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Notícias

  14/11/2008 

A hora da maioridade

No próximo dia 28, José Luís Fiori, professor de Economia Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com os colegas Carlos Medeiros e Franklin Serrano, lança o livro O Mito do Colapso do Poder Americano. Como diz o próprio título, a obra reúne ensaios que questionam a tese de que a hegemonia dos Estados Unidos esteja sob ameaça imediata. Segundo a apresentação, o livro oferece uma “leitura alternativa e realista das transformações mundiais do século XXI, promovidas, em grande medida, pela expansão do próprio poder político e econômico americano”.

A seguir, CartaCapital publica com exclusividade um trecho do capítulo onde Fiori trata da América do Sul e de sua relação com os Estados Unidos. O acadêmico aponta o fim da “adolescência” da região e maiores disputas políticas e econômicas entre o Brasil e os EUA para ver quem dá as cartas no pedaço. 

Na América do Sul, o cenário é um pouco diferente, porque nunca existiu no continente uma disputa hegemônica entre os seus próprios Estados nacionais. Primeiro, foi colônia, e depois da sua independência esteve sob a tutela anglo-saxônica: da Grã-Bretanha, até o fim do século XIX, e dos Estados Unidos, até o início do século XXI.

Nesses dois séculos de vida independente, as lutas políticas e territoriais da América do Sul nunca atingiram a intensidade nem tiveram os mesmos efeitos que na Europa. E tampouco se formou no continente um sistema integrado e competitivo, de estados e economias nacionais, como viria a ocorrer na Ásia, depois da sua descolonização. Como conseqüência, os estados latino-americanos nunca ocuparam posição importante nas grandes disputas geopolíticas do sistema mundial, e funcionaram durante todo o século XIX como uma espécie de laboratório de experimentação do imperialismo de livre-comércio.

Depois da Segunda Guerra Mundial, e durante a Guerra Fria, os governos sul-americanos se alinharam ao lado dos Estados Unidos, com exceção de Cuba, a partir de 1959. E depois da Guerra Fria, durante a década de 90, de novo, a maioria dos governos da região aderiu às políticas e reformas neoliberais, preconizadas pelos Estados Unidos. A partir de 2001, entretanto, a situação política do continente mudou, com a vitória – em quase todos os países da América do Sul – das forças políticas nacionalistas, desenvolvimentistas e socialistas, junto com o novo ciclo de crescimento da economia mundial, deste início de século.

A grande mudança, neste novo ciclo de crescimento sul-americano, é o peso decisivo da demanda e da pressão asiática sobre a economia continental. Em particular, da China, que tem sido a grande compradora das exportações sul-americanas de minérios, energia e grãos. Por sua vez, os novos preços internacionais das commodities fortaleceram a capacidade fiscal dos Estados sul-americanos e estão financiando políticas de integração da infra-estrutura energética e de transportes do continente. Além disso, permitiram a formação de reservas em moedas fortes, diminuindo a fragilidade externa das economias regionais e aumentando a capacidade de resistência e negociação internacional dos seus Estados. Como no caso das reservas em moeda forte da Venezuela, que lhe permitiram atuar duas vezes como emprestador em última instância, da Argentina e do Paraguai.

A América do Sul dispõe de recursos energéticos renováveis e não renováveis, grandes reservas minerais, gigantescos mananciais de água, enorme potencial de produção de alimentos e uma riquíssima biodiversidade, junto com seus 370 milhões de habitantes. E o Brasil, em particular, será na próxima década o maior produtor mundial de alimentos, e um dos grandes produtores e exportadores mundiais de petróleo, além de controlar a maior parte do território da Amazônia. De todos os pontos de vista, portanto, a América do Sul é hoje uma região essencial para o funcionamento e a expansão do sistema mundial, e, por isso, deve sofrer uma pressão econômica e política cada vez maior, de fora e de dentro da própria região.

Tudo indica que a China terá uma presença cada vez mais importante na economia sul-americana, mas não é provável que ela se envolva diretamente, nos próximos anos, na geopolítica regional. O mais provável é que esse aumento da pressão competitiva produzida pela nova geopolítica e pelo novo ciclo de crescimento da economia mundial produza um aumento dos conflitos entre os próprios Estados da região, e deles com os Estados Unidos. Já apontam nessa direção o envolvimento militar cada vez maior dos Estados Unidos com a Colômbia, o projeto de transferência da Base de Manta do Equador para a Colômbia, e a reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, para atuar no Atlântico Sul, além da intensificação dos conflitos fronteiriços entre Venezuela, Colômbia e Equador, independentemente de quais sejam os seus motivos imediatos.

E, numa direção oposta, a criação da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), e o projeto de criação do Conselho de Defesa da América do Sul, sem participação dos Estados Unidos, nem tampouco do México e da América Central, além dos projetos de integração física e energética do continente que já estão em curso, com o apoio e o financiamento dos próprios governos e dos capitais privados da região. Essas iniciativas políticas e econômicas representam uma revolução dentro das relações continentais e enfrentam a oposição dentro do próprio continente, dos países e forças políticas favoráveis à manutenção da América do Sul dentro do espaço hegemônico, e do território econômico supranacional dos Estados Unidos.

Já não há possibilidade de escapar da pressão competitiva mundial e isso acelera a formação objetiva e incontornável de um subsistema estatal no continente sul-americano, potenciando o poder interno e externo dos seus Estados. Mas a integração econômica do continente ainda segue sendo um desafio absolutamente original, porque suas economias não são complementares, porque não existe um país que cumpra o papel de locomotiva da região, e porque a América do Sul não tem um inimigo externo comum. De qualquer maneira, a longa adolescência assistida da América do Sul acabou. E o mais provável é que essa mudança provoque, a médio prazo, uma competição cada vez mais intensa entre o Brasil e os Estados Unidos pela supremacia na região.
Fonte: Carta Capital
Última atualização: 14/11/2008 às 09:32:00
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