A princípio, o NE seria uma das regiões menos atingidas pela crise global, mas dependência de subsídios contamina
Gerada no epicentro do sistema capitalista mundial — os Estados Unidos —, a atual crise financeira não tem uma saída meramente econômica ou social.
Sua superação “é política” e coloca “o Brasil diante de uma oportunidade única de construir uma nova maioria política”, na avaliação do economista Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada do Ceará (Ipea). “A crise durará algum tempo, maior do que se imagina”, disse, reforçando que seus reflexos serão sentidos na trajetória geração de emprego formal e ampliação dos investimentos produtivos, inclusive no Nordeste do País.
A princípio, segundo Pochmann, o Nordeste seria uma das regiões menos atingidas pela crise global, por ter menor grau de industrialização que o Sudeste do País, por exemplo. No entanto, a questão dos subsídios federais contamina regiões que precisam de recursos de transferência para manter a máquina funcionando. Ele se referiu à redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e Imposto de Renda (IR), que acabaram resultado em queda nos repasses dos fundos de participação dos Estados (FPE) e municípios (FPM), no começo deste ano.
“A crise exige, como se fosse um receituário médico, uma injeção na veia. Assim, a redução de impostos é uma medida adequada mas, por se tratarem de recursos compartilhados, era necessário discutir quais as medidas compensatórias (para estados e municípios”, argumentou o economista.
Para ele, só o entendimento político entre os governos, nas três esferas de poder, pode levar à superação do atual momento. Marcio Pochmann participou ontem, em Fortaleza, do debate “A crise econômica mundial - repercussões e conseqüências para o Nordeste”, realizado no plenário da Assembléia Legislativa.
O tema, tão pertinente, fez não só lotar a casa como reunir em um mesmo requerimento de debate público os deputados estaduais Fernando Hugo (PSDB) e Artur Bruno (PT).
O evento contou com a participação do deputado federal Ciro Gomes (PSB) e do secretário da Fazenda do Ceará, Mauro Filho, além de outros políticos.
Investimentos
O vigor com que a crise rebate no Brasil, conforme Pochmann, termina trazendo impactos na receita do próprio governo federal como também dos governos municipais e estaduais. “Então, há uma possibilidade de fato na crise implicar na redução ou desaceleração dos investimentos que estavam previstos”. O Ipea, conforme seu presidente, “trabalhava com a hipótese de que a soma de investidos feitos pelos governadores de estado representasse praticamente um segundo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”, com a mesma dimensão e recursos. “Os governadores, nos dois primeiros anos de mandato, haviam feito uma espécie de dever de casa, preparando seus governos para que, em 2009 e 2010, fizessem muitas realizações”. Pochmann acredita que uma das medidas a serem discutidas para que os governo possam continuar investindo seria a de alargar o limite de endividamento público estadual, hoje limitado a 1,2 vezes a receita corrente líquida (RCL).
A alternativa, sugerida pelo deputado Ciro Gomes, possibilitaria a manutenção do aquecimento econômico ante o cenário de retração dos investimentos privados.
´COLCHÃO DE PROTEÇÃO´
Economista defende medidas de Lula
O economista Marcio Pochmann defendeu as medidas anticíclicas adotadas pelo Governo Lula, afirmando que elas vêm permitindo que o Brasil compense os feitos desfavoráveis da crise. “O aumento real do salário mínimo, a inclusão de mais beneficiários no Bolsa Família e o acesso ao crédito aos agricultores familiares são uma espécie de colchão de proteção para a base da pirâmide social”, disse.
O presidente do Ipea criticou a falta de compromisso de alguns setores beneficiados com as medidas de redução de impostos. “A classe média recebe R$ 12 bilhões de subsídio fiscal e contrata mais de oito milhões de trabalhadores domésticos sem carteira assinada”. Já algumas empresas lançam mão de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e, no outro dia, promovem férias coletivas ou demissão em massa de trabalhadores. A primeira crise do capitalismo globalizado vai implicar em uma nova sociedade pós-industrial. Os atuais padrões de produção e consumo, segundo ele, simplesmente não comportam mais a sustentabilidade ambiental do planeta Terra. “O mundo pós-crise poderá abrir espaço para a construção de um novo padrão civilizatório. É possível uma vida mais simples e com qualidade”.
Segundo Pochmann, 20% da população dos países ricos passaram a ter acesso a bens de alto valor unitário (carros, casas). Se continuada a expansão do consumo nestas bases, serão necessários cinco planetas do tamanho da Terra, em três décadas, para que cada casa comporte bens materiais. Para ele, é preciso reconhecer que o novo motor da economia é a produção imaterial e não física. “Por isso, o setor terciário absorve hoje 70% dos empregos no Brasil. É a sociedade pós-industrial”. Ele acredita na educação como ferramenta de qualidade de vida para crianças, jovens e adultos. Defende o ingresso no mercado de trabalho das pessoas a partir dos 25 anos, após concluído o ensino superior. |