O Brasil deparou-se na última semana com uma grata surpresa: a ascensão social de quase vinte milhões de pessoas (cerca de duas vezes a população de Portugal), nos últimos dois anos, que passaram da classe D/E para a classe C, diminuindo a desigualdade de renda do País. Um resultado que, inegavelmente, cria um clima de otimismo e confiança.
O avanço foi detectado por uma pesquisa feita pelo grupo francês BNP Paribas, a Cetelem, em parceria com o Instituto Ipsos. O molde da pesquisa é o mesmo aplicado em outros países, como Itália, Espanha, Alemanha, Bélgica e França. Quando nos referimos a otimismo, partíamos de constatações objetivas, visto que, em 2005, por exemplo, a nota média do otimismo dos brasileiros era 4,7, na escala de 0 a 10; em 2006, passou para 5,2; no ano passado, atingiu 5,3. Note-se que os europeus registram uma média de otimismo de 4,9.
Para se aquilatar o perfil da Classe C leva-se em conta a renda familiar, o nível educacional e a posse de bens, como imóveis, eletrodomésticos e telefones celulares. E o que foi constatado? Que a ascensão social ocorrida deveu-se, sobretudo à expansão do crédito ao consumidor, decorrente do alongamento dos prazos; a maior oferta de financiamentos pelos bancos e financeiras; a redução dos juros; a queda dos preços dos bens de consumo duráveis; a redução do desemprego e o aumento da renda média; e os programas sociais do governo, que aumentaram a renda da base da pirâmide social. Viu-se igualmente que, se em 2005 havia um déficit no orçamento das classes C e D/E, em 2007 passou a haver sobra, no final do mês, para ambas.
O interessante é notar que nos segmentos A e B houve um descenso na renda, o que significa que parte desta foi repassada para os segmentos do andar de baixo. Ou seja, houve uma redução na desigualdade, mas alguém teve de pagar por isso. Resta corrigir esse processo, de modo a alargar ainda mais o segmento de classe média, visto que um desenvolvimento equilibrado repousa, sobretudo, neste segmento. E quando isso ocorre, o País ganha estabilidade política e a cidadania é reforçada, tornando-se cada vez mais afirmativa.
Não devemos esquecer de que para esse processo ser conseqüente é preciso ampliar a classe média no campo. Isso exige uma maior democratização da estrutura fundiária e um reforço à agricultura familiar. Ainda estamos atrasados nessa questão, em relação aos países desenvolvidos, que resolveram a questão fundiária nos séculos XIX e XX. Precisamos correr para sanar o tempo perdido.
Enfim, um maior equilíbrio social significa maior confiança, inclusive, para os investimentos externos. Classe média significa estabilidade social e política - justamente o sonho perseguido pelos brasileiros desde a fundação do País. Resta arregaçar as mangas para dar arremate final a essa perspectiva, ainda inconclusa.
Fonte: Jornal O Povo |