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Notícias

  13/05/2009 

A operação abafa do PT

Por nove votos a cinco, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos

Deputados rejeitou, na quarta-feira 6, a realização de uma audiência

pública para apurar as denúncias de tortura, no Rio Grande do Sul,

contra a empregada doméstica Ivone da Cruz, em 2001, durante

interrogatório comandado pelo delegado Luiz Fernando Corrêa, atual

diretor-geral da Polícia Federal. O requerimento havia sido feito pelo

deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) com base em reportagem publicada na

edição de 25 de março de CartaCapital. Ivone acusa Corrêa de tê-la

torturado, com a ajuda de outros agentes da PF gaúcha para que

confessasse a participação em um assalto na casa da avó da mulher do

delegado federal. Por causa das supostas sevícias, Ivone ficou cega. Na

Câmara, a empregada tem a companhia de outro denunciante, a ser

convocado pela CDH, o deputado José Edmar (PR-DF). Há seis anos, o

parlamentar acusa Corrêa de, também, tê-lo torturado.

Comandada pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, a base governista da

comissão montou uma operação de guerra para evitar a aprovação do

requerimento de Chico Alencar. Até o líder do PT na Câmara, deputado

Cândido Vacarezza (SP), foi chamado por Tarso para evitar a convocação

– na verdade, um convite – do delegado Luiz Fernando Corrêa. Aos

petistas e aliados da base governista, Vacarezza reverberou a tese da

defesa de Corrêa, baseada pedido de arquivamento da denúncia feito pelo

Ministério Público Federal, em 2007. “Como de costume, o Legislativo

foi a reboque, submisso a outras instâncias”, lamentou Alencar. “Ivone

vai seguir carregando sua cruz, o diretor-geral da PF perde a chance de

jogar luz sobre este nebuloso episódio e a Câmara se apequena”, resume.

Todos os deputados do PT presentes à sessão da Comissão de Direitos

Humanos da Câmara seguiram a orientação do líder Vacarezza. Entre eles,

Iriny Lopes (ES), Pedro Wilson (GO) e Domingos Dutra (MA), todos com

histórico de defesa na área de direitos humanos. O deputado Luiz Couto

(PT-PB), presidente da comissão, foi um dos primeiros parlamentares a

pedir providências para uma apuração parlamentar sobre as denúncias

feitas pela empregada Ivone da Cruz. Na sessão de quarta-feira,

contudo, se absteve de votar. Dos que ajudaram o PT a engavetar o

pedido de audiência pública o maior destaque foi o deputado Edmar

Moreira (sem partido-MG), acusado de usar verbas da Câmara para

construir um castelo na cidade mineira de São João do Nepomuceno.

Indicado pelo DEM, Moreira nunca havia comparecido antes a uma sessão

da comissão.

Sem o apoio da Câmara dos Deputados, a única chance de Ivone da Cruz,

agora, é conseguir levar o caso adiante na Comissão de Direitos Humanos

da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. A julgar pela ação do

PT, na quarta-feira passada, em Brasília, as chances da empregada, em

Porto Alegre, deverão ser menores ainda. Lá, Tarso Genro se articula

ostensivamente para sair candidato do partido ao governo do estado, em

2010. Uma ação dos deputados estaduais contra o delegado Luiz Fernando

Corrêa, homem de confiança do ministro da Justiça no comando da PF,

está, portanto, fora dos planos do PT gaúcho, também detentor da

maioria na comissão de direitos humanos da Assembléia.

A reportagem de CartaCapital demonstrou que o delegado Corrêa comandou

uma operação ilegal para interrogar a empregada Ivone da Cruz, em 2001,

e depois forjou uma versão para justificar o fato de ter atropelado a

competência da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Ouvido pela

sindicância interna da PF, em 2005, o delegado civil Fernando Rosa

Pontes, responsável pela investigação do assalto à casa da avó da

mulher de Corrêa, negou ter solicitado ajuda do colega da PF –

justamente a viga mestra da defesa do diretor-geral. Em 29 de janeiro

passado, o corregedor-geral da PF, Valdinho Caetano, nomeado por Corrêa

pouco mais de um mês antes, arquivou o processo.

