A iniciativa privada, os governos e ONGs têm se mobilizado para adotar melhores práticas socioambientais, mas o caminho do crescimento sustentável ainda é longo Um grupo de 18 especialistas reuniu-se na segunda-feira dia 17 em São Paulo no encontro Diálogos Capitais, promovido por CartaCapital, para discutir o futuro e quais são as possíveis colaborações de empresários, ONGs e governo no esforço de frear a destruição do planeta. A diversidade de experiências apresentadas no auditório do Museu da Imagem e do Som (MIS) é alentadora. Mostra que há quem vá muito além do marketing e, de fato, ponha a mão na massa com o objetivo de interromper o caos ambiental. Ao final das apresentações, ficou a certeza de que ainda dá tempo de evitar o pior.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi veemente ao falar do encontro de um caminho sustentável como o desafio do século. “O que se tem pensado nas últimas décadas é na melhor forma de assegurarmos os suprimentos necessários para gerações futuras, para que elas vivam em condições melhores”, disse. Luiz Gonzaga Belluzzo, consultor editorial de CartaCapital e um dos mediadores do encontro, fez uma das provocações mais diretas ao afirmar: “Temos de discutir o problema de maneira amoral, no sentido de se opor ao moralismo”. Presidente-executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), Fernando Almeida também vai direto ao ponto. “É preciso defender ao mesmo tempo a ruptura do atual modelo e a sua recriação. Gostemos ou não, é uma questão subversiva, do contrário não haverá tempo”, defende.
Uma parte da iniciativa privada tem se mobilizado nos últimos anos para não apenas investir em projetos socioambientais aqui e ali, mas na prestação de contas por meio de balanços dedicados aos dois assuntos. Assim, acionistas e a sociedade civil têm condições de monitorar as atividades, apoiar iniciativas ou cobrar mais ações. É o caso da Petrobras, que, além dos balanços, conquistou uma série de certificações nacionais e internacionais de peso para validar o esforço feito na área.
Os bancos também conquistaram um papel importante, como explicou Antonio Jacinto Matias, vice-presidente da Federação Brasileiras de Bancos (Febraban) e também do Itaú. Algumas das instituições financeiras aderiram aos programas de uso consciente do crédito. Além disso, apostam em atividades voltadas à educação ambiental. Recentemente surgiu em alguns dos bancos brasileiros a figura do profissional especializado em risco e sustentabilidade ambiental. Crédito? Só depois de se analisar as variáveis socioambientais do empreendimento. “O setor bancário não causa impacto direto, porque não polui. No entanto, ele financia. Por isso surgem a todo momento linhas específicas para a recuperação de passivos ambientais e para o reflorestamento”, disse Matias. O BNDES é outro que mirou o problema, como explicou Eduardo Carvalho Bandeira de Mello, chefe do Departamento de Meio Ambiente. O banco estatal tem um programa de apoio ao desenvolvimento limpo e participa como acionista de projetos ambientais.
Apesar das iniciativas, há quem cobre, como Marcelo Furtado, do Greenpeace, mais agilidade e ousadia, tanto da iniciativa privada, ao financiar mais projetos para conter os avanços da destruição do planeta, como por parte do Estado, ao liderar o processo. A ministra Marina rebateu: “É preciso acabar com essa cultura de facilitar ou fulanizar. O que chega ao ministério são processos que devem ser muito bem estudados, independentemente de onde tenham partido”. Ainda segundo a ministra, o tema, mesmo repleto de opiniões divergentes, deve levar a um esforço de consenso, mas sem que se abra mão da ética. “Em cima de princípios duradouros fazemos alianças pontuais”, disse.
No meio do debate, surgem não apenas preocupações quanto à melhor forma de evitar o consumo desvairado dos recursos naturais, mas também quanto às soluções para a recuperação do que foi destruído e à melhor forma de não frear o desenvolvimento. “Vivemos um modelo liberal, mas as empresas precisam ter responsabilidade e promover esse comportamento em toda a sua cadeia de fornecedores e consumidores. Seu padrão de comportamento deve ser compatível com o discurso”, cobrou Marilena Lazzarini, presidente do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).
Parte da responsabilidade neste novo momento é dos consumidores, cada vez mais conscientes das ações de empresas que destroem florestas, poluem rios ou são adeptas do trabalho escravo na busca de lucros. “Já existe o debate. Hoje o peixeiro, o taxista, tem conhecimento sobre o que é aquecimento global”, explicou Almeida, do Cebds, durante a apresentação. “Claro que ainda há muita confusão sobre temas como neutralização de carbono, por isso é preciso pensar na padronização e na informação. O cidadão é quem pode influenciar empresas, que por sua vez têm capacidade de definir o rumo do desenvolvimento da sociedade”, afirmou Rubens Born, diretor-executivo do Vitae Civilis – Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz. A ONG foi uma das responsáveis pelo projeto, aprovado recentemente na Câmara de Vereadores de São Paulo, de obrigatoriedade de uso de energia solar nos novos prédios da cidade.
Giovanni Barontini, da Fábrica Éthica, é um dos coordenadores da versão brasileira da publicação Carbon Disclosure Project (CDP), na qual os signatários fazem adesão voluntária e assim se dispõem a responder questionários anuais sobre a emissão de gases que levam ao efeito estufa. A ONG ajuda a orientar os interessados sobre os riscos e oportunidades das mudanças climáticas. Para Barontini, houve avanço no entendimento a respeito do problema.
O tema, ainda que delicado, frisou Belluzzo, deve ser tratado sem preconceitos, “inclusive ideológicos”. Marina Silva sugeriu: “Por que não criarmos uma nova marca para os produtos brasileiros, como ‘sem trabalho escravo’ ou ‘sem contaminação do solo’? Não podemos cometer os mesmos erros da Revolução Industrial. Naquela época eles não sabiam, hoje nós sabemos”.
No dia seguinte ao Diálogos Capitais, a Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da Divisão de Estatísticas, divulgou um dado animador. Entre 1995 e 2005, o Brasil foi o quinto país que mais reduziu o consumo de clorofluorcarbonos, os CFCs (também conhecidos como freon, usado como agente refrigerante ou gás propulsor de aerossóis), substâncias que afetam a camada de ozônio. Ficamos atrás da China (primeira colocada), Estados Unidos, Japão e Rússia, de um total de 72 países. No entanto, o País ainda é o 12º colocado na lista da ONU daqueles que mais utilizam o freon. De 1995 para cá, houve uma queda de 91,1%. O compromisso de diminuir o uso da substância foi assumido há exatos 20 anos, com a assinatura do Protocolo de Montreal.
Outra pista de que o tema é quente é a possível vitória de um ativista ambiental no Nobel da Paz deste ano. O vencedor será anunciado em 12 de outubro e há duas apostas. Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA e autor do documentário Uma Verdade Inconveniente, e Wall-Cloutier, ativista do povo inuit engajado na luta pelos problemas indígenas decorrentes do descongelamento do Ártico. São sinais de que cresce o número de atores globais preocupados em somar crescimento econômico, bem-estar social e preservação do meio ambiente.
Fonte: Carta Maior
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