Eduardo Sales da Redação
Um relatório divulgado em janeiro pela ONG Greenpeace aponta o modelo do agronegócio como um dos responsáveis pelo processo de aquecimento global. O documento, batizado de “Mudanças do Clima, Mudanças no Campo: Impactos Climáticos da Agricultura e Potencial de Mitigação”, afirma que a agricultura baseada no uso intensivo de energia e produtos químicos vem provocando um aumento nos níveis de emissão de dióxido de carbono (CO2) e outros gases nocivos ao meio ambiente, como o metano (CH4) e óxido nitroso (N2O).
Atualmente, a maior parte das emissões dos Gases de Efeito Estufa (GEEs) – entre 65 e 75% – é decorrente da queima de combustíveis fósseis, oriundo de áreas industrializadas. E estima-se que as emissões decorrentes das mudanças no uso da terra na agricultura fiquem entre 17% e 32%. O uso de fertilizantes, as queimadas florestais e as extensas pastagens são os fatores que mais vêm contribuindo para esse processo.
Gás “forte”
O maior vilão da contribuição do agronegócio para o aquecimento são os produtos químicos. Segundo o relatório do Greenpeace, respondem por cerca de 2,1 bilhões de toneladas de CO2 anualmente. O excesso de fertilizantes provoca a emissão de óxido nitroso (N2O), 310 vezes mais potente que o CO2 em relação à absorção da radiação infra-vermelha. Trata-se do potencial de aquecimento global (GWP). O dióxido de carbono é utilizado como padrão, por isso seu índice é “1”, o do metano é “21”, e o do óxido nitroso é “310”. Quanto maior esse índice, mais danoso ao meio ambiente é o gás.
As emissões de óxido nitroso estão associadas, principalmente, aos fertilizantes nitrogenados e ao adubo adicionado ao solo. Com freqüência, os produtos químicos são aplicados em excesso e não são totalmente consumidos pelas mudas cultivadas, de modo que parte do excedente se perde na atmosfera sob a forma de óxido nitroso. Dados da Associação Internacional das Indústrias de Fertilizantes (IFA, sigla em inglês) revelam que as taxas de aplicação variam muito entre os países. A China, por exemplo, contribui com 40% e a África, com 2%, do consumo global de fertilizantes minerais.
Entérico e político
Já os gases metano (CH4) são emitidos a partir da fermentação entérica do gado – um processo digestido. Só na região da Amazônia Legal, o número de cabeças dobrou nos últimos dez anos, passando de 37 milhões em 1996 para 73 milhões em 2006. Nesse período, a expansão do rebanho bovino aumentou 33%, no Brasil, passando de 153 milhões de cabeças para 205 milhões no ano passado. Esses números foram levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo o Greenpeace, as emissões agropecuárias de metano e óxido nitroso aumentaram 17% entre 1990 e 2005 e vão crescer outros 35-60% até 2030, devido ao crescente uso dos fertilizantes à base de nitrogênio e do aumento dos rebanhos.
“No Brasil, a fermentação entérica é mais importante; há mais gado que gente”, afirma o diretor do departamento de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, de Góes Leite de Barros. Ele aponta que o fato de o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) ter estabelecido o percentual “21” para o metano foi uma opção puramente política, pois alguns cientistas consideram o índice “7” mais correto.
Das emissões dos gases de efeito estufa no Brasil, há uma parcela considerável correspondente ao metano. Nos cálculos nacionais, no entanto, esse gás aparece dentro da mesma base do CO2. “O Brasil se recusou a usar o fator '21'. Se for converter o metano usando essa classificação, o gás corresponderá a 25% das emissões brasileiras, pois valerá 21 vezes mais que o dióxido de carbono”, afirma o diretor. Segundo Ruy de Góes, considerando o campo e a cidade, 12,43% do metano brasileiro advêm da fermentação entérica.
“O metano “21” é um dado científico, mas também político, porque penaliza os países em desenvolvimento que são os que têm maior emissão de gases estufa provenientes da agricultura e pecuária. É o caso do Brasil, da China e da Índia”, indica Ruy.
Queimadas
O relatório do Greenpeace destaca também que o uso de cultivos de alto valor energético incentivou o desmatamento da floresta amazônica, no Brasil, um dos grandes produtores de soja para alimentação animal. Para a organização ambiental, a demanda por carne vem aumentando de modo constante, estimulada pelo crescimento econômico dos países em desenvolvimento, e provavelmente irá incentivar a expansão da pecuária intensiva. Ou seja, mais gado, mais produção de soja e mais queimadas florestais. Números da WWF reforçam os dados do Greenpeace mostrando que, no Mato Grosso, o maior estado produtor brasileiro de soja, a área cultivada cresceu 89% entre 1995 e 2004.
Para plantar soja, formar pastos e até mesmo aumentar as zonas urbanas, os fazendeiros têm lançado mão das queimadas das áreas florestais, que representam, de fato, o principal fator de emissão de gases de efeito estufa no Brasil. Segundo o MMA, respondem por 55% do total.
Na agricultura brasileira, a queimada da cana não é computada, segundo o diretor do departamento de mudanças climáticas do MMA, pois o CO2 que vai para a atmosfera é recuperado pela cana em crescimento. “No balanço, essa queimada não é um agente estufa”, salienta.
Atualmente, com a crescente demanda internacional de agrocombustíveis, as terras brasileiras correm o risco de acentuar sua contribuição na emissão dos GEEs. Segundo Ruy, o Brasil tem a chance produzir outras culturas, que também podem aquelas voltadas à produção de agrocombustíveis, sem a destruição das florestas. “Com pastagem, se ocupam 200 milhões de hectares em nosso país. Se houver um ganho de 10% na produtividade dessa pastagem, abrem-se 20 milhões de hectares para usá-los como quiser”, defende o diretor. Casando a manutenção do meio ambiente sem as perdas socias econômicas, Ruy reitera que “não há a menor necessidade de derrubar mais nenhum quilômetro quadrado de floresta para o plantio de agrocombustível no Brasil”.
Fonte: Brasil de Fato |