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Notícias

  02/06/2008 

Entrevista: Crise ainda vai trazer problemas muito graves

José Arbex Júnior entrevista Vito Antônio Letizia

A crise nos EUA representa o fim do ciclo de expansão capitalista aberto após a Segunda Guerra Mundial, afirma Vito Antônio Letizia, professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica – SP. Militante revolucionário há quatro décadas, Letizia qualifica-se como anticapitalista, por acreditar que o termo "socialista" foi esvaziado de seu conteúdo transformador original. De suas reflexões, algumas são bastante provocadoras.

Proponho uma questão que divide a esquerda: o governo Chávez e o que se entende por socialismo no século 21.

É difícil dizer o que se entende por socialismo hoje. Existe uma referência, a experiência da União Soviética, que fracassou. Os ex-stalinistas estão do lado do capitalismo, como Roberto Freie no
Brasil. E os que continuam a falar em socialismo apresentam senões e criam suas próprias versões. A referência ao paradigma desapareceu. O movimento pelo socialismo virou algo fragmentado. No caso da Venezuela, a referência é o bolivarismo. Mas a experiência de Simon
Bolívar não passava pela cabeça das pessoas que participaram do movimento ligado à Revolução de 1917. É tão diferente, que até se pode dizer que é socialismo, mas num novo sentido totalmente vago do termo. A essa altura, cada um pode inventar um herói, e tomar esse herói como o fundador das idéias que está seguindo. Tudo é possível, mas nada é verdadeiro.

Parte da esquerda acha que Chávez propõe uma utopia reacionária, um "capitalismo de face humana".

Não chegaria a tanto. O socialismo de Chávez é vago, mas isso faz parte da época. O movimento dele é limitado, mas é difícil fazer julgamento em torno de pessoas e grupos políticos sem fazer referênciaa um fundo social onde eles aparecem. No caso da Venezuela, existe um movimento que eu até chamaria de neo-independentista, porque teve umatrajetória fortemente ligada aos Estados Unidos. A classe média venezuelana é, talvez, a mais americanizada das Américas. Chávez representa uma reação a essa quase redução da nação venezuelana a uma situação de 51° Estado dos Estados Unidos. Não se pode dizer que isso seja reacionário.

A que você atribui o novo protagonismo das populações originárias?

Na Bolívia, ocorre um movimento profundo do povo de origem indígena. Era condenado a um nível de subumanidade. Um amigo que foi ao Peru notou que os empregados domésticos não encaram os brancos. É uma população submetida, tratada como casta inferior na colônia, depois demagogicamente promovida à cidadania, mas as relações continuaram as mesmas. E na Bolívia aconteceu um movimento que colocou esse pessoal no primeiro plano do cenário político. Evo Morales não é um representante autêntico desse fenômeno, mas foi aceito como
representação momentaneamente viável.

Mas por que agora?

É o momento internacional, de tensão muito forte das relações de exploração e opressão. Antes, houve um período de desenvolvimento econômico, durante os processos de industrialização. Na Bolívia houve uma revolução importante, em 1952, liderada pela Central Operária Boliviana. Parecia um movimento socialista, a julgar pelas lideranças, ao passo que o povo oprimido queria ascender a um nível social superior. Os mineiros, que desempenharam um papel importante, não
jogam agora. A coisa é mais ampla, mais operário, em 1952, mas o fundo sempre foi esse, só que naquela época existia uma esperança de fazer uma revolução socialista, de promover uma industrialização que iria desenvolver os povos da América Latina. Os movimentos operários
despertavam esperanças, atraíam a classe média, tocavam nos brios da nação. Hoje, busca-se em última análise, apenas o desenvolvimento humano de uma parte da população que estava abaixo do nível da cidadania. As tensões criadas pelo aprofundamento da exploração
fizeram surgir à tona essas coisas.

Como explicar que no Brasil, onde as forças produtivas atingiram um nível de crescimento grande, e a vanguarda da classe operária foi bem organizada pelo PT e pela CUT, vivemos num marasmo, ao passo que, na América Latina, populações economicamente arcaicas, como os povos
originários, ficam adiante na luta?

O movimento operário, quando se desenvolve, representa um movimento anticapitalista, que transcende os limites da classe. Em tordos os momentos em que houve uma revolução socialista, grandes segmentos eram  simpáticos ao movimento operário e buscavam junto com ele uma
alternativa ao capitalismo. Mas o PT nunca saiu dos quadros de capitalismo. Defendia um socialismo possível, o estado de bem-estar social e, até certo ponto, o socialismo real. Nunca conseguiu definir com clareza sua ideologia. O movimento socialista brasileiro e, portanto, o movimento operário organizado, limitava-se aos parâmetros da época. E o que sempre realmente conta é a massa não teórica, não politizada. Se um movimento político consegue tocar a sociedade em profundidade, tem futuro. Considerando a população em sua profundidade, qual era o paradigma possível? A União Soviética, assustadora, pela fama das brutalidades de Stalin.

Mas, no final dos anos 1970, o ABC paulista foi palco de manifestações operárias grandiosas. Por que esse movimento ficou contido nos marcos do regime burguês? Foi a direção do PT?

