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07/05/2010 |
O desafio da maternidade hoje |
Por Luís Henrique Marques e Virgínia Aparecida dos Santos
O significado do ‘ser mãe’ no contexto da cultura ocidental – e em boa parte de outras culturas – é o da gratuidade e incondicionalidade do amor gerador”. A afirmação do sociólogo e professor doutor Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), parece apresentar, em essência, o papel e o significado do ser mãe. Essa ideia é compartilhada pela psicóloga Heloísa Helena Rocha Silveira, de Belo Horizonte (MG), quando explica que “na maternidade, a mulher encontra o terreno apropriado para realizar o que tem de mais genuíno: o dom de si, sua capacidade de amar e de sofrer”.
Francisco Borba explica que esse significado da maternidade tem sido bombardeado em razão das muitas e graves transformações sociais e culturais nas últimas décadas. De fato, segundo ele, do ponto de vista sociocultural, “a maior dificuldade atual para o ‘ser mãe’ é o esvaziamento do próprio ideal materno, sem que algo seja colocado como alternativa”. Assim muitas pessoas – e, entre estas, muitas mães – renunciam a esse ideal por uma postura de acomodação, argumenta o docente.
Essa postura pode ter consequências sérias no comportamento dos filhos, porque, como afirma a psicóloga Heloísa Silveira, a atitude pessoal da mãe é uma referência para os próprios filhos em todas as etapas de sua vida, “já que pela forma como se posiciona diante das várias fases da existência, sejam elas alegres ou tristes, de vitórias ou de fracassos inerentes à condição humana, poderá ensinar o jeito melhor de fazer”.
No entanto, Borba faz uma advertência: “O fato de que as mães não sejam capazes, em grande parte dos casos, de terem um amor incondicional e gratuito em relação aos filhos não altera o significado e o seu papel de mãe”. Essa atitude de gratuidade das mães exige, segundo a professora Rita de Cássia Nassar Sousa, de Belém (PA), mãe de quatro filhos, uma grande mudança de mentalidade, porque um amor incondicional exige das mães a transformação da capacidade natural de amar para uma maneira sobrenatural de amar.
Abertura aos filhos
Concretamente, uma atitude de amor gratuito implica numa grande capacidade de diálogo com os filhos. “Muitas mães se queixam porque não conseguem se comunicar com os filhos. A falta de diálogo impõe uma relação de desconfiança, de pretensão”, argumenta Rita Nassar. “Nossas palavras não devem ser impostas, mas oferecidas com amor, como expressão de amor”, completa.
Maria José Rigoni, de Duque de Caxias (RJ), também professora e mãe de quatro filhas, concorda com essa posição. Para ela, o diálogo é um instrumento pedagógico fundamental não só para a solução de problemas, mas também para a própria educação dos filhos.
No lugar dos “longos sermões”, não mais aceitos pelos filhos, Rita Nassar sugere “poucas palavras, com firmeza, e envolvidas por um amor desinteressado, puro e pronto a acolher a contramão dos pensamentos”.
O diálogo foi a expressão mais visível da gratuidade também para Aidê Sonia Botti de Souza, de Londrina (PR). “Atualmente, minhas filhas são adultas e casadas, mas quando eram crianças e adolescentes, nós conversávamos bastante”, testemunha ela. E explica: “No entanto, quando julgava necessário, eu usava de firmeza, dizendo o que podia e o que não podia fazer. Quando minhas filhas completaram 18 e 19 anos, mudei o discurso”. Mesmo assim, por trabalhar como coordenadora pedagógica, ela sempre teve posturas rigorosas, que acabava levando para casa. “Então, às vezes, minhas filhas – já maiores – me corrigiam, uma vez que em casa eu não era mais a coordenadora pedagógica. Foi e é um aprendizado contínuo e mútuo entre nós”, diz.
Esse “jogo de cintura” contínuo no papel de educar os filhos tem se tornado cada vez mais intenso para as mães das últimas gerações, especialmente pela crescente valorização de posturas individualistas por parte da sociedade. “Passa-mos de um regime excessivamente autoritário na educação dos filhos”, explica a psicóloga Heloísa Silveira, “a um permissivismo também inadequado”.
Segundo ela, “estamos ainda hoje no desafio de encontrar o equilíbrio entre as duas tendências: compreensão e firmeza; determinação no estabelecimento dos limites indispensáveis e abertura ao diálogo”. Desse modo, a necessidade de vivenciar a própria liberdade e autonomia coloca constantemente as mães em “cheque”. “Muitas vezes, criamos os filhos dependentes, na esperança de protegê-los, de poupá-los de sofrimentos, porém, não é este o nosso papel como mães”, salienta Rita de Cássia Nassar. Para ela, “a correção dada com tranquilidade, com despreendimento, torna os filhos mais responsáveis e ajuda na autonomia”.
