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A história - ou a trajetória - do Banco Palmas, que brotou no terreno minado do Conjunto Palmeiras, periferia da região sul, vai além da avenida Valparaíso, 698. Começa com o pernambucano Joaquim, seminarista ainda, leitor de Paul Singer e de Leonardo Boff. Começa quando uma dona-maria, em uma assembléia da associação de moradores, levantou o dedo: "A gente podia ter aqueles cartões (de crédito) que o povo tem e compra por aí". Começa quando aquele fim de mundo, que Fortaleza pariu e apartou, começa a existir - e o arrabalde, mal sabia Fortaleza, tinha alma de cidade.
Foi assim: em 1984, João Joaquim de Melo Neto Segundo soube do movimento Padres da Favela, pastoreado por Dom Aloísio Lorscheider nas cercanias da Capital. Arrumou os livros de economia solidária e Teologia da Libertação na mala de madeira pintada e amanheceu em Fortaleza, vindo do Movimento para Libertação dos Presos do Araguaia, Belém. Perguntou onde era a casa do bispo e foi bater lá. Dom Aloísio lhe mandou para outro endereço, morar com os pobres: Conjunto João Paulo II, conhecido como rampa do Jangurussu, antigo aterro sanitário, "no meio do lixo e dos urubus". Vizinho, ligado por "uma estrada de barro", aponta Joaquim, havia 120 hectares (mais que 120 campos de futebol oficiais) de palmas e barracos (de lona, de taipa, de papelão) e só.
Os moradores eram pescadores expulsos, pela Prefeitura, desde a Leste-Oeste à Praia de Iracema. Um mutirão que urbanizou a área com as próprias mãos. "Deus fez o mundo, e nós construímos o Conjunto Palmeiras". O ex-seminarista, que se tornou presidente da associação de moradores ao invés de padre, gosta de repetir essa máxima. Criar um banco e uma moeda, então, foi, pode-se dizer, simples: produção+consumo=fixação no bairro, calculou Joaquim. É que depois da urbanização, do saneamento (algum), da luz (alguma) - os parênteses são de Joaquim - e das contas de água e iluminação, faltava dinheiro. O que fazia o terreno movediço. Ninguém se sustentava por lá, arribava. Era preciso gerar trabalho e renda. 1997 foi o ano dessa gestação: 86 assembléias de moradores depois, em 20 de janeiro de 1998, a associação deu à luz o Banco Palmas. O Palmacard, cartão de crédito válido nos limites do Conjunto, veio primeiro, pela necessidade de uma dona-maria. "Todas as teorias econômicas vieram depois. Nós nos consideramos socioeconomistas locais. Tudo o que sei de economia, aprendi no Palmeiras", sublinha Joaquim, hoje, coordenador do Banco Palmas.
O "tudo", ressalte-se, cabe em dois "princípios fundamentais para qualquer movimento social que quer ser sustentável": transparência e formação (estudo). "Só tem sentido fazer parceria quando o outro entende. Se não, vai ter o sistema de enrolação ou de aceitação", resume o sócio-economista. Mas a autonomia é a lição número um. "A gente dialoga com todo mundo. Da esquerda, da direita. De Deus e do diabo". Da mesma forma que bateu à porta do bispo ao migrar de Belém, ele bateu à porta do prefeito, anos mais tarde, pedindo algum para a carteira de crédito do banco. Conseguiu menos. "Era um banco de favela, com o Palmacard na mão e dois mil contos no bolso!". Um peixeiro, um artesão, o cara do mercadinho, um sapateiro e o dono da banca de bombons inauguraram o empréstimo no primeiro banco comunitário do Brasil. Transação de risco para quem só tinha "dois mil contos" no bolso. Mas o banco optou por confiar nos pobres. E Joaquim afirma que, em dez anos, o saldo é positivo: o Banco Palmas ainda não registrou "nenhuma inadimplência acima de 90 dias. Quando você trabalha com os pobres, corre risco. Temos o direito de ter uma inadimplência de 2%, 3% ao mês".
