Lula, durante Cerimônia de Oferenda Floral em Havana, Cuba (Foto: Ricardo Stuckert/PR Sem querer mexer no vespeiro da liberdade e direitos humanos em Cuba, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, ontem, que não dá palpite na política interna de nenhum País. De acordo com o presidente, quem adota essa prática "quebra a cara". Lula se definiu como um "apaixonado" pela Revolução Cubana de 1959, liderada por Fidel Castro. Mais: afirmou que não vai aceitar nenhuma "pirotecnia" ideológica contra a ilha.
Depois de assinar oito acordos de cooperação com Cuba nas áreas de energia, medicamentos e compra de alimentos e apostar na abertura comercial do País, Lula esquivou-se de falar sobre a necessidade de abertura política. "Nós não queremos contribuir para cercear a liberdade das pessoas quererem escolher o País onde vão morar, mas também não queremos criar nenhuma pirotecnia anticubana como de vez em quando se tenta criar no mundo", afirmou. "Não queremos dar palpite nas coisas dos outros e, aliás, quem dá palpite quebra a cara".
O presidente brasileiro teve uma conversa reservada com o líder cubano Fidel Castro, que, desde julho de 2006, está afastado do poder por motivos de doença. O encontro foi mantido em sigilo por todo o dia. Lula só recebeu a confirmação de que seria recebido às 13 horas (16 horas no horário brasileiro de verão). Saiu para o encontro 40 minutos depois e foi recebido às 17 horas (20 horas em Brasília). Lula estava acompanhado do médico da Presidência, Cléber Araújo, o chefe da segurança, Gonçalves Dias, e mais dois seguranças.
Antes do encontro, Lula foi questionado sobre a repressão em Cuba e o desrespeito aos direitos humanos, mas escapou de respostas contundentes.
Em entrevista concedida diante da Embaixada do Brasil, debaixo de chuva, Lula ainda brincou com o regime socialista da ilha, que vive sob embargo econômico dos Estados Unidos há quase meio século. "Vamos socializar a chuva", disse. Os repórteres insistiram e, ao perguntar sua opinião sobre a necessidade de abertura política, lembraram que dois boxeadores foram deportados para Cuba após participarem dos Jogos Pan-Americanos, em agosto, no Rio.
"As pessoas não manifestaram interesse em ficar. Quem manifesta interesse em ficar pede asilo. Eles não pediram asilo" disse. "O ministro da Justiça (Tarso Genro) tratou (o assunto) como deveria tratar e, no caso dos músicos, vai ocorrer a mesma coisa", completou, numa referência aos dois músicos cubanos que em dezembro, apresentaram pedido de refúgio à Polícia Federal. Foi nesse momento que Lula se referiu ao que chamou de "pirotecnia" contra Cuba e defendeu a Revolução de 1959.
Visivelmente emocionado, o presidente disse ter "carinho muito especial" por Fidel. "Eu sou da geração apaixonada pela Revolução Cubana e estou torcendo para que Fidel tenha recuperação extraordinária", comentou, ao lembrar que visita Cuba desde 1985.
Cooperação Lula foi recebido em Havana por Raúl Castro, irmão de Fidel e presidente em exercício de Cuba, com quem jantou na noite de segunda-feira. Participou de uma cerimônia de oferenda floral na Praça da Revolução, diante do Memorial "José Marti" e com vista para o Ministério do Interior, que exibia a imagem de Che Guevara. Depois, seguiu para o Palácio da Revolução, onde passou em revista a Guarda Real das Forças Armadas e assinou acordos de cooperação com Cuba.
Questionado sobre a diferença de negociar com Raúl Castro, o presidente disse não haver diferença. "O Brasil, como a maior economia do nosso continente, tem a responsabilidade de tomar iniciativas para fazerem as coisas acontecerem. O Brasil não pode ficar esperando que Cuba vá ao Brasil, que a Guatemala vá ao Brasil, que Honduras vá ao Brasil. Somos nós que temos de visitar esses países", argumentou Lula.
OS ACORDOS
A exploração de petróleo, a construção de uma fábrica de lubrificantes e créditos para aumentar a importação de alimentos e produzir níquel foram os temas dos principais acordos assinados ontem, em Havana, durante a visita a Cuba do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. Uma dezena de acordos foi concluída por representantes dos dois países no Palácio da Revolução, na presença de Lula e do presidente interino Raúl Castro.
- Petróleo: as empresas Cupet e Petrobras assinaram um acordo sobre a participação do Brasil na busca de petróleo nas águas profundas cubanas do Golfo do México. Uma sociedade mista será criada para produzir e vender lubrificantes em Cuba. Além disso, Cupet e Petrobras assinaram um acordo de cooperação técnica.
- Biotecnologia: contrato sobre patentes e transferência de informações técnicas sobre o Interferon Alfa-2B.
- Créditos brasileiros para: compra de alimentos, ampliação e modernização de usina de níquel em Moa (leste) e compra de equipamentos para a piscicultura. Outros nove créditos estão sendo analisados para projetos nos setores de hotelaria, farmácia, biotecnologia, infra-estrutura, indústria açucareira e transporte.
- Cooperação técnica na produção de soja.
- Projetos conjuntos para promover o desenvolvimento industrial e ampliar o acesso à informação industrial de ambos os países.
- Acordo básico de cooperação científica, técnica e tecnológica e convênios suplementares para o fortalecimento institucional do controle de qualidade e vigilância sanitária, colaboração entre os ministérios da Saúde e suporte técnico para o sistema de informação em águas subterrâneas.
Fonte: Jornal O Povo |