Rio de Janeiro. Apesar da melhora nas condições de vida da população do Nordeste nos últimos anos, segundo informações coletadas na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quando se comparam os números obtidos com os do Sudeste, verifica-se que “o desnível, a desigualdade, ainda é muito grande”. A avaliação é da coordenadora dos Indicadores Sociais do IBGE, Ana Lúcia Sabóia. De acordo com a PNAD, o Nordeste foi a região com maior crescimento na renda familiar média entre os anos de 2005 e 2006, atingindo 12%. Sabóia informou que houve melhoria nas condições de vida dos nordestinos em termos de saneamento dos domicílios e escolaridade da população, entre outros fatores. Crianças estudando Segundo a coordenadora, a freqüência das crianças nas escolas cresceu bastante no Nordeste a partir de 1985, devido a ações implementadas pela antiga Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que introduziu a política de estímulo à merenda nos municípios na fase pré-escolar. Com isso, Ana Lúcia Sabóia analisou que as crianças passaram a ter pelo menos uma refeição dada pela escola, embora esta apresentasse condições muito precárias. “Existem escolas para receber as crianças, mas a qualidade desse atendimento, a oferta desse serviço, ainda é precária”, destacou. Daí haver uma grande defasagem no ensino na faixa etária de sete anos. “A grande parte das crianças nordestinas com sete anos ainda não sabe ler. Não foram alfabetizadas no pré-escolar. Então, é um crescimento que está ocorrendo no nível econômico, mas não chegou propriamente, de forma satisfatória, aos moradores do Nordeste”, afirmou. Na análise da coordenadora de Indicadores Sociais do IBGE, os avanços alcançados não foram, entretanto, suficientes para alterar as condições de vida do nordestino, que “são ruins”. O Nordeste ainda tem condições precárias de sobrevivência da população, afirmou. “Mas houve uma melhora. O que eu quero deixar bem claro é que tem havido uma melhora, que sem dúvida nenhuma vai beneficiar as crianças no futuro do Nordeste”. Ela advertiu, por outro lado, que na comparação com estados como São Paulo ou Rio de Janeiro, percebe-se que as condições no Sudeste são muito melhores do que as do Nordeste. Dificuldades históricas A pesquisadora lembrou que o fato de o Nordeste concentrar municípios de menor Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma das riquezas produzidas no país, pode retardar o processo de igualdade e divisão de riquezas. “Certamente, porque o Nordeste vem carregando historicamente dificuldades muito grandes. E para que elas sejam rompidas, tem que haver uma nova dinâmica na economia. Principalmente na política. Quando houver uma decisão de que o Nordeste é prioridade, eu acho que esse crescimento vai de fato transcorrer de forma mais rápida”, concluiu.
PREVIDÊNCIA E BOLSA FAMÍLIA Renda maior tem duas explicações Rio de Janeiro. As transferências de recursos da Previdência e de programas sociais do governo federal, com destaque para o Bolsa Família, explicam o crescimento da renda familiar média no Nordeste nos últimos anos, conforme avaliação da economista Tania Bacelar, da Universidade Federal de Pernambuco. Bacelar explica que, embora represente apenas 28% da população brasileira, o Nordeste detém 42% da população economicamente ativa (PEA) agrícola do Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).“Como a Previdência transferiu a previdência para o mundo rural, o Nordeste tem um peso maior na população rural. O primeiro impacto veio da Constituição de 88, no começo dos anos 90”, justifica a economista. Bolsa Família O segundo elemento que impulsionou o aumento da renda familiar na região foi o Bolsa Família, que passou de R$ 2 bilhões ao ano para R$ 10 bilhões ao ano. Tania Bacelar explicou ainda que apesar da região ter 28% da população nacional, ela concentra a metade dos pobres que sobrevivem no Brasil. Do total de cerca de 11 milhões de famílias atendidas, 5,5 milhões são da região. “Então ela capta a metade do volume transferido no Bolsa Família”. A professora da UFPE avaliou que outro fator que contribuiu para o desempenho positivo do Nordeste nos últimos anos foi o aumento real do salário mínimo. “De novo, o Nordeste tem 28% da população, mas tem a metade dos trabalhadores que ganham salário mínimo no Brasil. Então, tem um impacto diferenciado”, constatou. Emprego formal O quarto fator que influenciou o crescimento da região em níveis comparáveis aos da China, na avaliação da professora, foi o aumento do emprego formal. “O Nordeste está tendo uma participação importante nesse aumento do emprego”. Bacelar acredita que a tendência é de continuidade do aumento da renda familiar média do nordestino nos próximos anos. “O que vai diminuir, avaliou, é o impacto do Bolsa Família, que foi muito significativo. O governo está pensando em fazer algumas extensões, mas eu acho que o impacto principal já ocorreu”.
DINHEIRO Famílias recebem mais com aumento do investimento Rio de Janeiro. A renda familiar média na região, que envolve salários e transferência de recursos de governo, subiu de R$ 676,64 reais para R$ 761,16. Já a renda disponível, referente aos valores que ficam efetivamente no bolso dos consumidores, teria aumentado nada menos que 38%. Na avaliação do economista Luis Henrique Romani de Campos, da Fundação Joaquim Nabuco, vinculada ao Ministério da Educação, a elevação da renda familiar média no Nordeste brasileiro foi influenciada pela ampliação do investimento em vários pontos da região. Segundo o pesquisador, houve um crescimento industrial importante no Nordeste do país nos últimos dois anos. “A tendência é que o Nordeste cresça mais que o Brasil”, apostou o economista.
Fonte: Jornal Diário do Nordeste |