(São Paulo) De contrabando, numa resposta sobre a privatização da Infraero, o ministro da Indústria e Comércio, Miguel Jorge, aproveitou para "defender" a privatização do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, segundo o que foi relatado pelos jornais.
Literalmente, segundo relato de O Globo: "Defendo a privatização não só da Infraero, mas de todas as empresas que não fazem parte do 'core business' do governo, que é a saúde, a educação e a segurança. No meu conceito pessoal, inclui bancos. No caso dos Correios, vários países têm esse departamento privatizado - disse ele, com a ressalva de que se trata de uma opinião pessoal, e caso o governo defenda publicamente o contrário, irá seguir as decisões do governo.
Fora a ressalva de que seguirá as decisões de governo, que de nada serve porque, em tese, quem não segue as orientações do governo deve sair, e não ficar por ser "disciplinado", sua resposta revela mais: o setor a que representa no governo, o lobby dos bancos privados, não desistiu de passar a mão em empresas públicas lucrativas. Para quem não conhece, Miguel Jorge é jornalista, mas há muito tempo presta serviços para o grande capital. Foi diretor por vários anos da Volkswagen, de onde saiu para trabalhar no Banco Santander. De lá largou o cargo de vice-presidente de relações corporativas para aceitar o convite do presidente Lula.
Quando Franklin Martins deixou o salário de jornalista de TV, muito superior ao que ganharia no ministério, a colunista do Estado de S.Paulo Danuza Leão fez uma de suas "crônicas" questionando o porquê da decisão de ganhar menos, ironizando se seria por amor ao país. Em relação a Miguel Jorge nunca houve tal questionamento, e é necessário considerar que o salário de vice-presidente de um banco como o Santander é infinitamente superior ao de um jornalista, seja em que cargo for.
Mas, agora, talvez fique mais claro porque aceitou a missão. Afinal, ele pode "estar ministro", mas ainda age como lobista do banco para o qual trabalhou. Afinal qual o interesse para o país em privatizar empresas que geram bilhões de lucro ao ano para o Tesouro, que competem em pé de igualdade com as empresas privadas? Os únicos interessados nessa operação só podem ser os outros bancos privados, sedentos de abocanhar o mercado, que no Brasil já extremamente concentrado e sem concorrência. Esse um dos motivos para cobrar os maiores "spreads" do mundo. Se Miguel Jorge realmente se preocupasse com o país poderia questionar se tanto os bancos públicos quanto os privados estão, além de ter lucros estratosféricos, cumprindo sua função de financiar o desenvolvimento econômico e social do país.
A Contraf-CUT e os sindicatos têm diversas críticas à maneira como bancos como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal estão sendo dirigidos, mas sabe da importância dessas instituições para o país. Em lugar de privatizar, é necessário o debate de um projeto de banco público que sirva à maioria da população. Para nós, esse banco deve servir ao país, ao financiamento de suas políticas e a uma maior justiça social e econômica.
O bom da intervenção do ministro em um tema que não estava sendo sequer discutido é a oportunidade para analisar e debater todo o sistema financeiro nacional. Para isso a Contraf-CUT tem diversas sugestões, como a regulamentação do artigo 192 da Constituição Federal, a maior concorrência dos bancos públicos para baixar juros e tarifas, financiamento para o setor produtivo etc. Se o senhor Miguel Jorge quiser realmente discutir o tema, teremos prazer em apresentar diversas sugestões. Para isso basta atuar como ministro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não como representante do banco Santander no governo.
Fonte: Contraf-CUT |