LEIA AMANHÃ Este é só o começo da história, desenvolvido a partir da entrevista com João Joaquim de Melo, publicada ontem. Leia amanhã: o Banco Palmas é também as empresas Palma Fashion, Palma Limpe, Palma Natus. É a formação profissional de jovens e adultos como Elias, 23, e dona Darcília, 54. É uma semente lançada no Interior do Estado e nos quatro cantos do Brasil.
SERVIÇOS
O Banco Palmas conta com a parceria de ONGs internacionais (da Holanda, por exemplo) e instituições públicas brasileiras (como o Banco Popular do Brasil).
Serviços que oferece Crédito produtivo - empréstimos de R$ 200 a R$ 10 mil, com juros de 1,5% a 3% ao mês; Crédito para consumo em moeda social (palmas), sem juros; Cartão de crédito Palmacard; Recebimento de títulos e de boletos bancários; Pagamento de aposentados (benefício do INSS).
Condições para ser cliente do banco Ser morador do Conjunto Palmeiras; Apresentar uma proposta técnica viável (sujeita à análise), quando do pedido de crédito produtivo; Passar pelo "aval de vizinhança", sondagem feita pelo banco com os vizinhos e que comprova a honestidade do futuro credor.
Horário de funcionamento Das 7h30min às 18 horas (de segunda à sexta-feira) e das 7h30min ao meio-dia (aos sábados).
"Aceitamos palmas"
Academia Exibição, Bar Das Dores, Bar O Quebra Galho, Ceará Móveis, Mercadinho O Escurinho, Metalúrgica Alvorada, Mercearia Toinha, Zé da Budega (como está no papel do banco)... Pelo menos 201 estabelecimentos comerciais do Conjunto Palmeiras aceitam palmas, a moeda social do lugar. Quer tomar uma enquanto espera o conserto do pneu no Bar e Borracharia do Kadi? A cerveja "custa dois palmas (R$ 2. A moeda social tem o mesmo valor do real)", oferece Noêmia Alves de Souza, 53, cadeiras na calçada.
Comerciante há 26 anos, "sempre o butiquim pra criar a família", dona Noêmia se diz satisfeita com o dinheiro alternativo e o banco do bairro (a alguns passos do seu bar-borracharia). "Antigamente, pra pagar as contas, tinha que ir lááá pro Centro... Pra onde a gente quiser ir, pro Iguatemi, as topics aceitam (palmas). O banco é vantagem porque pego R$ 100, vou pagar daqui a um mês e pago só R$ 1 a mais". Fazendo contas parecidas, Aurineide Alves Cordeiro, do Mercadinho da Aurineide, tornou-se uma cliente antiga do Banco Palmas: começou com um empréstimo de R$ 400, em 1998, e, hoje, "tiro de R$ 5 mil".
"É uma boa oportunidade para os moradores, que são de baixa renda, ter crédito", opina Aucélia Colares de Lima, 41, dona do Mercadinho Canaã. Ela já usava o Palmacard e, com os empréstimos do banco comunitário, destaca, o mercadinho "está o dobro!". Dessa forma, também Rocilânia Alves, 43, recheou as prateleiras da BomboniÕre Bombonlândia. "Assim que botei (a venda), fiz um empréstimo lá (Palmas)". Foi de R$ 300. "Na época, era esse pedacinho. Aumentei e comprei umas coisinhas", aponta, enquanto atende ao pequeno Pedro - que comprava "dois palmas de bombom". "Ele é filho do dono daquele mercantil. Assim, o dinheiro circula no bairro", apresenta Rocilânia. A propósito: em anexo à bomboniÕre, a mãe de Rocilânia vende quentinha e aceita palmas. O irmão, "Raae Lanches, do outro lado da rua", também.
Fonte: Jornal O Povo
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