Chama a atenção, nesse processo, duas circunstâncias distintas, mas

convergentes. A primeira, diz respeito à posição do ministro Tarso

Genro e, por extensão, do secretário especial de Direitos Humanos da

Presidência da República, Paulo Vannuchi. Ambos defendem a punição dos

torturadores que operaram nos porões da ditadura militar (1964-1985).

Para tal, contam, basicamente, com os depoimentos dos torturados,

exatamente como no caso de Ivone da Cruz. Mas a semelhança do caso não

para por aí. Assim como ocorreu com a empregada, as vítimas da ditadura

também foram neutralizadas por processos legais. Talvez, no entanto,

não tenham passado pelo vexame de, como Ivone, já totalmente cega,

serem chamadas para fazer o reconhecimento visual dos possíveis

algozes.

A segunda circunstância diz respeito à gritante diferença na utilização

de pesos e medidas, dentro da Câmara dos Deputados, para levar

investigações adiante. Na quinta-feira 7, a malfadada CPI das Escutas

Clandestinas, conhecida como CPI dos Grampos, teve um fim melancólico

depois de ter sido criada e mantida artificialmente. Nelson Pelegrino

(PT-BA), relator da comissão, abandonou o posto para assumir um cargo

no governo da Bahia. Foi substituído pela colega Iriny Lopes (PT-ES),

que assumiu a inglória tarefa de encerrar um trabalho totalmente

inócuo.

A Câmara dos Deputados perdeu, ainda, a chance de esclarecer a razão

de, na tarde de 18 de setembro de 2008, o deputado José Edmar (PR-DF),

com as narinas tapadas por chumaços de algodão, ter invadido uma sessão

da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI) do

Congresso Nacional. Na ocasião, o parlamentar virou-se para o

presidente da comissão, senador Heráclito Fortes (DEM-PI) e anunciou:

“Luiz Fernando é um torturador”. Ao lado do deputado, sentado à mesa de

autoridades, o diretor-geral da Polícia Federal não sabia onde meter as

mãos. “E reafirmo, e tenho como provar”, reforçou Edmar.

Naquele mesmo dia, pela manhã, José Edmar havia enviado duas cartas,

ambas com o mesmo conteúdo, uma para Tarso Genro, outra para o ministro

da Defesa, Nelson Jobim. No texto, o parlamentar chama o delegado

Corrêa de “reles”, “trapalhão” e “maquiavélico” e o acusa,

nominalmente, de tê-lo torturado, em 2003, nas dependências da

Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Na época, Edmar, então

deputado distrital ligado ao grupo do ex-governador Joaquim Roriz, foi

preso no bojo da Operação Grilo, da PF, acusado de grilagem de terras

na capital federal. Ficou 29 dias na carceragem da PF. Lá, diz ter sido

torturado física e psicologicamente por Corrêa.

A história de José Edmar foi registrada na Procuradoria-Geral da

República, em 16 de setembro de 2008, dois dias antes de o delegado

Luiz Fernando Corrêa comparecer à CCAI, uma espécie de CPI pirata

comandada por Heráclito Fortes, líder da bancada do banqueiro Daniel

Dantas no Congresso Nacional, montada para dar apoio à CPI dos Grampos,

presidida pelo deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ). Em ambas as

comissões, tinha-se como atividade fundamental desconstruir a Operação

Satiagraha e criminalizar as ações do delegado que a chefiou,

Protógenes Queiroz, agora afastado da corporação.

Na representação criminal, ainda em avaliação, encaminhada ao

procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, o deputado

José Edmar faz uma série de acusações contra o delegado Corrêa, quando

este ocupava o cargo de diretor regional da PF em Brasília, portanto,

segundo na hierarquia da corporação na superintendência da capital

federal. Corrêa, segundo a denúncia, costumava infernizar a vida do

deputado – e dos outros 50 presos mantidos na carceragem – ao bater,

sistematicamente, com um cassetete nas grades da prisão. “Ele gritava

‘confessa, deputado’, e dizia que eu iria ficar muito tempo preso se

não falasse nada”, conta José Edmar. Mas o pior vinha a seguir, diz o

deputado, eleito suplente, mas empossado na Câmara, no ano passado, na

vaga de Augusto Carvalho (PPS-DF), atual secretário de Saúde do

Distrito Federal.

