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  22/02/2008 

O FUTURO DE CUBA: Fidel abre caminho para Raul

Dalia Acosta - IPS

HAVANA, 19 fev. (IPS) - Em decisão que pode parecer inesperada quando se esteve no poder por quase 50 anos, Fidel Castro anunciou terça-feira que renunciava à presidência de Cuba e cedeu o cargo ao seu irmão Raul, ministro das Forças Armadas e candidato mais votado nas eleições de 20 de janeiro.

"Não vou aspirar nem vou aceitar –repito- não vou aspirar nem vou aceitar, o cargo de presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-Chefe", afirmou Fidel Castro em mensagem assinada em 18 de fevereiro às 17:30 hora local (22:30 GMT) e que apareceu na versão digital do jornal oficial Granma na madrugada desta terça-feira.

Seria uma traição "à minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total, que não estou em condições físicas de oferecer. Explico isto sem dramatismo", acrescentou Castro, mais de um ano e meio depois de que uma doença repentina o levasse a renunciar "provisoriamente" a todas as suas responsabilidades à frente do país.

Desde então, acrescenta, "preparar o povo, psicológica e politicamente, para a minha ausência era a minha primeira obrigação, depois de tantos anos de luta. Nunca deixei de dizer que se tratava de uma recuperação 'não isenta de riscos'. Meu desejo foi sempre cumprir com meu dever, até meu último alento. É isto que posso oferecer".

"Não me despeço de vocês. Desejo combater somente como um soldado das idéias. Vou continuar escrevendo sob o título Reflexões do companheiro Fidel. Será mais uma arma do arsenal com que se poderá contar. Talvez minha voz seja escutada. Serei cuidadoso", prometeu.

Ao ceder seu cargo à frente do governo e do exército e mudar o título de sua atual coluna, Reflexões do Comandante-em-Chefe, o líder da Revolução Cubana não mencionou sua responsabilidade como primeiro secretário do governante Partido Comunista, cargo que ocupa desde 1965 e que também poderia abandonar no próximo congresso.

As reações não se fizeram esperar. "Acredito que a saída de Fidel Castro deveria ser o início de um período de transição democrática", disse o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, em uma conferencia de imprensa na Ruanda, país em que está como parte de uma visita a cinco nações africanas.

Ao mesmo tempo, um porta-voz da União Européia (UE) reiterou, desde Bruxelas, a oferta de estabelecer um diálogo político com Cuba para um proceso pacífico de transição rumo a uma democracia pluralista.

Enquanto as opiniões mais diversas iam se acumulando na Internet, após a publicação da mensagem na madrugada, Cuba amanheceu tranqüila, como em mais um dia normal, e as poucas pessoas que conheciam a notícia haviam tomado a informação como parte de um processo natural, para o qual se prepararam durante muitos meses.

"Se algo compreendemos nestes meses é que ele não pode continuar com essa carga toda. É uma decisão sábia e digna", disse à IPS uma mulher de 52 anos, militante do Partido Comunista, que tinha saído cedo de sua casa para ir ao trabalho, nesta terça-feira, e ainda não havia escutado a notícia pelo rádio ou pela televisão e nem tinha visto os jornais.

Um funcionário do governo cubano que preferiu o anonimato confessou que estava surpreso com a notícia, "mas não muito".

"É o melhor para o país. Fidel demostrou com isto muita clareza mental", afirmou, e manifestou sua confiança nas gerações mais jovens. "A chamada geração histórica vai arrastar com ela aqueles que nasceram durante a crise econômica, cujo compromisso político com o projeto socialista parece menos forte", acrescentou.

A mensagem esclareceu a incógnita que rodeava a instalação, no próximo domingo, da Assembléia Nacional do Poder Popular (parlamento unicameral) e a eleição, pelos deputados, dos integrantes do Conselho de Estado, máximo órgão de governo, que substitui a assembléia entre as sessões, assim como do seu presidente, vice-presidentes e secretário.

Observadores locais estimam que o parlamento, que vai se constituir neste mês, terá a responsabilidade de promover algumas mudanças que a população vem pedindo nos últimos meses e que, de certa maneira, têm sido vinculadas ao atual presidente em função, Raul Castro.

