A Câmara Venezuelana-Brasileira de Comércio e Indústria divulgou um estudo, baseado em dados oriundos do Ministério Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil (MDIC), demonstrando as vantagens econômicas da parceria entre os dois países, em especial para as regiões Norte e Nordeste.
Segundo o estudo, a Venezuela que era o 26º destino das exportações brasileiras em 2003, saltou para 8º em agosto deste ano, atrás dos EUA, Argentina, China, Holanda, Alemanha, Itália e Japão. O crescimento no percentual de exportações de produtos brasileiros para a Venezuela, entre 2003 e 2006 foi de 486%. “O comércio do Brasil com a Venezuela gerou, no ano de 2006, um superávit de US$ 2,973 bilhões, sendo o 5º maior superávit comercial do Brasil, equivalente a 6,40% do total do superávit da balança brasileira”, destacou o estudo.
Norte e Nordeste
Referindo-se especificamente às regiões Norte e Nordeste, os pesquisadores destacaram o projeto do Gasoduto do Sul, que prevê um investimento de US$ 20 bilhões, e a Refinaria Abreu e Lima – ambos em Pernambuco - como importantes instrumentos de distribuição de desenvolvimento e riqueza para a região.
A pesquisa consultou 527 empresas, o que totaliza 86,45% do total do volume de comércio, 85,10% das exportações e 94,54% das importações das duas regiões brasileiras.
De acordo com o estudo, 82,96% delas exportou para a Venezuela e 56,59%, importou. Os técnicos acreditam que essa relação comercial tem potencial de crescimento. Em contrapartida, apenas 17,68% importaram produtos venezuelanos.
Diante dos números, os estudiosos concluíram que existe uma considerável possibilidade de expansão comercial. “A entrada da Venezuela no Mercosul sem dúvida vai beneficiar as regiões Norte e Nordeste, pois vai permitir a redução das taxas de importação de produtos importantes para as regiões. ´
A integração da Venezuela ao bloco servirá de porta de entrada para o Brasil de países Andinos e do Caribe´, avaliou o presidente da Câmara Venezuelana-Brasileira e economista pela Universidade de São Paulo, professor José Francisco Marcondes.
DISPARIDADES
Brasil é a maior economia do Mercado Comum do Sul
Atualmente o Mercosul possui um PIB de mais de 2,4 trilhões de dólares, sendo que cerca 70% deste valor corresponde ao do Brasil. As disparidades econômicas entre os países membros tem causado atritos entre os quatro membros natos.
As duas menores economias, Paraguai e Uruguai reinvidicam concessões econômicas para compensar o desequilíbrio do mercado. Em 2006, a importação desses países para o Brasil foi de R$ 914,1 milhões contra US$ 8,05 bilhões com a Argentina. O Brasil tem superávit comercial com todos os países integrantes do bloco.
Em 2006, a corrente de comércio do Brasil com o Uruguai totalizou US$ 1,62 bilhão, contra US$ 1,34 bilhão em 2005. Já o fluxo comercial com a Argentina foi de US$ 19,77 bilhões, contra US$ 16,15 bilhões no ano anterior.
No ano passado, o Brasil exportou US$ 1 bilhão para o Uruguai - 86% foram produtos manufaturados como óleo diesel, automóveis, autopeças e celulares. As importações ficaram em apenas US$ 618,22 milhões – um superávit brasileiro de US$ 387,87 milhões.
O desequilíbrio com o Paraguai é ainda maior. Desde 1985, o país vizinho só obteve superávit uma vez, em 1989.
Com relação a Argentina o Brasíl também leva vantagem. Em 2006, o superávit brasileiro com relação ao portenho chegou a de mais de R$ 3 bilhões. A Argentina é a maior parceira do Brasil no continente.
A opinião do especialista
PROF. PAULO CÉSAR TORRES RODRIGUES* paulotorres@unifor.br
Mercado ampliado
Com a entrada oficial da Venezuela no Mercosul, o bloco passa a representar 76% do PIB da América do Sul. Considerando que aquele país apresenta um importante mercado consumidor, isto significa uma ampliação de mercado para o Brasil e, logicamente, para a região Nordeste e para o Ceará. As exportações cearenses para a Venezuela saltaram de US$ 18 milhões em 2006 para US$ 35 milhões em 2007, uma variação percentual positiva de aproximadamente 79%, representando, atualmente, o sexto destino de nossas exportações. Além disso, representa uma potência energética para a região.
Pelo aspecto político abre espaço para que outros países ingressem no Mercosul, fortalecendo a integração econômica regional e a projeção do Mercosul no mercado internacional. Pelo Protocolo de Adesão da Venezuela ao Mercosul, o Brasil terá acesso ao mercado venezuelano a partir de 2012, enquanto a Venezuela terá acesso ao mercado brasileiro em 2010.
Ainda existem muitas críticas à adesão da Venezuela alegando-se que aquele País não definiu claramente seu compromisso comercial com o Mercosul, podendo aumentar os problemas já existentes dentro do Bloco.
Apesar da Venezuela ser o sexto destino de nossas exportações, os exportadores brasileiros que destinam mercadorias àquele país sofrem com as restrições cambiais impostas hodiernamente. As barreiras de natureza cambial e comercial decorrem da redução das reservas internacionais venezuelanas, da diminuição das vendas de petróleo e de problemas com o balanço de pagamentos.
Em 2003 a Venezuela adotou a centralização cambial com a criação da Comissão de Administração de Divisas – CADIVI, cujo objetivo é manter a estabilidade econômica venezuelana, coordenando, administrando, controlando e estabelecendo requisitos para a liberação de divisas. Além disso, foi criado o Regime de Usuários do Sistema de Administração de Divisas – RUSAD, onde todos os usuários desse regime cambial devem estar cadastrados para ter acesso à outorga de divisas.
O alento para todos esses problemas é o CCR. As operações cursadas dentro do Convênio de Créditos Recíprocos – CCR amenizam um pouco todo o transtorno sofrido pelos exportadores brasileiros. Estudos realizados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP revelam que o custo de oportunidade de exportar para aquele País, agregado à perda cambial decorrente do atraso no recebimento das exportações está causando prejuízos aos exportadores brasileiros, tornando polêmico o ingresso no Mercosul.
* Coordenador do Curso de Especialização em Comércio Exterior - Unifor
Fonte: Jornal Diário do Nordeste
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