O ministro da Fazenda, Guido Mantega, aproveitou o lançamento do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), segunda-feira (22), e, diante de empresários e políticos, chamou a atenção do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles: o “mercado” espera que o juro do BC continue caindo este ano. A fala foi encarada por alguns como forma de pressionar o BC, que pela lei subordina-se à Fazenda, embora o governo lhe dê autonomia. A suspeita cresce quando se constata que, para dar certo, o PAC depende de juro menor. Ao comentar o assunto nesta quarta-feira (24), Mantega disse que tinha brincado. E Meirelles, que não se importara, nem se sentia acuado. Com ou sem o cerco do ministro ao banqueiro, horas depois das duas declarações, o BC voltou a cortar a taxa básica de juros da economia brasileira (Selic), só que com mais conservadorismo do que nos últimos meses.
A cautela já está sendo interpretada por trabalhadores e empresários como sinal negativo para o futuro do PAC e para as possibilidades de o país de fato acelerar o crescimento. A opinião foi manifestada pela Força Sindical e a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que em notas oficiais criticaram o BC.
Mas um número importante usado pela Fazenda no PAC - a taxa média de juros em 2007 - sugere que, tecnicamente, ainda não haveria ameaça ao programa. O pacote trabalha com um quadro em que a Selic valerá 12,2% em média este ano. O cenário se confirmará, caso o juro recue 0,25 ponto em todas as oito reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). Nesta quarta-feira (24), o corte da taxa teve esta dimensão. Ela caiu de 13,25% para 13%.
A expectativa de Selic média usada pelo Fazenda no PAC não foi calculada pela equipe de Mantega. O ministério aproveitou-se de uma estimativa da principal referência do que seja o “mercado” para o governo: um grupo de 80 instituições privadas, na maioria do setor financeiro, que o BC consulta toda a semana sobre vários indicadores. Foi a este “mercado” a que Mantega aludiu no lançamento do PAC, ao “brincar” com Meirelles. A maioria dos pesquisados pelo BC apostava numa queda de 0,25 ponto no juro nesta quarta-feira (24).
Cautela ensaiada não evita críticas Uma redução do juro na proporção de 0,25 ponto já vinha sendo ensaiada pelo Copom, que é composto pelos diretores do BC, desde a última reunião, em novembro. Na ocasião, três diretores votaram por corte de 0,25, mas foram derrotados pelos outros cinco, que preferiam uma queda em dobro. Agora, o placar se inverteu – 5 a 3 para 0,25 ponto.
Apesar de ensaiada antes e esperada pelo “mercado”, a decisão foi considerada uma recaída conservadora porque, desde maio de 2006, o BC baixava os juros num ritmo mais intenso, de 0,5 ponto por reunião. Além disso, trabalhadores, empresariados do setor produtivo e economistas não-ligados ao “mercado” não vêem motivo para o juro cair menos do que meio ponto.
“Mais uma vez, o governo frustra os anseios dos trabalhadores com um tímido corte na taxa básica de juros. É impossível crescer 4,5% neste ano, como pretende o governo, com este excesso de conservadorismo e com uma taxa de juros neste patamar”, afirmou a Força Sindical, em nota divulgada após a decisão do Copom.
A CNI, também em nota, reforçou o ataque ao BC. “Se há uma percepção de que o ambiente macroeconômico do país está equilibrado, se não existem pressões inflacionárias de curto prazo, havia espaço para uma redução de, no mínimo, 0,5 ponto percentual”, disse.
O ponto mais enfatizado nas notas, contudo, diz respeito à influência psicológica negativa que a cautela do Banco Central pode ter sobre a economia e o pacote do governo.
“Um movimento mais conservador da redução da taxa de juros pode ser um sinal invertido em relação a tudo que o governo pretende para criar um ambiente favorável à aceleração do crescimento”, afirmou a CNI. “A queda na taxa Selic de 0,25 ponto (...) é um banho de água fria no morno PAC”, disse a Força Sindical.
Em reportagem de Carta Maior publicada nesta terça-feira (23), o economista Ricardo Carneiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), representante da corrente conhecida como “heterodoxa”, mostrava a mesma preocupação com o efeito do juro do BC no PAC. “Se não houver uma convergência do BC, o plano pode se inviabilizar”, disse.
Numa breve nota em que comunicou a decisão de fixar a Selic em 13%, o Copom justificou-se afirmando que não consegue medir exatamente o impacto que a inflação terá do processo de corte do juro iniciado em setembro de 2005. Desde então, a taxa caiu de 19,75% para 13%.
O novo patamar da Selic continua sendo o mais baixo desde a criação do Copom. Mas o Brasil ainda mantém o troféu de campeão mundial da usura. Quando se observa o juro real, descontado da inflação, que é o que importa do ponto de vista econômico e indica o tamanho do lucro do “mercado”, verifica-se que, em setembro de 2005, o juro real era de 15%, e agora está em 9%.
Fonte: Carta Maior |