Olhar para fora
Além do diálogo, a gratuidade da mãe exige uma atitude de abertura constante aos outros que estão fora do círculo familiar. “Uma família aberta ao outro faz com que a criança cresça com a capacidade de pensar nos outros”, explica Maria José Rigoni. Ela conta que viveu esta experiência com as filhas e o marido ao acolher outra família dentro de casa. Uma família cuja mãe havia falecido e deixado órfãos sete filhos, dos quais o mais novo tinha cinco anos e a mais velha, 16. “Quando essa mãe morreu, a família não tinha nada: a situação era precária, sem comida, sem roupa. Nós envolvemos outros amigos para ajudá-los”. Anos depois, a mais velha se casou e levou os irmãos para morar consigo.
Outra experiência vivida por Maria José e sua família foi a de adotar uma criança. “Uma menina que estudava na escola onde leciono foi abandonada na rua e passou a viver de orfanato em orfanato. Resolvi acolher a jovem que, na época, contava com 15 anos de idade. Hoje, com 21 anos e já na faculdade, essa filha adotiva resolveu sair de casa para morar com amigas. Embora isso tenha causado sofrimento à família, tenho confiança de que essa dor e separação são fases que passarão. Nós precisamos confiar nos filhos também”, conta Maria José.
Tereza Cristina de Jesus Lima, do interior paulista e que, atualmente, mora em Fortaleza (CE), vive uma experiência especial de abertura aos outros. Após sete anos e meio de casamento, Tereza teve que enfrentar a separação. Do maior sonho de sua vida, o casamento passou a ser um pesadelo. Mãe de cinco filhos, ela chegou a adoecer gravemente, a ponto de os médicos não lhe darem mais esperanças de recuperação. Nesse período, recebeu a visita do padre José Sometti, fundador da Associação Nossa Senhora Rainha da Paz (Anspaz), que a convidou a ampliar a sua maternidade para crianças em situação de risco social, indo trabalhar na entidade. Seus filhos biológicos, todos adul-tos, já constituíram as próprias famílias.
“A cura da minha vida se deu através dessas crianças que são abandonadas nas ruas”, conclui Tereza. Há mais de 20 anos, ela trabalha na Anspaz e, atualmente, coordena o projeto Talita Kum, que tem o objetivo de fornecer um lar e uma família para crianças cujos pais não têm condições de criá-las ou educá-las. Ali, ela mora com 12 crianças.
Tempo para os filhos
Embora tendo consciência da necessidade de dedicar tempo para os filhos, a maioria das mães enfrenta o enorme desafio de conciliar vida de família e trabalho. Nesse sentido, elas precisam ser muito criativas. Aidê de Souza, por exemplo, conta que, como coordenadora pedagógica, procurou sempre trabalhar num único turno, reduzindo sua carga horária, de modo a garantir tempo para estar com suas filhas.
Já para Rita Nassar, o importante para conciliar o trabalho fora de casa às exigências da maternidade é viver bem cada momento. “Se estou no trabalho, preciso realizar as tarefas da melhor maneira que posso, se estou em casa, com a família, devo intensificar os relacionamentos entre nós”. Ela lembra que, quando seus filhos eram pequenos, muitas vezes tinha apenas dez ou 15 minutos para brincar com eles, no chão. “Mas era o suficiente, apesar do cansaço”. Maria José Rigoni compartilha dessa opinião: “O amor para mim não é quantidade, mas qualidade”, define.
É fato, no entanto, que as exigências de realização profissional e, sobretudo, as pressões do mercado de trabalho impõem um fardo pesado às mulheres que são mães. Para o professor Francisco Borba, a inclusão da mulher no mercado de trabalho é um fenômeno ambíguo. “Permite que as mulheres tenham acesso às possibilidades sociais de desenvolvimento integral de sua pessoa, mas não permite que isso aconteça de fato, porque o mercado de trabalho está, em geral, mais a serviço da reprodução do capital do que das necessidades das pessoas”, argumenta o sociólogo. Por essa razão, além dos baixos salários, a entrada das mulheres no mercado de trabalho “é feita com poucas concessões às necessidades do grupo familiar, como, por exemplo, a licença maternidade”.
Muito a ser feito
Um dos fatores para essa falta de priorização da maternidade nas políticas públicas pode ser a falta de participação das mulheres nos espaços de decisões. De fato, a pesquisa “A história das políticas públicas materno-infantis no Brasil”, desenvolvida em nível de pós-doutorado pela historiadora e professora doutora Ana Paula Vosne Martins, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), revela o quanto a mulher esteve ausente na definição dessas políticas. “A participação feminina nas políticas da maternidade se deu de forma mais sistemática e duradoura através das instituições filantrópicas, salientando o caráter não profissional de maternidade no país, embora isso não signifique que as mulheres ligadas às instituições de benemerência não atuassem politicamente”, argumenta a professora.
