Fale Conosco       Acesse seu E-mail
 
Versão para impressão Diminuir tamanho das letras Voltar Página inicial Aumentar tamanho das letras


Notícias

  10/07/2007 

Privatização das almas

Mais grave que a privatização dos bancos, mais grave que a privatização das telefônicas, das companhias elétricas, das universidades, da assistência à saúde, mais grave que todas as privatizações é a privatização das almas. De nossa postura diante do mundo, da forma de criarmos nossos filhos, de nossas relações com os colegas, de nossas idéias, de nós.

E é aí que o neoliberalismo, capitalismo, tucanismo, imperialismo, norte-americanismo... avançam a passos mais largos. Seja nos Estados Unidos de George Bush, no Brasil de Lula, ou em qualquer um que não assuma sem covardias a pretensão de ser outro, outro “ismo”.

Sinto isso todos os dias. Sinto isso quando vejo meus filhos serem atropelados por um mundo onde ser solidário é ser besta. Onde as escolas, por mais que tentem escolher modelos alternativos, acabam se tornando centros de competição. E os jovens se defrontam com um modelo que tem a cara dos filmes norte-americanos: é preciso ser o melhor em alguma coisa - o melhor desportista, o melhor aluno, o mais bonito, o mais engraçado e... quando faltam os atributos, que ele seja o pior, o bad boy.

Falo de escolas. Mas poderia falar de empresas. E já que escrevo para bancários, tenho exemplos bem próximos desta privatização das almas. Um deles está no Banco do Brasil. Um banco que, embora formalmente continue público, há muito deixou de sê-lo em espírito. Os bancários, que eu outrora tanto admirei por serem os mais engajados, os mais solidários, os que paravam suas agências durante as greves e iam ajudar a parar as demais, já não são os mesmos. Os que assim o foram estão cansados. Preferem aderir aos programas de aposentadoria incentivada. Os mais novos tem outro perfil: perfil de empresa privada, onde a palavra solidariedade não é catalogada. Para esses, melhor que o Sindicato - ou melhor, a diretoria do Sindicato - faça a greve por eles. E feche as agências na base dos piquetes. E consiga assim os reajustes que aos seus bolsos farão bem, desde que não haja qualquer perigo. Greve voluntária só quando é o fim da linha. Quando estão a um passo de perder os empregos.

Sei que, por trás desta privatização das idéias e comportamentos nos bancos, tem um cenário mais amplo: de pulverização do setor, terceirizações, falta de isonomia. É como disse um colega, depois da tentativa frustrada de greve contra o pacote de reestruturação do BB: “O cara que entra tem duas opções - ou se aliena completamente à doutrina do capital, orientada pela direção do banco ou passa alguns anos e parte pra outra”.

É nesse contexto que se insere a discussão sobre a mesa única. Vou me unir para quê se, sozinho, talvez arranque mais? Como se a discussão com o governo fosse mais fácil que com as empresas privadas... Como se o governo já não fosse, no fundo, uma empresa privada... Como se um grupo isolado pudesse ser mais forte em alguma coisa... Falácia de patrão.

Há uma peça de Bertolt Brecht reveladora destes novos tempos, tão antigos... Chama-se A alma boa de Set Suan. Dois deuses descem à terra à procura de uma alma boa. E a encontram. Dão à ela bastante dinheiro para que ela monte seu negócio. Ela assim o faz. Mas o negócio não prospera por que ela é incapaz de recusar ajuda a alguém. Eis que surge um irmão desta alma boa, um seu reverso. Com ele, sim, o negócio anda. E a peça nos revela uma surpresa: o irmão é a própria alma boa, que não pode viver neste mundo sem trocar de máscara.

Então, só há uma alternativa para a solidariedade: mudar a ordem das coisas. Mas isso requer que retiremos a máscara que nos impõe este mundo privado.

Fonte: Fabiana Coelho - é jornalista e integra a equipe de comunicação do Sindicato dos Bancários de Pernambuco

Última atualização: 10/07/2007 às 09:49:00
Versão para impressão Diminuir tamanho das letras Voltar Página inicial Aumentar tamanho das letras

Comente esta notícia

Nome:
Nome é necessário.
E-mail:
E-mail é necessário.E-mail inválido.
Comentário:
Comentário é necessário.Máximo de 500 caracteres.
código captcha

Código necessário.
 

Comentários

Seja o primeiro a comentar.
Basta preencher o formulário acima.

Rua Nossa Senhora dos Remédios, 85
Benfica • Fortaleza/CE CEP • 60.020-120

www.igenio.com.br