IMAGINE A seguinte situação. Fim-de-semana, um churrasco na sua casa, com a família e amigos reunidos. Só que, ao mesmo tempo em que comanda a grelha, você faz ligações telefônicas para vender produtos de sua empresa.
Esse é apenas um dos exemplos dados por Amaro Souza, diretor da Federação dos Bancários do Rio Grande do Sul, para explicar a atual realidade dos trabalhadores brasileiros do setor financeiro. “Por conta das metas abusivas, os bancários passam por sofrimento psíquico, estresse, adoecimento. Ele trabalha de segunda a domingo, vendendo produto, dentro da sua casa”, denuncia. Segundo Souza, 25% dos afastamentos do trabalho junto à Previdência são oriundos da categoria bancária, principalmente por problemas psíquicos, Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Dort).
No entanto, findo o semestre, os bancos, uma vez mais, divulgaram lucros recordes. O do Itaú, por exemplo, chegou a mais de R$ 4 bilhões. Somados, os cinco maiores bancos privados no Brasil obtiveram um crescimento de 40,75% em relação ao primeiro semestre de 2006. Diante de tamanha rentabilidade, era de se esperar que os bancários estivessem dentre os trabalhadores mais bem pagos do país, e a oferta de empregos fosse ampla. Mas a situação é totalmente oposta.
Substituição “É tradição dos bancos a automatização e a precarização do trabalho e a grande exploração de mão-de-obra. Eles são os piores empregadores. Só são bem remunerados ex-diretores do Banco Central e ex-ministros da Fazenda, que, enquanto estão no setor público, trabalham em prol dos bancos”, analisa o economista Reinaldo Gonçalves. Matéria do jornal Valor Econômico no dia 6 mostra, com bases em dados do Ministério do Trabalho e Emprego e projeções da LCA Consultores, que, entre 2003 e 2006, a ocupação com carteira assinada no país cresceu 20,7%, enquanto no setor bancário a alta foi de 16%. Além disso, a maior parte das contratações foi de não-bancários, como promotores de crédito, que, em regra, ganham menos. Levando em conta apenas os bancários, o aumento na ocupação foi de 13%.
Segundo Amaro Souza, o processo de substituição da mão-de-obra no setor está avançado. “O banqueiro privado concede o reajuste da campanha salarial e ali na frente demite um número significativo de bancários. Temos, hoje, um contingente de 400 mil bancários, e outro contingente de 500 mil, formado por trabalhadores terceirizados, quarterizados, que trabalham ganhando um terço do que o bancário ganha, em condições precárias”, esclarece Souza, lembrando que os bancos têm, apenas com a receita das tarifas, dinheiro de sobra para pagar seus funcionários.
Discriminação Segundo dados elaborados pelo Dieese, a receita obtida com a prestação de serviços (que representa 19,7% do crescimento do setor bancário) seria sufi ciente para pagar toda a despesa de pessoal dos bancos. As tarifas cobradas dos clientes nos 11 maiores bancos do país correspondiam, em 2006, a 125,2% da folha de pagamento. Em 1994, eram 25,4%. No caso do Itaú (188,6%), Bradesco (150%), Santander/Banespa (147,2%) e HSBC (140,7%), ainda sobrariam muitos recursos após o custeio com pessoal.
Além disso, na questão de gênero, os bancos tampouco se mostram corretos. Segundo a Federação dos Bancários de São Paulo (Fetec-SP), com base em documento da própria Federação Brasileira de Bancos (Febraban), embora as mulheres representem 47,7% da categoria, ocupam apenas 12,7% dos cargos de chefia. Um possível argumento de que se prioriza a qualificação não se sustentaria. Pois, segundo o mesmo documento, 42,9% das bancárias possuem ensino superior completo, enquanto, entre os homens, o percentual é de 38,8%.
No dia 10, o Comando Nacional dos Bancários entregou à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) – braço sindical da Febraban – a pauta com as reivindicações da categoria, como parte de sua Campanha Nacional para este ano. “Com os lucros que os bancos têm conseguido, batendo recordes ano após ano, o mínimo que podem fazer é valorizar seus trabalhadores”, disse na ocasião Vagner Freitas, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT).
Reivindicações Entre as demandas, estão o reajuste salarial de 10,3% (aumento real de 5,5%), a criação de um piso de R$ 1.628,24 (salário definido pelo Dieese como o mínimo que o trabalhador precisa para atender suas necessidades), Plano de Cargos e Salários e Participação nos Lucros e Resultados de dois salários, mais uma parcela fixa de R$ 3.500, distribuída de forma linear, e a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Os bancários querem ainda uma remuneração complementar de 10% do total de vendas de produtos realizadas em cada unidade, e de 5% da arrecadação com prestação de serviços, também distribuída de forma linear. No dia 14, bancários, em conjunto com os metalúrgicos, participaram de audiências no Ministério do Trabalho e Emprego, no Supremo Tribunal Federal e na Câmara dos Deputados, levando suas reivindicações. A ratificação da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o fim dos interditos proibitórios. A Convenção 158 acabaria com as demissões injustificadas, prática corrente na política trabalhista dos bancos, que demitem funcionários com salários mais elevados para os substituírem por outros com remunerações mais baixas. Já o interdito proibitório, instrumento jurídico originalmente criado para garantir a posse de propriedade caso haja sobre esta a ameaça de violência ou violência iminente, é usado indevidamente pelos banqueiros, segundo os bancários, para impedir o direito de greve de seus funcionários. Atualmente, existem cem inteditos proibitórios movidos contra a categoria em tramitação na justiça.
Quanto 12,7% dos cargos de chefias são ocupados pelas mulheres, que representam 47,7% dos bancários
Fonte: Brasil de Fato |