Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito
Abriste a vela ao trovão.
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada
Aos uivos da marujada
Nas ondas da escravidão!
(Saudação a Palmares - Castro Alves)
O dia de hoje – 20 de novembro - é dedicado ao Dia da Consciência Negra: data não para comemorar, mas para refletir sobre as diferentes formas de escravidão que ainda existem no Brasil, sobre o racismo velado e sobre o que deve ser feito para superar as desigualdades que persistem quando a cor da pele entra em cena.
A data foi escolhida pelo Movimento Negro em homenagem a Zumbi dos Palmares – líder do Quilombo dos Palmares, maior foco da resistência negra à escravidão na história do Brasil, morto nesse dia no ano de 1695 e se contrapõe ao 13 de maio (dia da suposta abolição da escravatura).
Passados mais de 3 séculos da morte do mártir, a questão racial no Brasil infelizmente está longe de ser superada: aqui, a pobreza tem cor e endereço – é negra e vive no Nordeste. Entre os que vivem abaixo da linha da pobreza, os negros são maioria; entre as crianças fora da escola, as negras são maioria, entre os desempregados, idem. Entre os bancários, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) divulgado este ano, apenas 2,4% são negros.
O motivo para esse cenário: preconceito e diferença de oportunidades que, acumulados ao longo da história, resultam num país extremamente desigual, imerso num modelo de sociedade onde ainda prevalece o desrespeito a mulheres, negros e crianças.
A cultura afro, assim como a indígena e a dos demais povos que formam o Brasil são os responsáveis pela riqueza que é a cultura brasileira – tanto nos aspectos visíveis (na culinária, na formação da língua que nos une...) quanto nos aspectos subjetivos (como a coragem, a disposição, a hospitalidade...). A dívida brasileira com os negros é enorme, daí a necessidade de políticas que reparem e tratem diferenciadamente aos negros, não porque sejam melhores ou piores, mas por uma questão de justiça. O caminho para a reparação das injustiças históricas é longo, mas “o caminho se faz caminhando”...
A AFBNB, neste dia, saúda a todos os negros que, com sua coragem e honradez ajudam a construir o Brasil. A luta pelo fim das desigualdades, bandeira de luta nossa e de tantos outros companheiros, só será plena se contemplar também as questões raciais. A morte de Zumbi pela liberdade de seu povo, que também somos nós, não pode ter sido em vão. “Valeu Zumbi! O grito forte dos Palmares!”
Documentário
A agência Brasil produziu um documentário sobre a luta dos quilombolas pelo reconhecimento de seus direitos. Para assisti-lo, clique aqui
Canto Das Três Raças (Clara Nunes - Composição: Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)
Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil
Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou
Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou
E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor
ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô
E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador
Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor |