No início do século XX, o Brasil possuía a maior frota naval do Atlântico Sul. A grande maioria da marujada era composta por negros e pobres que, quando cometiam qualquer deslize, eram punidos com chibatadas perante os outros colegas, como nos tempos da escravidão.
Ao não agüentar mais essa situação humilhante e totalmente vexatória, os marinheiros, capitaneados por João Cândido, o “Almirante Negro”, sublevaram-se contra estes atos infamantes e apoderaram-se dos principais navios da Marinha de Guerra brasileira. Em 22 de novembro de 1910, cerca de 2.400 marinheiros deram início a um episódio muito importante na luta dos trabalhadores brasileiros – no caso específico, os marinheiros – por melhorias trabalhistas e tratamento mais digno no ambiente de trabalho: a Revolta da Chibata.
Após cinco dias de negociações, os marinheiros conseguiram a grande maioria de suas reivindicações, dentre elas o fim das chibatadas como forma de punição. A Revolta tinha forte influência socialista; ao se aproximarem do Rio de Janeiro, capital federal à época, todos os navios amotinados hastearam bandeiras vermelhas.
Assim como Zumbi dos Palmares, João Cândido foi um herói nacional que lutou desassombradamente a favor dos negros e pobres. E, como Zumbi, o “Almirante Negro” é omitido pela grande mídia e pelos livros de história, que preferem ter como heróis da pátria Tiradentes e Pedro I.
Assim como a história do Quilombo dos Palmares - uma comunidade baseada nos moldes socialistas, diga-se - a Revolta da Chibata é negligenciada pelos “fazedores de notícias” do País – a imprensa convencional -, pois para quê contar a história de um negro e pobre, com idéias socialistas, que desafiou as poderosas elites aristocráticas e militares do início da República?
O Mestre-Sala Dos Mares (Elis Regina)
Há muito tempo nas águas da Guanabara O dragão do mar reapareceu Na figura de um bravo feiticeiro A quem a história não esqueceu Conhecido como o navegante negro tinha a dignidade de um mestre-sala E ao acenar pelo mar na alegria das regatas Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas, jovens polacas e por batalhões de mulatas Rubras cascatas Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas Inundando o coração do pessoal do porão que a exemplo do feiticeiro gritava então:
Glória aos piratas As mulatas As sereias Glória a farofa A cachaça As baleias Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais Salve o navegante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais Mas salve Salve o navegante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais Mas faz muito tempo
Fonte: AFBNB |