Às 5:30h da manhã desta terça feira (dia 13) iniciaram-se as duas assembléias nas portarias da GM de São José dos Campos. Na pauta dois pontos: a demissão de 744 trabalhadores anunciada no dia anterior, pela empresa, e a discussão sobre a intenção da GM em reduzir o valor da PLR dos trabalhadores. A diretoria do Sindicato e dirigentes da Conlutas presentes em São José iniciaram a assembléia resgatando os alertas que foram dados por estas organizações nos últimos meses: a crise é forte (ao contrário da propaganda enganosa que o governo tem feito pela televisão), e se não houvesse medida concreta por parte do governo para proteger o emprego através de alguma lei, as férias coletivas em que se encontram milhares de trabalhadores acabariam virando demissão.
Os diretores da entidade fizeram uma forte denúncia da atitude da empresa, pois ela ganhou muito dinheiro no último período. Ressaltaram que no ano passado, mesmo com a crise no final do ano, foram produzidos e vendidos 14% a mais de veículos em relação ao ano de 2007. As empresas montadoras de veículos só bateram recordes de vendas e de lucros nos últimos anos em nosso país. Além disso, ganharam muito dinheiro dos governos. O governo federal deu a elas 4 bilhões de reais e o governo de São Paulo mais 4 bilhões. O BNDES destinou a estas empresas dezenas de bilhões de reais nos últimos anos, a juros de pai para filho. A redução do IPI feita pelo governo Lula no final do ano permitiu ganhos adicionais a todas estas empresas.
Argumentaram que é verdade que há uma crise e que esta crise é muito profunda. Infelizmente a população não está consciente da gravidade dela porque o próprio governo fica fazendo uma campanha mentirosa na televisão. Mas a discussão que é necessária, em toda a sociedade é se a crise justifica demissões, redução de salários e de direitos dos trabalhadores.
E o caso da GM é expressão categórica de que as empresas não precisam demitir trabalhadores nem retirar seus direitos. Se a empresa gastar uma pequena parte do que ganhou nos últimos anos, ela poderá pagar os salários e assegurar os direitos de todos os seus empregados por vários anos, mesmo que não vendesse nenhum carro neste período. E este é o problema, a empresa não quer diminuir seus lucros, por isso quer fazer os trabalhadores arcarem com o ônus da crise. E isso os trabalhadores não podem aceitar.
Os diretores do Sindicato ressaltaram que tanto as demissões que a empresa quer fazer, como a redução do valor da PLR que ela quer praticar, são duas faces da mesma moeda, ou seja, transferir para os trabalhadores o custo da crise. E é a empresa que tem que arcar com este custo, pois foi ela que lucrou uma barbaridade nos últimos anos. Ao invés de embolsar todo este lucro, de mandar dinheiro para a matriz nos Estados Unidos, ela deve manter o emprego de seus empregados em primeiro lugar. Se ela fizer isso vai ficar só um pouco menos rica, mas vai continuar rica. Os trabalhadores, por outro lado, se perdem o emprego estão arruinados, perdem a fonte do sustento de sua família, de sua dignidade. E não se pode admitir que, para que a empresa mantenha seus lucros fabulosos, milhares de trabalhadores e suas famílias sejam sacrificados.
Mas os diretores do sindicato cobraram também uma atitude dos governos. Do governo Lula, que foi muito prestativo para socorrer os banqueiros e as empresas, mas não fez nada até agora para proteger os trabalhadores. O Sindicato lembrou que desde o ano passado vem pedindo audiência com o presidente Lula para discutir com ele estes problemas. Que não adianta dar dinheiro para as empresas como vem sendo feito pelo governo. O resultado acaba sendo este que estamos vendo - a empresa pega o dinheiro do governo e financia a demissão de trabalhadores. Se o governo foi capaz de fazer uma Medida Provisória destinando 160 bilhões de reais para socorrer os banqueiros devido à crise, por que não pode assinar uma Medida Provisória garantindo estabilidade no emprego para todos os trabalhadores por um ano, dois anos? Por que não pode estatizar as empresas que teimarem em demitir em massa seus empregados?
Também dos governos do Estado e município foram cobradas medidas. O governo do Estado deu 4 bilhões para as empresas. E agora? A prefeitura de São José se alinhou com a empresa contra o Sindicato no ano passado, alegando que fazia aquilo para defender mais empregos para a cidade. E agora? Feita toda essa discussão, a diretoria do Sindicato ressaltou que, além dos argumentos e da razão, que sem dúvida estão do nosso lado, é preciso força, para obrigar a empresa a voltar atrás nas demissões e a pagar a PLR integralmente. E que, para isso, é preciso a mobilização dos trabalhadores da GM e também da sociedade. Para isso propôs nas assembléias a aprovação de uma pauta de reivindicações e um plano de ação que desse início à luta contra as demissões naquele momento mesmo.
A pauta apresentada tinha três pontos: reintegração dos demitidos; pagamento integral da PLR; e estabilidade no emprego para todos os trabalhadores. Foi aprovada por unanimidade pelas assembléias.
O Plano de ação apresentado consistia em deflagrar um estado de greve na fábrica e ir intensificando o processo de mobilização ao mesmo tempo que se buscaria a empresa e as autoridades para assegurar o atendimento da pauta de reivindicações. O plano, que foi aprovado pela ampla maioria dos trabalhadores foi o seguinte:
- Paralisação de 1 hora já nesta terça feira; - Retomar a negociações com a empresa exigindo a reintegração dos demitidos e o pagamento integral da PLR, e buscar o governo federal para exigir uma lei que assegure estabilidade no emprego para todos os trabalhadores;
- Se não houver atendimento das revindicações, outra assembléia na quinta-feira, dia 15, com aumento do tempo de paralisação dos trabalhadores. Se não houver solução, outra assembléia na próxima semana com mais paralisação, e assim por diante;
- Realizar manifestações de rua, buscando apoio de outros sindicatos, cobrando apoio da prefeitura, dos vereadores, etc.
- Cobrar a audiência que foi pedida com o governo federal e pedir também uma audiência com o governo do Estado. Exigir das autoridades medidas concretas para obrigar a empresa recuar das demissões e para garantir estabilidade para todos os trabalhadores.
Depois de vencido o horário da paralisação de hoje, os trabalhadores entraram para dentro da empresa, conscientes de que a luta vai continuar e intensificar-se já a partir de quinta-feira.
Ainda há muito receio por parte dos trabalhadores, seja porque o medo do desemprego é grande, naturalmente, seja porque os trabalhadores se sentem isolados em uma realidade em que as demais centrais sindicais, que deveriam estar nesta luta, estão do lado dos patrões (como é o caso da Força Sindical), defendendo a diminuição dos salários e a retirada de direitos. A CUT fica negociando banco de horas e fazendo coro com o governo dizendo que não tem crise, ao invés de cerrar fileiras conosco na luta contra as demissões.
O receio dos trabalhadores vamos vencer com muita discussão, aumentando aos poucos o grau da mobilização na fábrica e ampliando o processo de mobilização, envolvendo mais sindicatos e movimentos na luta. E vamos cobrar das demais centrais sindicais, que deixem de lado sua política de ajudar patrões e governo, e venham para a luta em defesa do emprego e dos direitos dos trabalhadores.
|