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Notícias

  04/06/2008 

Meio ambiente: Crise destaca necessidade de rever consumo

Amanhã comemora-se o Dia Mundial do Meio Ambiente, pelo menos, se deveria comemorar. Mas — entre plantios de árvores, que muito provavelmente não sobreviverão à próxima comemoração, e lançamentos de projetos e programas, que o brasileiro está acostumado a não ver vingar — muitas discussões, importantes para o aumento da permanência do ser humano na Terra, são travadas. Ainda bem!

A principal delas, que vem tirando o sono de muita gente, está relacionada às mudanças climáticas globais, comprovadamente acentuadas pela interferência do ser humano na dinâmica de funcionamento do planeta, intensificada no período pós-industrial, com o aumento das emissões dos chamados gases geradores de efeito estufa (GEE).

O assunto tem sido destaque nas principais reuniões entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento, que, na maioria dos casos, têm buscado soluções para a redução das emissões, inclusive, na produção de bicombustíveis, renováveis e menos geradores desses gases.

Mas as mudanças climáticas — e a produção de biocombustíveis, aliadas a outros fatores, trazem, neste primeiro semestre de 2008, uma nova problemática à tona: uma crise na produção de alimentos que já não afeta apenas a imensa massa de excluídos. Quem diria que até os norte-americanos estariam, neste momento, racionando um alimento tão básico quanto o arroz?

A questão central está, não apenas nas práticas produtivas adotadas pelo ser humano, mas em padrões de consumo incompatíveis com os recursos ofertados pelo planeta.

Especialistas afirmam que o fenômeno não é passageiro, mas problema estrutural, de longa duração. As principais explicações para o problema têm características específicas, naturais e/ou antrópicas (relativas à ação do ser humano sobre a natureza), nas diferentes regiões do planeta. De imediato, os efeitos atingem, de forma comum, às populações mais pobres. Essa reflexão é da professora do Curso de Engenharia Ambiental do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-CE), Lúcia de Fátima Pereira Araújo.

Alerta

Segundo suas informações, no Brasil, o cenário deve ser visto como um alerta, especialmente sobre a necessidade de políticas orientadas para melhorar a vulnerabilidade dos mais carentes.

A professora destaca que o padrão tecnológico do agronegócio — baseado na monocultura, uso intensivo de agroquímicos, equipamentos pesados e gasto excessivo de água e energia — além de não se ajustar às condições da pequena agricultura familiar, vem gerando desequilíbrios nos ecossistemas, com a multiplicação de pragas, esterilização dos solos, assoreamento dos rios e reservatórios, poluição das águas, desmatamento, redução da biodiversidade, contaminação dos alimentos e envenenamento dos trabalhadores rurais.

´É nesse padrão, que o programa de biocombustíveis passa a ser uma grande ameaça a nossa segurança alimentar. E ai está o alerta!´, afirma. Para ela, o modelo agrícola dos grandes empreendimentos precisa ser repensado e monitorado, com ações mitigadoras dos impactos ambientais nos recursos hídricos, solo, ar, saúde do trabalhador, com reflexos no consumidor final.

´Recordes nas safras agrícolas não significam alimentos acessíveis às populações mais pobres´, ressalta, considerando que a sustentabilidade da segurança alimentar vai muito além da distribuição de alimentos ou de iniciativas localizadas de geração de emprego.

Para ela, o programa de agricultura familiar do atual governo, com arranjos produtivos locais, atenuou a triste realidade do homem do campo. ´Mas a mudança é insignificante frente à demanda. É necessário ampliar as ações sociais, compatibilizar tecnologias, capacitar e envolver os grupos mais vulneráveis para implementar e fiscalizar programas voltados para a sustentabilidade ambiental´, enfatiza.

Desenvolvimento Sustentável é possível?

Se a crise na produção mundial de alimentos também está relacionada à corrida para produção de biocombustíveis, a sugestão, para o Brasil, seria diversificar as matérias-primas e investir mais em pesquisas e no uso de novas tecnologias, também fundamentadas no uso racional dos recursos naturais, e assistência aos pequenos agricultores. Mas será que isso resolve? Para a professora doutora de Geografia do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP), Vanderli Custódio, problemas atualmente considerados ambientais, em verdade são oriundos das contradições do modo de produção capitalista.

A professora enfatiza a fragilidade das lógicas reducionistas do crescimento econômico e do desenvolvimento social pela racionalidade científico-tecnológica, pelo lucro e o consumo como meio de resolução de todos os problemas.

´Depois de séculos de produção da escassez dos elementos da natureza primeira (constituintes das forças produtivas), o que se tem neste início de século XXI, é a natureza primeira como raridade - natureza negociada na bolsa de valores (commodities), reserva futura para o capital (áreas de preservação e conservação) e, mesmo como capital simbólico. Em verdade, o par escassez-raridade, expressa as contradições, como outras tantas, oriundas do modo de produção capitalista, autocontraditório em si´, diz.

Por esse raciocínio, Desenvolvimento Sustentável, no modo de produção capitalista, ´é uma falácia que inverte, subverte, revela e oculta trechos de verdades e exclui as concepções concorrentes; serve à manutenção do status quo´.

Professor doutor de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carlos Walter Porto-Gonçalves, destaca que desenvolvimento é o nome-síntese da idéia de dominação da natureza. ´Afinal, ser desenvolvido é ser urbano, é ser industrializado, enfim, é ser tudo aquilo que nos afaste da natureza e que nos coloque diante de constructos humanos, como a cidade, como a indústria´, escreve no livro ´A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização´.

´Há setores produtivos que, ao menos, poderiam prejudicar em menor grau a natureza primeira e os grupos sociais locais e regionais? Talvez sim, mas é preciso considerar que cada projeto, programa, agenda, política, proposta, setor, atividade e empreendimento deve ser detidamente analisado, com a consciência de que o modo de produção capitalista é logicamente insustentável´, adverte a professora Vanderli.

Fonte: Diário do Nordeste

Última atualização: 04/06/2008 às 14:34:00
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