Não acho. Não sou admirador da direção do PT, mas acho que havia esses limites. Naquele momento, o modelo que a sociedade tinha não saía dos marcos do capitalismo. O PT, se quisesse avançar, teria que fazer uma longa trajetória de educação política da população, ou seja, não teria
que ter pressa de chegar ao poder. Teria que cair fora do eleitoralismo, o grande pecado, que fez o PT naufragar. Mas isso implicaria criar um movimento, uma corrente de opinião anticapitalista, expor as mazelas das formas de apropriação do solo no Brasil, urbano e rural. Criar um movimento que tinha futuro, poderia crescer, e, com o tempo, chegar a ameaçar. Como não fez isso, deu no que deu.

O MST é esse movimento que chega ao fundo da sociedade?

Não, é parcial, diz respeito a um problema da sociedade, o da  apropriação da terra. Não expressa as aspirações gerais. Se o MST pensasse como movimento geral, questionaria o modo de apropriação capitalista do solo no Brasil, particularmente abusivo. O Stedile, volta e meia, levanta coisas que vão nesse sentido, mas não é o ponto mais marcante da imagem que o MST dá.

Deve adotar uma plataforma mais abrangente, transformar-se em partido?

Para se transformar em partido, teria que se unir aos movimentos de outros setores, organizados de outra maneira e, eventualmente, contrários a ter uma militância abertamente anticapitalista. Para que outros movimentos se organizem de maneira semelhante ao MST, teriam que colocar em questão o capitalismo de forma mais direta e clara. Para uma parte da população que reivindica terra, é possível fazê-lo sem se chocar diretamente com a totalidade do quadro do sistema
capitalista. Por quê? Porque tem muitos países capitalistas onde a distribuição de terra é eqüitativa. O MST pode promover grandes lutas sem questionar o modo de produção. Agora, para um trabalhador urbano é difícil querer lutar contra o sistema e não pôr em questão o modo como
se dá a sociedade salarial hoje. É preciso que haja um movimento social anticapitalista entre os trabalhadores que seja similar ao movimento social que existe entre parte da população desprovida de terra. Aí sim, haveria uma união forte que poderia comover a sociedade.

Nos anos 1980, a CUT se formou num processo de ruptura com o assistencialismo varguista, postulando a possibilidade de um sindicalismo de classe. Nada disso aconteceu. Aí a direção tem papel central, ou não?

Tem. Aí sim, porque a partir de certo momento resolveu ser coerente com a trajetória possível, de se desenvolver no quadro do capitalismo, de subordinação do sindicato ao estado burguês. A direção não era obrigada a se enquadrar no sistema. Isso tudo diz respeito à equipe dirigente, à equipe central de sindicalistas que dirigiu o PT desde o começo e conduziu a PT à presidência da República. Isso é responsabilidade particular dessa equipe.

O que vai acontecer com o Brasil? Você está pessimista?

No curto prazo, sim, porque o MST está confinado no seu terreno e o movimento operário hesita em enfrentar o sistema. Mas, no longo prazo, acho que tem muita coisa para acontecer, a economia está sofrendo um abalo com a crise nos EUA.

Estamos no limite de um ciclo, no fim do neoliberalismo?

O capitalismo pós Segunda Guerra chegou ao limite de expansão sem se defrontar com uma grande crise. A expansão foi possibilitada pelo acesso de grandes contingentes da população ao mercado de consumo, em todos os países. No Brasil, uma parte da população ascendeu a um nível de consumo superior. Hoje, o modo de expansão se dá através da compressão do custo salarial, em primeiro lugar. E do custo dos transportes internacionais. Então o modo de desenvolvimento generalizado é o de todos os países se transformarem em plataformas de
exportação. É como o Brasil está fazendo. Esse é o modo, acompanhado de compressão salarial, para diminuir os custos. Antes, a gente podia dizer que estava num processo de substituição de consumo: importamos da China qualquer bugiganga que antes se fabricava no Brasil, simplesmente porque está mais barato. O Brasil procura exportar qualquer coisa que alguém esteja disposto a importar, mesmo que signifique desindustrialização, destruição da Amazônia. É esse modo que está em crise. Porque tem uma pedra de cúpula onde se concentram todas as energias, o grande mercado de consumo estadunidense, que tem um déficit monumental e é o grande absorvedor de excessos de produção dos países transformados em plataformas de exportação. Ora, esse grande mercado de consumo encontra dificuldades cada vez maiores de
prosseguir assim. A solução final da crise estadunidense seria reverter isso. Mas fazê-lo significaria uma mudança, tão drástica no equilíbrio do sistema, que é difícil prever no que resultaria.

Os neoconservadores propõem fazer isso por meios militares.

Quando as necessidades do sistema são muito violentas, a truculência torna-se inevitável. Mas a crise estadunidense não pode continuar indefinidamente assim. Alan Greenspan (ex-presidente do Fed, Banco Central estadunidense) admite que "acabou o tempo em que se pode continuar crescendo sem inflação". Antes, era possível crescer e manter a estabilidade monetária. Agora, será necessário sacrificar a estabilidade, o que significa comprometer todo o resto, pois implica
sacrifícios que vão ter que ser partilhados por todo o mundo. Aliás, uma expressão nova apareceu entre os economistas estadunidenses: socializar os prejuízos. A crise acontecerá em escala mundial, vai trazer problemas muito graves. É difícil saber qual a forma que vai se
desenvolver porque estamos no comecinho ainda.

Fonte: Revista caros amigos

Última atualização: 02/06/2008 às 15:36:00
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