De acordo com o depoimento de José Edmar, logo depois das sessões de

cassetete nas grades, Luiz Eduardo Corrêa ia embora para casa, no final

do expediente, mas mandava cortar a água da carceragem, por até 48

horas. “Éramos 50 homens, urinando e defecando num lugar sem água

sequer para lavar as mãos”, lembra Edmar. “Para agüentar o mau cheiro,

tínhamos que encher as narinas de papel higiênico, mesmo assim, era

muito difícil suportar”, afirma. Foi por essa razão, inclusive, que o

deputado decidiu protestar na CCAI, no dia do depoimento de Corrêa, com

o nariz tapado por bolas de algodão.

“Como o delegado (Corrêa) dizia que a água era cortada por minha causa,

os presos começaram a se voltar contra mim”, conta José Edmar. “Isso

deu início a uma revolta generalizada, e passei a ser ameaçado todo o

tempo”, diz o parlamentar. Corrêa, segundo o deputado, queria que ele

confessasse ser o chefe de um esquema de grilagem de terras cujo

principal articulador, segundo a polícia, era o ex-governador Joaquim

Roriz. José Edmar diz ter sido implicado no caso porque Roriz queria,

na verdade, proteger o ex-deputado distrital Pedro Passos (PMDB). De

acordo com Edmar, Passos, que renunciou ao mandato, em 2007, é “filho

bastardo” de Roriz – outro que renunciou ao mandato de senador, no

mesmo ano, para não ser cassado sob suspeita de corrupção.

José Edmar denunciou Luiz Fernando Corrêa logo depois de sair da

cadeia, em setembro de 2003, há seis anos, portanto. Na tribuna da

Câmara Legislativa do DF, no dia 9 daquele mês, ele contou, pela

primeira vez, ter sofrido maus tratos dentro da carceragem da PF, em

Brasília. Além dos eventos relativos às batidas de cassetetes nas

grades das celas e ao corte de água, Edmar também denunciou a tortura,

por choques elétricos, de um preso identificado apenas pelo primeiro

nome, Marcelo. Na época, o assunto foi encaminhado à Comissão de

Direitos Humanos da Câmara Distrital, mas não deu em nada.

Em 22 de setembro de 2008, quatro dias depois de protestar contra o

diretor-geral da PF no plenário da CCAI, no Senado Federal, José Edmar

voltou a denunciar a tortura. Desta vez, subiu à tribuna da Câmara dos

Deputados. “Fui jogado, injustamente, numa fétida masmorra, e ali penei

por 29 dias”, discursou o deputado. Acusou novamente Corrêa de

torturá-lo e desafiou a PF a provar, seis anos depois, a participação

dele no esquema de grilagem apontado pela Operação Grilo. “Nunca sequer

fui processado”, afirma José Edmar. A prisão dele, no entanto, não

resultou só em complicações pessoais e políticas. Quatro meses depois

de ter sido solto, o filho mais novo dele, de 20 anos, cometeu

suicídio. “Ele não agüentou a pressão contra o pai”, lamenta o

deputado.

Em entrevista a CartaCapital, quando da denúncia de tortura feita pela

empregada Ivone da Cruz, o delegado Luiz Fernando Corrêa negou todas as

acusações feitas pelo deputado José Edmar. De acordo com a assessoria

de imprensa da PF, nenhuma investigação a respeito foi realizada. Na

verdade, a representação criminal feita por José Edmar foi acolhida

pelo Ministério Público e ainda tramita, na Procuradoria-Geral da

República, na forma de procedimento administrativo, e aguarda parecer.

 

Fonte: Carta Capital
Última atualização: 13/05/2009 às 10:38:00
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