Ana Mary C. Cavalcante da Redação
Nas empresas incubadas pelo Banco Palmas, como a PalmaFashion, 10% do salário é pago na moeda social (foto: Dário Gabriel) O Banco Palmas, que ocupa parte do terreno onde sempre esteve a Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras, na avenida Valparaíso, 698, é a porta de entrada para um grande quintal de experiências. Cruzando o banco (na verdade, um salão com arquitetura de igreja, onde dispuseram algumas cadeiras de plástico, uma televisão, duas mesas para atendimento e a maquete do bairro-cidade), após os guichês, abrem-se caminhos de pés de mamão, banana, acerola, insulina (trepadeira), alecrim, maracujá... Matérias-primas para os sabonetes e fitoterápicos da PalmaNatus, uma das três pequenas empresas em redor do Banco Palmas. A caçula de uma família de cursos extraídos da fórmula matemática proposta pelo sócio-economista local Joaquim de Melo Neto: produção + consumo = fixação no bairro. Ele contabiliza 1.400 pólos de trabalho gerados a partir da intervenção do Banco Palmas no lugar.
O banco mudou o presente de Emanuela Ferreira Matias, 23, por exemplo. Em 2006, ela aprendeu a fazer sabonetes e fitoterápicos, em um curso oferecido pela PalmaNatus, e, desde então, é funcionária da empresa. O primeiro emprego lhe deu asas. "Outra fonte de renda é o trabalho de capacitação, a gente ensina as pessoas em outros bairros", soma. Nesse rumo, ela planeja se formar pedagoga e, em março, vai começar um curso pré-vestibular ofertado pelo Banco Palmas. "Nosso ciclo de amizade é esse: meninas já são mães na adolescência. E eu dei um salto de qualidade", investe.
Aos 54 anos (30 como costureira), depois da viuvez e dos oito filhos criados, Darcília de Lima Silva também voltou a estudar. Ela freqüentou a PalmaTech, escola comunitária de Economia Solidária do Banco Palmas que capacita, entre diversos afazeres, para a gestão de empresas. Sobre economia e gestão, a costureira aprendeu que um galo sozinho não tece uma manhã: "O trabalho solidário é melhor do que o trabalho escravo (referência às duas décadas em que foi empregada de fábrica) - apesar da carteira assinada. Se uma mãe precisa ir na reunião do colégio, ou no posto pra marcar uma ficha pro filho, vai e volta ligeirim. A outra fica segurando as pontas, aqui. Nessa parceria, a gente cresce mais junto que separado". Há sete anos, ela coordena a PalmaFashion, especializada na confecção em jeans e malha. Muito antes, em 1978, quando foi morar no Conjunto Palmeiras, a história era outra: "Era só as barraca. A gente limpava o terreno e pronto". No meio da vida, dona Darcília mudou o final, para outro mais feliz. "Estou reformando minha casa. Comprando o material, no depósito, com os palmas!".
Nas empresas incubadas pelo Banco Palmas, 10% do salário é pago na moeda social. Um dinheiro alternativo que pode comprar a tal felicidade. Esta, eleita por Elias Lino dos Santos, 23: "Você pode botar gasolina na mobilete, comprar gás pra casa, comprar nos infinitos mercantis do bairro. Pode até comprar caixa de chocolate pra namorada, nas bomboniÕres!". Elias é o coordenador da PalmaLimpe, também agregada ao Banco Palmas e que produz, artesanalmente, água sanitária, cera líquida, detergente e amaciante. Não fosse o banco comunitário, aliás, que lhe possibilitou a profissionalização e os palmas da topic para chegar ao Benfica... "Meus amigos de infância, os que estão vivos, estão correndo da Polícia. Eu penso em lecionar, até o Doutorado. Daí, ser reitor". A propósito, o dia anterior à entrevista foi o primeiro dia de aula de Elias, ex-aluno da escola pública, no curso de Filosofia da Universidade Federal do Ceará.
Leia amanhã Na última matéria da série, a multiplicação do Palmas. O projeto plantado na periferia de Fortaleza espalha sementes no Ceará e no Brasil. Novos bancos comunitários despontam no mapa nacional.
NA INTERNET www.bancopalmas.org.br
Fonte: Jornal O Povo
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