O debate em locais de trabalho e organizações políticas e de massas que veio depois do chamamento à crítica feito pelo ministro das Forças Armadas, no dia 26 de julho passado, deixou um relatório de 1,3 milhões de colocações que, segundo fontes oficiais, estão sendo analisadas.

Rumores garantem que a cidadania cubana, com 11,2 milhões de habitantes, poderia esperar medidas importantes na esfera econômica, mas também respostas para outras velhas inquietações, como a necessária flexibilização dos mecanismos estabelecidos para viajar para o exterior e a suspensão de não poucas proibições.

A renúncia de Fidel Castro "amplia as possibilidades de que Raul Castro possa cumprir o que prometeu em seu discurso do 26 de julho e o que disse posteriormente sobre a necessidade de eliminar proibições danosas", disse para IPS o economista Oscar Espinosa Chepe, um dos 75 opositores presos em 2003 e depois libertado sob licença extra-penal.

Espinosa Chepe assegurou que o atual momento representa a "consolidação" de Raul Castro à frente do país, "abre esperanças de mudanças favoráveis para o povo de Cuba" e "amplia as expectativas".

"Nós, da oposição, esperamos, sobretudo, a libertação dos presos políticos", apontou. "Nós já alertamos sobre os problemas da sociedade cubana. Muitas das coisas que hoje são ditas sobre os salários, a agricultura, a economia em geral, foi a oposição que alertou sobre elas", acrescentou.

"Não estamos pedindo enfrentamentos, senão respeito e reconciliação", disse.

O chamamento veio depois das declarações do chanceler espanhol, Miguel Ángel Moratinos, de que o governo cubano poria em liberdade, por motivos de saúde, sete opositores, integrantes do grupo dos 75 presos em 2003.
Quatro desses sete opositores já recuperaram a liberdade e viajaram imediatamente para a Espanha, no domingo. Trata-se de Alejandro González, Omar Pernet, José Gabriel Ramón Castillo e Pedro Pablo Álvarez

Nos últimos meses, Cuba também anunciou sua decisão de assinar dois acordos internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU) em matéria de direitos humanos, abriu suas portas para os mecanismos de revisão periódica estabelecidos por essa organização e estabeleceu um mecanismo de diálogo sobre estes temas com a Espanha.

Estas decisões foram interpretadas, no dia 13 deste mês, pelo chanceler Felipe Pérez Roque como o que o governo está disposto a fazer quando não está submetido a pressões nem manipulações de nenhuma índole, como geralmente acontecia na já desaparecida Comissão de Direitos Humanos da ONU, com sede em Genebra, e substituída pelo Conselho de Direitos Humanos.

Sobre a participação de Fidel Castro em todas as decisões importantes que foram tomadas no país nos últimos meses, o ministro das Forças Armadas garantiu, em dezembro, que ele não era incomodado "com probleminhas, mas consultamos com ele todas as questões principais".

Agora, no momento de ceder seu posto, Castro mostrou-se confiado na continuidade do processo revolucionário.

Ainda se pode contar com os "quadros da velha guarda", outros que "eram muito jovens quando começou a primeira etapa da Revolução" e com a "geração intermediária, que aprendeu junto com nós os elementos da complexa e quase inacessível arte de organizar e dirigir uma Revolução", disse.

Em sua opinião, "o caminho sempre será difícil e vai requerer o esforço inteligente de todos". Também reconheceu que desconfia dos "caminhos aparentemente fáceis da apologética ou da autoflagelação como antítese" e chamou a "preparar-se sempre para a pior das variáveis".

"Ser tão prudentes no sucesso como firmes na adversidade é um princípio que não pode ser esquecido. O adversário que precisamos derrotar é muito forte, mas mantivemos ele na linha durante meio século", alertou, em uma clara referência ao seu inimigo histórico, o governo dos Estados Unidos.(FIN/2008)

Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

Fonte: Carta Maior

Última atualização: 22/02/2008 às 10:34:00
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