Dirigente do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco (ONU) e membro da Academia Brasileira de Letras, o professor Cândido Mendes espantou-se nesta quinta-feira (17), ao assumir um mandato de dois anos no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. “Onde está a Santíssima Trindade?”, perguntou o calouro ao plenário, referindo-se a representantes de Bradesco, Itaú e Unibanco.
A ausência da “Trindade” e o encolhimento da bancada financeira a duas das 80 cadeiras refletem mudanças significativas no Conselhão. E foram arquitetas pelo presidente Lula para reforçar o tipo de governo que planeja para o mandato atual. Como a ordem é enfatizar crescimento e desenvolvimento, a voz do sistema financeiro foi abafada no órgão de consulta presidencial, enquanto o setor produtivo ganhou mais assentos.
E eles foram distribuídos preferencialmente a trabalhadores. A bancada sindical passou de 14 para 21. Observador de conselhos similares de outros países, Cândido Mendes disse que o brasileiro é único por ter o maior peso sindical (25%). Já a bancada patronal, incluindo banqueiros, caiu de 41 para 38. “Estava meio desbalanceado”, afirmou Lula, no discurso que fez na primeira, das quatro reuniões plenárias do Conselhão programadas para este ano.
Um dos sindicalistas estreantes gostou da novidade e concorda que ela está em linha com a intenção do governo de perseguir crescimento. Aliás, a tradução prática do compromisso, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), foi esboçada no Conselhão. “Tudo o que defendemos na sociedade pode ser trazido para cá e discutido como política pública”, disse o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC de São Paulo, José Lopes Feijóo.
A pauta prioritária do Conselhão desde a antiga composição também justifica o reforço da bancada do setor produtivo e o esvaziamento dos banqueiros. “O tema da infra-estrutura ganhou um peso que pedia uma presença maior do setor produtivo”, afirmou a secretária do Conselhão, Esther de Albuquerque.
Para o coordenador da agenda sobre infra-estrutura no Conselhão, Paulo Simão, presidente da Câmara Brasileira a Indústria da Construção (CBIC), o novo perfil do colegiado pode ajudar a remover este que é tido como um dos maiores obstáculos ao crescimento do país – deficiências em estradas, portos e energia. “Espero que essa pluralidade ajude a mexer no Brasil”, disse.
Reformas As prioridades de antes do Conselhão, como a agenda da infra-estrutura, continuarão sendo as mesmas na pauta dos novos conselheiros. As outras duas prioridades são as reformas política e tributária, cuja aprovação Lula defendeu. Demonstrando entusiasmo com a idéia de “reformas”, o presidente pregou o debate de duas que arrepiam os trabalhadores, mesmo tendo acolhido mais sindicalistas no Conselho: trabalhista e da Previdência. “Não deve ter tema proibido no Conselho”, afirmou.
Com alguma ironia, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique da Silva Santos, que é do Conselhão, concordou que não deve haver tema tabu. E listou temas que gostaria de debater que igualmente causariam arrepios – mas no governo. “Queremos discutir sem dogmas a redução dos juros e do superávit primário, para ter mais dinheiro para investir em políticas sociais”, declarou Silva Santos.
Na reunião, ele propôs, e o Conselho aprovou, a criação de um grupo separado para discutir só o setor de biocombustíveis. Os sindicatos reclamam que os trabalhadores de canaviais são explorados e submetidos a condições desumanas, pois os fazendeiros querem ganhar cada vez mais dinheiro com a coqueluche econômica que se tornou o biocombustível.
A idéia recebeu aval até de um representante empresarial do setor com assento no Conselho, Nelson José Côrtes da Silveira, presidente da Brasil Ecodiesel. Para ele, a atividade está crescendo tanto, que é mesmo necessário mapeá-la, até para que as políticas públicas possam ser mais bem preparadas.
A próxima reunião do plenário do Conselho será no dia 28 de junho. A partir de agora, serão quatro por ano, e não mais cinco. O presidente Lula disse que pretende participar de todas elas, até o fim, para debater com os conselheiros. Nas reuniões do primeiro mandato, ele só participava da abertura.
Fonte: Agência Carta Maior |