Algumas analistas começaram suas considerações sobre a crise que começou abalando os mercados financeiros e já atinge a economia como um todo com afirmações do tipo: não é o fim do mundo. Isto se justifica pelo fato de que nas sociedades modernas o sub-sistema econômico se tornou uma instância fundamental da vida coletiva de modo que as pessoas por oportunidade de crises têm a impressão de que tudo desmorona. Um elemento positivo deste fenômeno é que ele obriga as pessoas a refletir sobre o tipo de mundo que construímos e isto constitui uma chance de que se levante a pergunta pela possibilidade de uma outra configuração da vida coletiva.
Evidentemente isto depende muito de como se compreende este fenômeno. O Prof. Delfim Neto, por exemplo, defendeu num debate organizado pela Folha de São Paulo a tese de que as crises constituem algo normal na economia de mercado e inclusive lhe são úteis. Para ele esta é 46ª crise identificada e isto é o resultado da forma mesma como funciona a economia de mercado. A solução consiste no seguinte: quando aparece uma crise é necessário procurar suas causas; em seguida deve acontecer um diálogo entre a teoria e a realidade a fim de que as causas sejam corrigidas (a crise dos anos 80 foi produzida pelo excesso de regulação, esta agora pela falta de regulação) e o processo produtivo possa continuar seu curso. No entanto, para ele quem compreendeu a lógica que rege a economia de mercado sabe que com a solução para uma crise, uma outra já está emergindo e vai explodir mais tarde. O importante nesta interpretação é de que se trata aqui de um mecanismo de purificação do sistema que foi capaz nos últimos 150 ou 200 anos de trazer a humanidade da Idade da Pedra para a da Informática.
Sem dúvida há um elemento correto nesta leitura: uma economia de mercado não possui um centro de coordenação e as relações entre seus participantes vão evoluindo de acordo com sua dinâmica própria. Neste sentido específico se fala de anarquia significando ausência de poder e no mercado o único poder é o poder dos participantes e competidores. Ora, o resultado desta competição é em princípio imprevisível e está sob muitos aspectos sujeito ao acaso uma vez que os planos privados dos diferentes competidores são conservados em segredo o que por princípio torna impossível uma coordenação prévia. Este mecanismo leva, então, o mercado a forçar a compatibilização dos planos privados através da eliminação de uns e da premiação de outros. Os lances de todos são dados no escuro, portanto, o risco é inerente a este sistema. A coisa se torna mais aguda nos mercados financeiros em que uma massa de especuladores visa maximizar ganhos o mais rápido possível. O resultado são seguidos ciclos financeiros: uma fase de alta em que uma bolha especulativa vai supervalorizar certos ativos financeiros seguida por crise, pânico, quebras, etc.
Para além do otimismo de Delfim Neto, é possível levantar algumas questões básicas. Uma primeira, acentuada na discussão atual, é a respeito da relação entre Estado e Mercado. A história recente parece apontar para o fato de que nem o excesso de regulação nem sua ausência absoluta conduzem a resultados satisfatórios. Uma outra questão básica é que os ciclos de prosperidade recentes se basearam em fontes de energias poluentes e excluíram enormes parcelas de população pelo mundo afora. Isto tudo conduz a uma pergunta mais radical: não será possível pensar num outro tipo de sociabilidade em que a economia possa estar a serviço das necessidades reais das pessoas? Não é possível pensar uma economia sob controle social que radique as relações entre as pessoas na cooperação, partilha, complementaridade e solidariedade? Não é possível encontrar um modo democrático e igualitário de regulação da economia?
Manfredo Araújo de Oliveira - Filósofo |