A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a adesão da Venezuela ao Mercosul. No total, 44 deputados votaram pela entrada do país vizinho no bloco e 17 parlamentares, sob orientação do PSDB e do Democratas, rejeitaram a proposta. O relatório favorável à adesão agora segue para votação no plenário.
Em defesa da adesão da Venezuela, o líder do governo na Câmara, José Múcio (PTB-PE), disse que não se pode misturar a questão política com a questão econômica. "Nós políticos somos passageiros, as sociedades ficam. As sociedades são maiores do que nós, de maneira que na realidade se deu muita importância a Hugo Chávez, que é passageiro, transitório, como qualquer um de nós".
Chávez, presidente da Venezuela, está promovendo uma reforma constitucional que, entre outros itens, pretende lhe dar a possibilidade de se reeleger infinitas vezes. O tema será decidido em plebiscito, no próximo dia 2.
Múcio também afirmou que a Venezuela é um dos maiores compradores brasileiros. Segundo ele, o Brasil tem com o país vizinho seu segundo maior superávit comercial, com exportações de US$ 3,6 bilhões por ano. "Quem é que não quer o mercado da Venezuela, um país que compra quase tudo que consome?"
O líder disse acreditar que, no plenário, o embate entre oposição e governo vai se repetir. No plenário da Câmara, a matéria será apreciada em votação única e precisa de maioria simples para ser aprovada. Caso isso ocorra, segue para o Senado. O deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), contrário à entrada da Venezuela no bloco, afirma que tem esperança de que a situação ainda se reverta.
"O governo acabou transformando isso num embate político. Se não tivesse havido envolvimento muito intenso do Palácio do Planalto, o resultado seria outro", declarou ACM Neto. Ele disse ainda que a adesão da Venezuela enfraquecerá o bloco. "Significa contaminação do Mercosul, significa trazer para o Mercosul um país no qual a ditadura prevalece".
A discussão na CCJ sobre o ingresso da Venezuela foi intensa. Enquanto a oposição, exceto o PSOL, condena a participação do país vizinho no Mercosul, a base aliada defende a integração. "Quem está aqui falando em democracia foram defensores da ditadura no Brasil", afirmou o deputado Ivan Valente (PSOL-SP). "A política que está sendo discutida no mundo inteiro é de multilateralismo. O isolamento produziu o bloqueio contra Cuba", reforçou o deputado José Genoino (PT-SP).
Entre os aliados do governo, houve apenas uma dissidência: o deputado Nelson Trad (PMDB-MS) votou contra. O projeto de decreto legislativo será votado no plenário da Câmara antes de ser enviado ao Senado para análise e votação. (das agências de notícia)
Negociação A vitória só foi obtida depois de o governo negociar com o PMDB a distribuição de cargos na Petrobras. O PMDB ameaçava apresentar um requerimento de adiamento da votação para forçar o governo a indicar Paulo Roberto Costa para a diretoria de exploração da Petrobras. Atualmente, Costa é diretor de abastecimento da estatal.
Segundo integrantes do PSDB e do DEM, não se deve aprovar a adesão da Venezuela ao Mercosul porque não há respeito aos princípios democráticos no país vizinho.
O líder do PSOL na Câmara, Chico Alencar (RJ), condenou o argumento da oposição. "O Parlamento não pode ser um lugar de 'cale-se'", afirmou ele, numa alusão à frase do rei Juan Carlos 1º, da Espanha, que se dirigiu a Chávez durante reunião da Cúpula Ibero-Americana, no Chile.
Fonte: Jornal O Povo |