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  15/05/2009 

Leonardo Boff: Essa sociedade merece sobreviver?

O atual presidente da Assembleia Geral da ONU, Miguel d’Escoto Brockmann, ex-chanceler da Nicarágua sandinista, está conferindo rosto novo à entidade. Tem criado grupos de estudo sobre os mais variados temas que interessam especialmente à humanidade sofredora, como a questão da água doce, a relação entre energias alternativas e a seguridade alimentar, a situação mundial dos indígenas e outros.

O grupo talvez mais significativo, envolvendo grandes nomes da economia, como o Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz, é aquele que busca saídas coletivas para a crise econômico-financeira. Todos estão conscientes de que os G20, por mais importantes que sejam, não conseguem representar os demais 172 países onde vivem as principais vítimas das turbulências atuais. D’Escoto pretende nos dias 1º, 2 e 3 de junho do corrente ano reunir na Assembleia da ONU todos os chefes de Estado ou de governo dos 192 países membros para juntos buscarem caminhos sustentáveis que atendam à toda a humanidade e não apenas aos poderosos.

O mais importante, entretanto, reside na atmosfera que criou de diálogo aberto, de sentido de cooperação e de renúncia a toda a violência na solução dos problemas mundiais. Sua sala de trabalho está coberta com os ícones que inspiram sua vida e sua prática: Jesus Cristo, Tolstoi, Gandhi, Sandino, Chico Mendes, entre outros. Todos o chamam de padre, pois continua padre católico, com profunda inspiração evangélica. Ele é homem de grande bondade que lhe vem de dentro e que a todos contagia.

Foi sob sua influência que o presidente da Bolívia, Evo Morales, pôde propor à Assembleia Geral que se votasse a resolução de instaurar o 22 de abril como o Dia Internacional da Mãe Terra, o que foi aceito unanimemente. Foi honroso para mim poder expor aos representantes dos povos os argumentos científicos, éticos e humanísticos dessa concepção da Terra como Mãe. Tudo isso parece natural e óbvio e de um humanismo palmar. Entretanto, vejam a ironia: representantes de países ricos acham o comportamento do padre muito esquisito.

Apareceu há pouco tempo um artigo no The Washington Post fazendo eco a essa qualidade. Dizia o articulista que Miguel d’Escoto fala de coisas estranhíssimas que nunca se ouvem na ONU, tais como solidariedade, cooperação e amor. Em seus discursos, saúda a todos como irmãos e irmãs (brothers and sisters all). Mais estranho ainda, diz o articulista, é o fato de que muitos representantes e até chefes de Estado como Sarkozy estão assumindo a mesma linguagem estranha. Meu Deus, em que nível do inferno de Dante nos encontramos? Como pode uma sociedade construir-se sem solidariedade, cooperação e amor, privada do sentimento profundo expresso na Carta dos Direitos Humanos da ONU de que somos todos iguais e por isso irmãos e irmãs?

Para um tipo de sociedade que optou transformar tudo em mercadoria: a Terra, a natureza, a água e a própria vida e que coloca como ideal supremo ganhar dinheiro e consumir, acima de qualquer outro valor, acima dos direitos humanos, da democracia e do respeito ao ambiente, as atitudes do presidente da Assembleia da ONU parecem realmente estranhíssimas. Elas estão ausentes no dicionário capitalista. Devemos nos perguntar pela qualidade humana e ética deste tipo de sociedade. Ela representa simplesmente um insulto a tudo o que a humanidade pregou e tentou viver ao longo de todos os séculos.

Não sem razão está em crise que mais que econômica e financeira é crise de humanidade. Ela representa o pior que está em nós, nosso lado demens. Até financeiramente ela se mostrou insustentável, exatamente no ponto que para ela é central. Esse tipo de civilização não merece ter futuro nenhum. Oxalá Gaia se apiede de nós e não exerça sua compreensível vingança. Mas se por causa de 10 justos, consoante a Bíblia, Deus poderia ter poupado Sodoma e Gomorra, esperamos também ser salvos pelos muitos justos que ainda florescem sobre a face da Terra.
http://www.opovo.com.br/opovo/internacional/877666.html

