O recente crescimento econômico do Nordeste e as prioridades para o Desenvolvimento Sustentável
Por Suely Salgueiro Chacon
O Nordeste, como o Brasil, passou por várias fases em seu processo de desenvolvimento. Nos últimos 20 anos, temos visto os governos dos estados da região tomarem algumas medidas de política econômica semelhantes. Essas medidas tiveram várias repercussões e resultaram em alguns avanços para a região em termos específicos de crescimento econômico.
A comparação com outras regiões na atual conjuntura pode levar a uma falsa impressão de que o Nordeste está crescendo mais que o Brasil e que este crescimento é permanente. Na verdade, o Nordeste é beneficiado por fatores conjunturais que têm permitido uma expansão da produção de um modo geral. Também o emprego tem crescido, mas a renda e o mercado interno não acompanham esse quadro positivo. Desse modo, a sua sociedade ainda não experimenta o verdadeiro desenvolvimento.
É importante ressaltar que uma região com baixo crescimento histórico como o Nordeste, responde mais fortemente a novas medidas e investimentos do que uma região com crescimento econômico mais forte e consolidado historicamente, como é o caso do Sul e Sudeste. Isto é, quando não se tem uma economia sólida e bem estruturada, qualquer investimento leva a um impacto muito maior, relativamente, do que o impacto gerado em regiões já mais prósperas.
O que aconteceu nos últimos anos no Nordeste reflete assim alguns fatores peculiares. Um ponto muito importante é a influência percebida nas políticas públicas dos organismos internacionais como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, que financiaram e financiam boa parte dos investimentos dos governos da região. O perfil gerencial exigido pelos órgãos fez com que os governos adotassem novas posturas e novas ações. Os planos de desenvolvimento passaram a levar em consideração novos fatores e boa parte da infra-estrutura hoje existente (que ainda é pouca) foi construída a partir desses financiamentos.
Também a onda advinda da chamada "guerra fiscal" teve um impacto forte nos índices da região. Muitas empresas do Sul, nos setores têxteis e calçados, principalmente, vieram se instalar no Nordeste em busca de benefícios fiscais e custos menores com infra-estrutura e trabalho.
Contudo, essas empresas vieram atraídas por benefícios que tornam a sua instalação aqui algo não sustentável. Na medida que os benefícios acabem elas podem rapidamente se instalar em outro local. O principal problema é relativo à questão trabalhista. A maioria dessas empresas (não todas) não emprega diretamente os trabalhadores, mas contrata cooperativas, o que não garante qualquer direito e ainda paga salários bem baixos. Para uma região com carência de postos de trabalho, realmente há um crescimento no emprego, mas a renda não melhora e isto camufla a alta informalidade do mercado de trabalho em toda a região.
Um ponto importante a ser ressaltado é o não fortalecimento do mercado interno no Nordeste. Na medida que há um aumento pequeno no emprego, mas não na renda, temos que a produção tem que ser vendida fora daqui, o que, no longo prazo, pode ser decisivo para a saída das empresas, ou para a não vinda de novas empresas
Se analisarmos os dados relativos ao comércio exterior no Brasil, temos que, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, as exportações brasileiras no acumulado de 2006 cresceram 13,46% até junho e no Nordeste o crescimento foi de 19,06%. Já na região Sul as vendas externas caíram em 0,24% nos primeiros seis meses de 2006. As exportações estão intimamente relacionadas ao câmbio. O Nordeste, de um modo geral, tem sua pauta de exportações altamente baseada em produtos primários, não manufaturados. A exportação desses produtos é menos afetada, pois são matérias primas. Seu valor é baixo em relação aos produtos manufaturados, processados. São esses produtos que compõem a pauta de importações das outras regiões, que estão com mais dificuldade nessa época de Real valorizado.
No que tange a agricultura, a seca no Sul e o câmbio baixo levaram dificuldades para outras regiões. O produtor de soja, por exemplo, sofreu elevada descapitalização, o que afetou seu consumo. Enquanto isso, segundo o IBGE, o Ceará deverá colher este ano a melhor safra dos últimos 10 anos, com crescimento de 124,85% em relação à safra do ano passado. Mais uma vez, são fatores conjunturais que estão nos beneficiando. O clima ajudou, não ocorreu seca, nem choveu demais. O resultado foi uma boa produção.
Mas ainda não temos nem como comparar os índices de produtividade das lavouras nordestinas com as lavouras do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Além disso, nossa produção é basicamente de grãos com pouco valor, para consumo interno em grande parte, e de qualidade pouco competitiva. A infra-estrutura ainda pequena e as dificuldades de logística são outros fatores que também atrapalham uma melhor performance da agricultura do Nordeste. Se quisesse crescer mais o Nordeste teria problemas com água, energia, armazéns ou estradas em quantidade e qualidade adequadas.
Nas regiões Sul e Sudeste existe um estoque de investimentos em infra-estrutura e logística. Facilmente, com a superação desses fatores conjunturais, a região volta a crescer com taxas melhores. Além disso, a população residente tem muito mais acesso à educação e à informação, o que é o maior diferencial positivo, especialmente no que diz respeito à renda. Um trabalhador no Sul e Sudeste ganha mais e isto fortalece o mercado interno consumidor e alavanca a economia local.
Assim, por esta rápida exposição, podemos avaliar que o relativo crescimento apresentado pela região Nordeste nos últimos anos, chamado até de "Milagre" por alguns jornalistas, pode ser apenas passageiro, como todo "milagre" na economia.... Este é o problema do Nordeste. O recente crescimento de alguns índices econômicos na região está pautado em medidas que nem sempre se sustentam ao longo do tempo, ou em fatores conjunturais não controláveis.
É bem verdade que a região de um modo geral melhorou consideravelmente suas condições de produção, mas ainda está longe de oferecer uma estrutura competitiva que garanta investimentos produtivos de longo prazo.
A prioridade agora, para a região continuar crescendo e alcançar o desenvolvimento, é investir em infra-estrutura, em novas tecnologias, no melhor conhecimento das potencialidades de toda a região, especialmente do Bioma Semi-árido e, principalmente, em educação. Garantido acesso à população a melhores serviços, a novos conhecimentos e à educação de qualidade, podemos garantir que um processo de desenvolvimento seja sustentável e não apenas um "milagre" passageiro.
É ainda importante ressaltar que o desenvolvimento depende de fatores que vão além do crescimento econômico apenas, que é necessário, mas não suficiente. E mais que isso, o próprio crescimento econômico precisa levar em consideração fatores locais, específicos de cada região. Ou seja, se vamos investir no Nordeste, temos que procurar atividades que potencializem as características da região, que valorizem sua diversidade, que aproveitem suas vantagens comparativamente às vantagens de outras regiões.
A diversidade regional é assim um ponto fundamental para um processo sustentável de desenvolvimento. A natureza diferenciada do Nordeste, tanto no litoral, como nas serras e no Sertão, é um ponto positivo nesse contexto, bem como a cultura e a própria história do lugar. AS PESSOAS precisam ser valorizadas, melhor educadas e ter sua auto-estima elevada.
A partir dessa conscientização é possível promover políticas de desenvolvimento regional mais adequadas, que garantiriam um processo de fato sustentável de desenvolvimento para a região.
Suely Salgueiro Chacon é Economista, Doutora em Desenvolvimento Sustentável e Gestão Ambiental (CDS/UnB). Coordenadora do Curso de Economia da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e Presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (CORECON-CE)
Fonte: Site do Conselho Federal de Economia (COFECON) |