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Notícias

  05/02/2007 

A África volta ao mapa

Muito tempo ausente dos noticiários, a não ser como palco de massacres e tragédias humanitárias a ser lamentadas, de passagem e sem explicações, a África volta pouco a pouco ao jogo do poder político e econômico global.

O presidente da China, Hu Jintao, começou, em 30 de janeiro, uma viagem por oito países africanos. Desde a criação do Fórum China-África em 2000, Pequim derrubou tarifas de importação de 190 produtos de 28 países africanos e perdoou 1,2 bilhão de dólares em dívidas.

O comércio entre China e África chegou a 55,5 bilhões de dólares em 2006 – incluindo um terço das importações chinesas de petróleo – e seus investimentos diretos no continente somaram 6,6 bilhões de dólares. Foram anunciados mais 3 bilhões de dólares em empréstimos ao continente, que se somam aos 5 bilhões de dólares anunciados na cúpula, a qual, em novembro, reuniu dirigentes de 48 países africanos em Pequim.

Ao contrário do Banco Mundial, do FMI e dos países ocidentais, os chineses, ao oferecer financiamentos e acordos comerciais, “não impõem condições, introduzem capacidades para desenvolvimento de infra-estrutura e puxam para cima os preços dos produtos que os africanos têm para vender”, disse à Folha de S.Paulo Kenneth Lieberthal, cientista político especializado em China.

“Isso diminui a influência e a eficácia do Banco Mundial na África”, queixa-se ele. Para Lieberthal, o órgão tenta garantir o respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos – “nem sempre com sucesso”, concede. E as elites corruptas “acabam se beneficiando desse fluxo de liquidez”.

A China é criticada por “não usar sua influência para conter corrupção e abusos de regimes africanos”, principalmente no Sudão. O governo sudanês arma e apóia milícias árabes nômades contra rebeldes de etnias sedentárias e não-árabes da região do Darfur, no oeste, em uma guerra que já massacrou 400 mil de ambos os  lados. China e Rússia vetaram as sanções ao governo sudanês propostas ao Conselho de Segurança da ONU e insistem em uma solução negociada.

O que se passa em Darfur, diga-se, não é tentativa de eliminar ou expulsar uma etnia, como na Bósnia ou em Ruanda, mas manipulação de rivalidades tribais para reprimir um movimento separatista apoiado pelos EUA. Estes apressaram-se em falar de genocídio porque o governo sudanês é controlado, desde 1989, por fundamentalistas muçulmanos amistosos para com o Hamas, a Jihad Islâmica, o Hezbollah e o Irã. Mas o relatório de janeiro de 2005 da comissão da ONU que avaliou o conflito concluiu por “uma aparente falta de intenção genocida”.

Pequim aproveitou a brecha criada por Bill Clinton, em 1997, quando proibiu as empresas estadunidenses de operar no Sudão, acusado de apoiar o terrorismo. Em janeiro do ano seguinte, Clinton decretou embargo ao país. Meses depois, para distrair a mídia da embaraçosa investigação do caso Monica Lewinsky, Clinton mandou bombardear em Cartum, a capital, uma fábrica suspeita de “produzir armas químicas”. Uma comissão internacional de investigação verificou, mais tarde, que se tratava de uma indústria farmacêutica, a maior do país.

Hoje, a China divide com Índia e Malásia uma parceria petrolífera que já fornece 8% das importações chinesas de petróleo. Atua no Sudão do Sul, outra região separatista, que em 2005 fez um acordo com Cartum, criou um governo regional e programou um plebiscito sobre independência em 2011. Por ora, royalties e impostos do petróleo são divididos entre Cartum e o Sul.

Vale notar o desinteresse da mídia e dos analistas pela situação simétrica do vizinho Chade. Rebeldes amigos do Sudão combatem um governo corrupto e impopular, precariamente sustentado por tropas francesas e petrolíferas estadunidenses. Em julho de 2006, o Banco Mundial, de Paul Wolfowitz, desistiu de controlar, por meio de um fundo em Londres, a aplicação das receitas do petróleo em saúde e educação. Devolveu-as ao governo chadiano, por receio de interrupção do fluxo de petróleo ou de vitória dos “terroristas” hostis ao Ocidente.

A China é de fato oportunista. Recém-chegada ao palco da geopolítica global, usa uma política de não-interferência, sem pruridos éticos, para abrir espaço político e econômico na região. Mas o Ocidente pode ainda mais facilmente ser classificado de hipócrita.

Nos primeiros anos após o fim da Guerra Fria, o destino do continente pareceu ser a marginalização completa e definitiva. Seu valor estratégico havia minguado. Suas matérias-primas agrícolas e minerais foram brutalmente desvalorizadas pelo súbito colapso da demanda do bloco soviético e pelo aumento da concorrência e da oferta global. “A África suporta um destino pior, em alguns aspectos, do que ser disputada pelas armas – ser ignorada”, escreveu em 1990 um editor do jornal The Washington Post, Stephen Rosenfeld.

A África Negra viu a perda dos parcos progressos feitos desde a descolonização dos anos 60 e uma rápida piora dos seus indicadores sociais já ruins, inclusive os mais básicos, como pobreza, nutrição e expectativa de vida. A dívida externa total tornou-se maior que o PIB, que continua a encolher para 1,1% do total mundial, mal distribuído a 7,5% da população do planeta. A participação no comércio global caiu para menos de 0,7%.

