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Notícias

  06/04/2005 

Lista das tragédias ambientais e sociais do São Francisco

Em tempos de discussão sobre a transposição do São Francisco, Roberto Malvezzi (o Gogó), da da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), nos lembra alguns dados sobre a bacia do São Francisco que podem lançar novos elementos de discussão para o debate. E pensar sobre o modelo de desenvolvimento que viria com a transposição.

1 - Nosso rio não tem mais mata ciliar. 95% já foram desmatadas. Pela largura de nosso rio, ele deveria ter pelo menos 500 metros em cada margem;

2 - Quase todo esgoto doméstico, industrial, hospitalar etc é jogado diretamente no São Francisco desde Belo Horizonte até sua foz;

3 - O modelo agrícola baseado na irrigação intensa e na monocultura eliminou aproximadamente 1.200 nascentes e pequenos riachos no norte de Minas e cerca de 30 no Oeste Baiano;

4 - A construção das barragens em cascata - Sobradinho, Itaparica, passando por Paulo Afonso e indo até Xingó - eliminou as espécies de peixe de piracema de Sobradinho abaixo. A população pescadora teve sua vida mudada e nada foi colocado em seu lugar para sobreviver;

5 - No Baixo São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, 71 das 72 lagoas marginais foram eliminadas. As espécies de água salgada e doce que tinham nessas lagoas seus berçários, hoje não têm mais como se reproduzir. A população que vivia dessa atividade não tem mais o que fazer da vida;

6 - O rio funcionava naturalmente como um ''adubador'' das ilhas, principalmente quando enchia e deixava o húmus sobre a terra. Com as barragens o húmus decanta em Sobradinho e foi eliminada toda atividade agrícola das ilhas;

7 - Com a construção das barragens, 72 mil famílias foram relocadas no Médio São Francisco - Remanso, Casa Nova, Santo Sé e Pilão Arcado - e mais 5 mil famílias na região de Itaparica;

8 - Na época de 2001-2002, Sobradinho chegou há apenas 6% de sua capacidade e na região da Lapa o rio ficou com uma extensão de 50 metros. Na região de Xique-Xique ele era atravessado a pé. Hoje tudo isso está esquecido em nome da Transposição;

9 - As barragens deixaram um caos permanente na vida do povo. Não consegue mais arrumar um rumo de vida;

10 - A famosa irrigação de Juazeiro e Petrolina não incorporou a população local. Os empresários são do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, em articulação com europeus, estadudinenses e japoneses. A população local ficou como mão de obra barata nos perímetros irrigados. As comunidades locais perderam suas terras para as empresas. Portanto, acreditar em reforma agrária nos eixos da transposição é uma ingenuidade inqualificável. Se nunca fizeram reforma agrária aqui e em nenhum canto do Brasil, porque irão entregar as melhores terras da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, juntamente com a água, nas mãos dos pequenos?;

11 - Os poucos colonos que foram assentados pela Codevasf estão inadimplentes por não poderem pagar a água. Isso mesmo: como irão pagar uma água há mil quilômetros se aqui na beira do rio nossos colonos não têm dinheiro para pagar a água?

Fonte: jornal O Povo (coluna Ecologia - caderno especial Ciência & Saúde - circulação de 3 a 9 de abril de 2005).

Última atualização: 06/04/2005 às 14:08:00
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