As mudanças vivenciadas pelo Brasil nos últimos 50 anos tiveram reflexos profundos no Nordeste. Tais impactos, no entanto, não foram suficientes para mudar o retrato de vida nos noves estados da Região. Embora tenha registrado avanços que diz respeito à educação e expectativa de vida, o Nordeste ainda conta com as maiores taxas de mortalidade infantil e de analfabetismo no país.
Segundo o estudo "Tendências Demográficas" divulgado na última semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), entre 1950 e 2000, enquanto as taxas nacionais de analfabetismo no final do Século XX variavam em torno dos 13,8% e 13,5% para homens e mulheres, respectivamente, o percentual de analfabetos no Nordeste era de 28,3% para homens e 24,2% entre as mulheres. O quadro mais grave é verificado em Alagoas, onde os índices de analfabetismo superam um em cada três pessoas.
O levantamento revela algumas surpresas, como o fato da Região contar com o maior percentual de deficientes no país: 16,8%. Ao passo que a média nos estados do Sudeste é de 13,8% da população. Também é no Nordeste que está a maior parte da população brasileira que se declara católica (79,9%), tendo o menor número de evangélicos (10,3%). A Bahia ganha destaque quando analisado o percentual de pessoas sem nenhuma religião: 11,4%.
Por significativa melhora, entenda-se o fato de, segundo a pesquisa, o percentual de esperança de vida dos nordestinos ao nascer ter quase duplicado nos últimos 50 anos. Na primeira metade do Século XX, um nordestino ao nascer contava com esperança de viver 35,9 anos. Em 2000, a expectativa de vida na Região cresceu para 67,1 anos.
No mesmo período as taxas de mortalidade infantil foram reduzidas de 175 para 42,3 mortes a cada mil nascimentos. A melhora é inegável, mas o índices ainda estão abaixo da média nacional. A expectativa de vida do brasileiro é, desde o início do novo século, de 70,4 anos. A taxa de mortalidade infantil nacional é quase 50% inferior à verificada no Nordeste.
Estar em último lugar na lista, no entanto, não significa necessariamente ser pior. O Nordeste verificou em 50 anos o menor crescimento no número de residentes em todo o país. De acordo com os dados do IBGE, o crescimento populacional da Região no período foi de pouco mais de 275%, abaixo da média nacional de 325%, ou menos da metade dos 650% verificados no Norte do país. O menor crescimento nordestino tem explicação: a criação de novos estados no Norte do país gerou um intenso fluxo migratório que justifica o “boom” populacional em direção à região amazônica.
A média geométrica do crescimento no país foi de 1,64% ao ano, ao passo que no Nordeste ficou em 1,31% a cada doze meses. A distribuição populacional pelos estados nordestinos foi, como esperado, desigual, sobretudo nos últimos dez anos do período verificado.
Entre 1991 e 2000, apenas nove unidades da Federação registraram crescimento da média geométrica populacional inferior à média nacional, das quais cinco - Alagoas, Paraíba, Piauí, Bahia e Pernambuco - estavam no Nordeste. Entre os 14 estados que cresceram entre 1,5% e 3% estão os quatro nordestinos restantes - Maranhão, Rio Grande do Norte, Ceará e Sergipe - já que as taxas de crescimento superiores a 3% só foram verificadas no Norte do Brasil.
Se considerados os municípios, a diversidade é ainda maior, já que em várias cidades foi verificada a redução populacional. Entre os 1496 municípios brasileiros que tiveram crescimento demográfico negativo nos últimos 50 anos, a cidade de Ilhéus (BA) aparece como destaque na Região Nordeste. Entre as que tiveram crescimento abaixo da média nacional, o destaque na Região é para Recife (PE). As outras oito capitais nordestinas estão no conjunto de cidades com crescimento dentro da média.
Entre as curiosidades reveladas pela pesquisa do IBGE está o fato do Nordeste contar o maior percentual de pessoas que se declaram pardas (58%). Na média nacional, a maior parte dos brasileiros se declara branca (53,7%), ao passo que apenas 32,9% dos nordestinos se declaram brancos. Considerada a raça negra, os percentuais são ainda menores. Nos nove estados da Região, apenas 7,7% da população se considera negra. O maior percentual de negros declarados foi verificado na Bahia: 13%, mais que o dobro do verificado em todo o país (6,2%).
Apesar de ser a região com o maior número de católicos, o Nordeste registra os maiores índices de "uniões consensuais" não consideradas pelo Vaticano como a união perfeita para casais. Os concubinos são 33,1% dos casais no Nordeste, contra a média nacional de 28,6%. Sergipe se destaca como o Estado com o maior número de uniões consensuais entre os nordestinos: 40,2% do total.
Já as uniões formais - casamento no civil e no religioso – somam 36,4% dos casais nordestinos, percentual que está abaixo da média nacional de 49,5% de casamentos oficiais. Se considerados os casamentos somente no religioso, o percentual nordestino sobe: são apenas 9,5% - mas o índice é mais que o dobro da média nacional de 4,4% de casamentos no religioso.
A pesquisa ainda traz algumas avaliações para o futuro. A expectativa é de que o crescimento populacional verificado nos próximos 50 anos verifique algumas alterações, sobretudo quanto distribuição de brasileiros pela pirâmide social. Os brasileiros serão 259,8 milhões de habitantes, o que representa um aumento de 90 milhões de pessoas a mais espalhadas pelos estados brasileiros.
A estimativa do IBGE é de que a população seja menos jovem - já que a expectativa de vida hoje é maior e deve seguir em rota ascendente e as taxas de fecundidade das mulheres menor - o que exigirá dos governos futuros mais preocupação com os adultos e idosos, sem descuidar-se, no entanto, dos jovens e crianças do país.
Fonte: Agência Nordeste |