A abertura comercial, a desregulamentação e as privatizações impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial – que nos anos 90 governaram a economia de 30 dos 53 países da África Negra – visavam baratear as exportações, atrair investimentos e tirar recursos das mãos de governos que julgava incapazes e corruptos. Na prática, em troca de ganhos para as transnacionais e uns poucos empresários locais, lançaram milhões de camponeses e funcionários públicos nas favelas e desmoralizaram os já frágeis governos africanos. Pareceram não se dar conta de que a obsessão com “menos governo”, já discutível em nações antigas com Estados de Bem-Estar Social consolidados, poderia trazer o caos e a guerra civil em países recém-inventados e divididos por rivalidades étnicas, onde o Estado nunca foi mais que uma entidade embrionária e precária.

Os resultados desastrosos da abertura econômica, a epidemia de Aids e o fracasso das tardias intervenções ocidentais em Ruanda e na Somália convenceram alguns de que a África era causa perdida, a ser descartada com um dar de ombros. “Muitos Estados africanos foram incapazes de fazer a transição (para a globalização neoliberal), mas são tão fracos e tão pequenos que o sistema simplesmente constrói ao seu redor uma parede corta-fogo”, desdenhou o jornalista Thomas Friedman, astro do The New York Times, no livro O Lexus e a Oliveira (1999), um dos piores sintomas da deterioração do senso comum das elites ocidentais nos anos 90.

Desde 11 de setembro de 2001, porém, foram desfeitas as ilusões de que o petróleo continuaria abundante e barato e países problemáticos podiam ser esquecidos atrás de uma “parede corta-fogo”. A importância da geopolítica e da estratégia foi reafirmada.

EUA e União Européia foram forçados a dar atenção a países africanos que possam ser fornecedores de petróleo ou possam servir de base a atividades terroristas. Mas encontram no caminho uma China sedenta de petróleo e matérias-primas e ansiosa por ocupar parte do espaço que abandonaram e oferecer a alguns países a possibilidade de escapar do controle do Banco Mundial – implacável em promover a concentração de renda e o desmantelamento dos Estados e das sociedades tradicionais, cuja conseqüência é, justamente, agravar a agressão ao ambiente e aos direitos humanos que diz querer proteger.

Angola recebeu da China um empréstimo de 2 bilhões de dólares e projetos de ferrovias, estradas, telecomunicações, hospitais, escolas e habitações populares em troca da concessão para explorar petróleo em águas profundas. A Nigéria, quinto maior fornecedor dos EUA e também explorada, até agora, só por transnacionais ocidentais, concedeu quatro licenças à China e vendeu-lhe uma refinaria em troca de 4 bilhões de dólares em infra-estrutura. Gabão, Libéria, Costa do Marfim e Guiné Equatorial estão recebendo e aceitando ofertas similares.

Enquanto isso, Washington apóia a Etiópia em uma perigosa intervenção na Somália. Em 1977, esse país tentou conquistar a região de Ogaden (povoada pela etnia somali) à Etiópia, então pró-soviética, e foi derrotado. Com o colapso da URSS, o hesitante apoio dos EUA foi retirado e o governo de Mogadiscio desmoronou, derrubado por clãs armados encorajados por Adis-Abeba.

Pela primeira vez, desde a partilha colonial da África, passou a existir no mundo um território sem governo central reconhecível. Em 1993, a tentativa dos EUA de intervir no país sob o guarda-chuva da ONU resultou na humilhação de ver suas tropas escorraçadas e seus helicópteros abatidos por milícias mal-armadas, a arrastar o corpo de um marine pelas ruas de Mogadiscio ante os olhos do mundo.

Por algum tempo, houve quem se entretivesse com a Somália como laboratório neoliberal. “Depois de dez anos sem governo, vai melhor do que se esperava”, garantia The Economist em 26 de agosto de 1999. “Melhor que alguns países africanos com governos sob a tutela do Banco Mundial e do FMI.” Empresários entendiam-se com chefias locais para instalar luz e telefones: “O fim do governo foi bom para os negócios”, disse um deles à revista. “Antes tínhamos monopólios estatais, burocracia e corrupção.” Em fóruns e blogs, libertarians estadunidenses prometiam visitar essa utopia anarcocapitalista.

Mas a brincadeira perdeu a graça depois do 11 de Setembro. A CIA deu-se conta de que a maior parte das vilas “anarquistas” era governada por tribunais islâmicos, que faziam cumprir a sharia por milícias fundamentalistas. Receosa de ver a Somália usada como base pela Al-Qaeda, negociou com caudilhos e empresários somalis a formação, em fevereiro de 2006, de uma “Aliança pela Restauração da Paz e Contra o Terrorismo”, que deveria assumir o governo do país. Apesar dos 150 mil dólares mensais da CIA, porém, a Aliança levou uma surra do Conselho das Cortes Islâmicas, que, em junho, tomou Mogadiscio e até o fim do ano se apoderou da maior parte do país.

No Natal de 2006, com ajuda dos EUA, a Etiópia invadiu a Somália e nos dias seguintes tomou a capital e as principais cidades controladas pelos fundamentalistas. Começou a presente fase da guerra somali, com tropas etíopes e “canhoneiras voadoras” AC-130 dos EUA a combater a guerrilha islâmica nas colinas e florestas e matar civis às centenas.

É um enorme risco para a cristã Etiópia, um dos países mais pobres da África, com uma grande minoria muçulmana (33%) e odiada por muitos somalis desde a Guerra do Ogaden, assumir o papel de ponta-de-lança dos interesses ocidentais na Somália. Também é um risco para os somalis pró-ocidentais aceitarem sua proteção. Os fundamentalistas contam com o apoio das redes fundamentalistas internacionais e da muçulmana Eritréia, separada da Etiópia após dura guerra civil. Alguém espera ver a Etiópia vitoriosa em um tipo de guerra capaz de exaurir os três melhores exércitos do mundo (russo, estadunidense e israelense)?

Fonte: Revista Carta Capital

Última atualização: 05/02/2007 às 11:17:00
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