé. Quem tem opinião, meus caros, irrita o patrão, é o insuportável reclamão e ainda corre o risco de sofrer do coração.
Hoje, o legal e o saudável é não se indispor, é deixar para lá, fingir que não viu e quando vir, fingir que gostou. A moda é todo mundo se dar e sorrir na mesma foto. Tudo paz e amor. E viva a democracia. Ninguém lembra de quanto ainda é cruel o sistema, de quanta corrupção, desonestidade, esculhambação, fome, miséria, escravidão, pouca educação e muita violência o mundo acumula.
O sujeito tem de ser mais do que competente, especializado, seguro no que faz, tem que agradar, vestir a cara com um baita sorrisão. E se não for assim, é antipatizado e rotulado. Pior ainda se for de dizer a verdade. A verdade, inclusive, é outra coisa que está fora de moda.
Eu fico impressionada com a necessidade da sociedade atual de igualar as pessoas, de padronizar gente, de formar moldes de coisas tão heterogêneas. Às vezes, me sinto um soldadinho de chumbo que alguém deu corda e soltou pelo chão. Muitas vezes, me sinto tolhida porque declaro que tenho inimigos e porque faço o que quero.
Explicando bem, aceitar padrões e regras de convívio social é normalíssimo e super cabível. Faz parte, inclusive, da vida coletiva. O que é chato, desnecessário e desempolgante é buscar, a qualquer preço, o perfeitamente correto, o racional puro, a opinião favorável. Querer que as pessoas abram mão das paixões, desejos e fantasias é cortar a árvore pelo meio e querer que os galhos e folhas do topo continuem vivas. É preciso ser o que se é, é claro que com toda loucura e lucidez que isso implique.
*Priscilla Dibai é jornalista. |