O que chama atenção, segundo a historiadora, é que, desde as primeiras tentativas na elaboração de políticas públicas para a maternidade até hoje, a postura de relegar apenas às mães a tarefa de cuidar e de educar os filhos persiste, inclusive, em documentos e orientações do Estado sobre temas como a gestação e a atenção aos filhos na infância. Duas outras pesquisadoras, Letícia Prezzi Fernandes e Carin Klein, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (U-FRGS), constataram isso ao analisar o “Guia da Gestante, subsídio à Primeira Infância Melhor” (PIM), programa criado em 2003 pelo governo do Rio Grande do Sul com o objetivo de auxiliar o desenvolvimento das crianças de 0 a 6 anos.
O PIM aposta no princípio segundo o qual “a correta maternagem e paternagem pode qualificar a infância melhorando suas condições até se tornarem adultos. No entanto, as pesquisadoras da UFRGS chamam a atenção para o fato de o programa suprimir “o caráter constitutivo e plural da maternidade e da paternidade”. Segundo elas, em algu-mas de suas abordagens, o PIM tende a relegar ao pai uma função de coadjuvante no processo de criação e educação da criança, enquanto à mulher-mãe cabe a exclusividade dessa tarefa.
De fato, na comunicação científica intitulada “Os custos da maternidade na ‘nova’ família brasileira”, Fabrízia Pessoa Serafim, aluna do curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), afirma que, embora a Constituição Federal em vigor traga inovações positivas para a situação jurídica da mulher – como a condição de igualdade em relação aos homens em seus direitos e obrigações – as responsabilidades na criação dos filhos ainda recaem unicamente sobre as mulheres, “prejudicando-lhes o desenvolvimento em outros âmbitos, como o profissio-nal”.
De acordo com a jovem pesquisadora, cujo trabalho foi realizado sob a orientação do professor doutor Jhayr-Philippe Bychara, do Departamento de Direito Público da UFRN, “os custos envolvidos com a maternidade não estão sendo socialmente repartidos”. Nesse sentido, por exemplo, “faltam creches e pré-escolas para atender a educação infantil, direito previsto no artigo 208 da Constituição Federal”.
Para Fabrízia Serafim, como pano de fundo da falta de políticas públicas para a maternidade ou de iniciativas equivocadas nesse âmbito, existem concepções machistas ou meramente instrumentais do papel da maternidade. Curiosamente, no seu artigo 1565, a Constituição Federal afirma: “Pelo casamento, homem e mulher assumem mutuamente a condição de consortes, companheiros e responsáveis pelos encargos da família”.
Compromisso de todos
Além de ser uma grande ajuda para as mães, dividindo com elas o peso da maternidade, a participação dos pais é indispensável para o equilíbrio dos filhos. A psicóloga Heloísa Silveira ressalta que pai e mãe têm funções diferenciadas na educação dos filhos. “O pai tem a função de direcionar, empurrar. É mais racional, objetivo. Para ele é mais natural a colocação dos limites, a exigência no cumprimento do que se combina”. Sobre a função da mãe, a psicóloga afirma que “é mais intuição, emoção, acolhimento, colo, cuidado, flexibilidade, aceitação”. Segundo Heloisa, “numa família onde cada um colabora com o que é peculiar, oferece-se aos filhos um ambiente propício para um desenvolvimento equilibrado da personalidade”.
Mas não basta que o pai exerça bem o seu papel para que a mãe possa desenvolver bem a sua maternidade. Toda a sociedade tem de participar desse processo. Para o sociólogo Francisco Borba, a sociologia tradicional pensava que a dissolução dos vínculos comunitários e o crescente isolamento da pessoa nas grandes cidades eram um fenômeno irreversível, mas surgiram novas formas de agregações sociais. Essas novas formas de relações comunitárias que vêm crescendo, tais como os movimentos eclesiais, as comunidades religiosas, grupos de bairro e associações de pais e mestres, podem ser, segundo ele, um suporte para que as próprias mães assumam melhor seu papel.
Já para as mães entrevistadas nesta matéria, a própria família permanece como o primeiro e insubstituível entre esses grupos, responsáveis por auxiliar a mãe no desempenho de seu papel. Pelo amor mútuo entre seus membros, a mãe pode encontrar aquela “força invisível” capaz de fazê-la lançar-se generosamente na aventura de gerar “homens novos”. E obter muitos e belos frutos. |
| Fonte: Revista Cidade Nova |
| Link: http://www.cidadenova.org.br/RevistaCidadeNova/ |
| Última atualização: 07/05/2010 às 16:02:00 |
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