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Notícias |
02/02/2010 |
A ordem mundial e os desastres naturais |
As poderosas lentes e os sensíveis microfones das mídias contemporâneas estão apontados para a miséria radical do Haiti. A população afro-americana da ex-colônia francesa vem sendo exposta em toda sua fragilidade. É um erro imaginar que os terremotos que sacudiram a superfície do país tenham provocado tudo isto. Na verdade, eles só pioraram a situação de um povo oprimido, sem emprego, assistência médico-sanitária e tudo mais que se possa imaginar para se ter um mínimo de decência social.
Este mesmo povo luta diariamente pela sobrevivência do jeito que pode, com as armas que possui. A regressão a um modo de vida dos séculos passados vinha sendo observada há muito tempo. Se imaginarmos como viviam os escravos brasileiros no contexto da Abolição (1888), sem terra ou trabalho, chegar-se-ia a ver algo bem próximo. Se olharmos com atenção a população de rua das cidades do conjunto das Américas, ver-se-á que o Haiti existe em várias escalas e em quase toda parte. Os haitianos não estão sozinhos. Fazem parte dos milhões de excluídos da ordem material e simbólica do tempo presente.
O Haiti está presente em espírito e sofrimento nas comunidades assoladas pelas chuvas, deslizamentos, secas, alagamentos, inundações, terremotos e maremotos dos países de povos pobres ao redor do planeta Terra. Surgiu, com imensa força, no país mais rico do mundo, nos acontecimentos relacionados ao furacão Katrina, que atingiu New Orleans, em 2005. Esteve presente na complexa tragédia do tsunami asiático de 2004. Em todos esses casos, os mais atingidos são os que pouco ou nada tem. É verdadeiro, que há efeitos colaterais, como se viu, no episódio recente de Angra dos Reis. Mas, numericamente, os que mais sofrem são os mesmos de sempre.
Não foi a natureza que levou os haitianos a tal situação. O que está ocorrendo hoje é um resultado de séculos de problemas jamais integralmente resolvidos. O mesmo pode se dizer dos efeitos sociais catastróficos das forças da natureza em todo o mundo. Os mais pobres pagam a conta de políticas econômicas que os excluem do acesso às tecnologias disponíveis para se protegerem da natureza. O que acontece reflete como a economia é organizada em cada parte do mundo. Documenta também o quê as autoridades públicas não fazem para proteger os que os elegem.
As forças da natureza não pensam, não decidem e nem têm alvos pré-estabelecidos. São caóticas, não possuindo qualquer lógica interna. Simplesmente agem, como sempre agiram por toda a eternidade. Se a teoria do Big Bang está certa, o mundo que conhecemos é fruto de uma grande explosão cósmica. O centro do planeta em que a humanidade surgiu e se desenvolveu é uma bola incandescente. Esta é recoberta por placas tectônicas que compõem a crosta terrestre, em parte, submersa nos oceanos e mares. O centro da Terra se movimenta, as placas também, gerando vulcões, terremotos e maremotos. Em algumas áreas do planeta os riscos são maiores e, hoje, bem conhecidos.
O clima é algo sujeito a inúmeras forças e variações naturais. Hoje, a forte ação do homem sobre a natureza incluiu mais uma variável climática relativa aos efeitos provenientes da produção industrial e do consumo, sem qualquer preocupação ecológica. Diferentemente do passado, se sabe que o desmatamento, as queimadas, a poluição em todas suas variações, a emissão do gás carbônico etc influem na composição e aumento do calor ou do frio, dos ventos, das chuvas, derretimento das calotas polares, dentre outros problemas. Ainda assim, o principal vetor do clima continua sendo a própria natureza na sua indeterminação causal.
As ciências contemporâneas foram muito longe no conhecimento da natureza, conseguindo desenvolver artefatos capazes de compreendê-la e de prever alguns dos seus eventos, com um certo grau de acerto. O furacão Katrina foi previsto e a população de New Orleans foi avisada. Os que tinham condições de abandonar a região, assim o fizeram. O tsunami asiático foi previsto e os possíveis meios de avisar a população não existiam ou não chegaram a tempo. Os terremotos do Haiti foram objeto do mesmo problema. Imaginou-se o seu epicentro no país ao lado, a República Dominicana. Mesmo que os especialistas tivessem acertado e os haitianos tivessem sido avisados, é difícil imaginar que muito poderia ter sido feito, tal a precariedade de vida dos haitianos.
Em países como o Japão, onde os terremotos são constantes, as construções são feitas para resistir a eles. Quando o número de vítimas é grande, isto ocorre, na maioria das vezes nos bairros e cidades onde as habitações são mais precárias, onde moram os excluídos da atual ordem mundial. Os incidentes de Kobe, em 1995, são prova disto. Os números de mortos nas enchentes, tempestades e nevascas ocorridas nas regiões mais ricas da Europa e dos EUA são ínfimos, comparando-se com o que acontece nos locais, onde predominam os mais pobres, em qualquer parte do mundo.
As ciências e as tecnologias podem fazer muito para proteger a espécie humana das forças da natureza. Entretanto, é importante lembrar que o conhecimento humano está longe de poder evitar terremotos, maremotos, nevascas, tempestades de chuva etc. O que ele pode ensinar é a compreensão objetiva destes fenômenos e o que pode ser feito para se conviver com eles, sem maiores danos. As ciências e tecnologias puras não são responsáveis por problemas políticos e morais existentes em cada sociedade.
A miséria e todas suas conseqüências são questões a serem enfrentadas pelas ciências humanas e resolvidas pela ação política. Não adianta somente dizer as pessoas para não morarem nas encostas, porque elas podem deslizar com chuvas mais fortes. É preciso que elas tenham reais condições de se mudarem para regiões com menor taxa de risco. De nada serve saber que não se deve permitir a construção de hotéis de luxo em áreas problemáticas, sem criminalizar para valer a permissividade alimentada pela corrupção. Tanto no Brasil, como na Ásia, este drama vem se repetindo em contextos específicos.
Não é verdade que no Brasil não existam terremotos. Entretanto, a lenda é derivada do baixo impacto destes, na parte ocupada do planeta por este país. Os furacões daqui estão longe de causar o medo dos que assolam o Caribe e o Sul dos EUA. Entretanto, os vendavais brasileiros podem causar enormes estragos e mortes, tal como se viu no que ocorreu em Santa Catarina e outros estados do Sul, entre 2007 e 2009. Dezenas de paulistanos já morreram nas últimas chuvas e inundações da cidade mais rica do Brasil.
A lista de acidentes naturais no Brasil e no mundo é sem fim. O denominador comum de todos os eventos é único: refere-se ao modo que grandes parcelas do tecido social vive e/ou pode viver. Se há algo errado na atual ordem mundial, o mais grave é que ela não foi capaz de incluir a grande maioria nos sistemas de proteção da natureza desenvolvidos pelo trabalho e pelo saber humanos. O que precisa ser resolvido é um modo concreto e rápido de se dar acesso a todos de gozar do conhecimento disponível e de condições de sobrevivência dignas. Se isto não for feito, o Haiti continuará sendo aqui, ali e acolá.
Luís Carlos Lopes é professor e autor do livro "Tv, poder e substância: a espiral da intriga", dentre outros
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| Fonte: Carta Maior |
| Link: http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=4532 |
| Última atualização: 02/02/2010 às 08:00:00 |
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