O atual presidente da Assembleia Geral da ONU, Miguel d’Escoto Brockmann, ex-chanceler da Nicarágua sandinista, está conferindo rosto novo à entidade. Tem criado grupos de estudo sobre os mais variados temas que interessam especialmente à humanidade sofredora, como a questão da água doce, a relação entre energias alternativas e a seguridade alimentar, a situação mundial dos indígenas e outros. O grupo talvez mais significativo, envolvendo grandes nomes da economia, como o Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz, é aquele que busca saídas coletivas para a crise econômico-financeira. Todos estão conscientes de que os G20, por mais importantes que sejam, não conseguem representar os demais 172 países onde vivem as principais vítimas das turbulências atuais. D’Escoto pretende nos dias 1º, 2 e 3 de junho do corrente ano reunir na Assembleia da ONU todos os chefes de Estado ou de governo dos 192 países membros para juntos buscarem caminhos sustentáveis que atendam à toda a humanidade e não apenas aos poderosos.

O mais importante, entretanto, reside na atmosfera que criou de diálogo aberto, de sentido de cooperação e de renúncia a toda a violência na solução dos problemas mundiais. Sua sala de trabalho está coberta com os ícones que inspiram sua vida e sua prática: Jesus Cristo, Tolstoi, Gandhi, Sandino, Chico Mendes, entre outros. Todos o chamam de padre, pois continua padre católico, com profunda inspiração evangélica. Ele é homem de grande bondade que lhe vem de dentro e que a todos contagia.

Foi sob sua influência que o presidente da Bolívia, Evo Morales, pôde propor à Assembleia Geral que se votasse a resolução de instaurar o 22 de abril como o Dia Internacional da Mãe Terra, o que foi aceito unanimemente. Foi honroso para mim poder expor aos representantes dos povos os argumentos científicos, éticos e humanísticos dessa concepção da Terra como Mãe. Tudo isso parece natural e óbvio e de um humanismo palmar. Entretanto, vejam a ironia: representantes de países ricos acham o comportamento do padre muito esquisito.

Apareceu há pouco tempo um artigo no The Washington Post fazendo eco a essa qualidade. Dizia o articulista que Miguel d’Escoto fala de coisas estranhíssimas que nunca se ouvem na ONU, tais como solidariedade, cooperação e amor. Em seus discursos, saúda a todos como irmãos e irmãs (brothers and sisters all). Mais estranho ainda, diz o articulista, é o fato de que muitos representantes e até chefes de Estado como Sarkozy estão assumindo a mesma linguagem estranha. Meu Deus, em que nível do inferno de Dante nos encontramos? Como pode uma sociedade construir-se sem solidariedade, cooperação e amor, privada do sentimento profundo expresso na Carta dos Direitos Humanos da ONU de que somos todos iguais e por isso irmãos e irmãs?

Para um tipo de sociedade que optou transformar tudo em mercadoria: a Terra, a natureza, a água e a própria vida e que coloca como ideal supremo ganhar dinheiro e consumir, acima de qualquer outro valor, acima dos direitos humanos, da democracia e do respeito ao ambiente, as atitudes do presidente da Assembleia da ONU parecem realmente estranhíssimas. Elas estão ausentes no dicionário capitalista. Devemos nos perguntar pela qualidade humana e ética deste tipo de sociedade. Ela representa simplesmente um insulto a tudo o que a humanidade pregou e tentou viver ao longo de todos os séculos.

Não sem razão está em crise que mais que econômica e financeira é crise de humanidade. Ela representa o pior que está em nós, nosso lado demens. Até financeiramente ela se mostrou insustentável, exatamente no ponto que para ela é central. Esse tipo de civilização não merece ter futuro nenhum. Oxalá Gaia se apiede de nós e não exerça sua compreensível vingança. Mas se por causa de 10 justos, consoante a Bíblia, Deus poderia ter poupado Sodoma e Gomorra, esperamos também ser salvos pelos muitos justos que ainda florescem sobre a face da Terra.

Fonte: Jornal O Povo
Link: http://www.opovo.com.br/opovo/internacional/877666.html
Última atualização: 15/05/2009 às 11:52:00
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