Fale Conosco       Acesse seu E-mail
 
Versão para impressão Diminuir tamanho das letras Voltar Página inicial Aumentar tamanho das letras


Notícias

  26/12/2006 

Entrevista: “O Brasil está no caminho certo”

O economista americano Jeffrey Sachs já apareceu duas vezes na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time. Se houvesse um ranking dos mais otimistas, estaria no topo. O crescimento em todas as regiões do planeta indica que dias melhores virão, inclusive por aqui. “O Brasil está no caminho certo”, diz. Diretor do Instituto Terra da Universidade Columbia e do Projeto Milênio das Nações Unidas, Sachs tem todos os motivos do mundo para desconfiar do futuro da espécie humana. Em viagens constantes aos países pobres, presencia cenas horripilantes, como crianças africanas morrendo de fome e malária. Mas o famoso assessor dos governos de países em desenvolvimento da América Latina, do Leste Europeu, da ex-União Soviética, da Ásia e da África acredita que é possível acabar com a miséria global em 20 anos. Seu livro O fim da pobreza (Companhia das Letras) dá o caminho das pedras. Em São Paulo, em meados de dezembro, ele exortou empresas americanas aqui instaladas a investir em projetos de responsabilidade social ligados à educação secundária e superior. Em seguida, conversou com a ISTOÉ:

ISTOÉ – Quais são as perspectivas da economia mundial?
Jeffrey Sachs –
Estou muito otimista. Apesar de estar lidando com os mais pobres e ter visto coisas horríveis, sou otimista porque esses problemas podem ser resolvidos. Nossa geração poderá ser aquela que acabou com a miséria no planeta. Para muitos, isso parece fantasia. Mas é possível, temos instrumentos poderosos para isso. Não sou adivinho, mas como economista treinado em desenvolvimento digo que há um caminho. Não há razão nenhuma para não vivermos em harmonia e, ao mesmo tempo, combater a pobreza extrema e ter desenvolvimento sustentável.

ISTOÉ – A globalização funciona?
Sachs –
Cada parte do mundo em desenvolvimento está alcançando progresso significativo. No leste asiático, o crescimento anual supera 8%. No sul da Ásia, a taxa é de 7% a 8%. Um bilhão de pessoas estão vendo esse progresso na Índia e 1,3 bilhão, na China. Estes dois países respondem por quase 40% da população mundial. Não deixem que ninguém diga que a globalização não funciona. A globalização é o motor desse forte crescimento na Ásia.

ISTOÉ – E no Brasil?
Sachs –
Digo o mesmo. Não há razão alguma para o Brasil não apresentar crescimento econômico acelerado. O Brasil está no caminho do desenvolvimento significativo. Sou otimista, mesmo com todos os problemas. O País ainda não decolou como precisa, mas está no caminho certo. Acredito que irá universalizar a acumulação do capital humano. Este país ainda não destravou o caminho do sucesso para todos os seus cidadãos. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso colocou a educação num nível político superior. É uma contribuição histórica, talvez até mais significativa que estabilidade econômica. O fato de o presidente Lula ter dado continuidade é sinal de que o Brasil tem sorte. Olhei as estatísticas e posso dizer que este país caminha para ser um dos grandes líderes do século XXI.

ISTOÉ – A educação ainda é um ponto fraco.
Sachs –
Há muitos problemas com a educação, mas os brasileiros descendentes de africanos e indígenas estão fazendo parte da corrente principal. Com um pouco de colaboração entre o governo e as empresas, há uma enorme chance de que ocorra nesta geração uma dramática melhora na capacidade de o Brasil competir e alcançar crescimento econômico. Durante séculos, as pessoas no Nordeste não tiveram oportunidade de fazer parte de uma sociedade movida pela ciência e tecnologia. Isso está mudando. Regiões isoladas geograficamente podem superar os obstáculos com a tecnologia se venderem informação, em vez de produtos físicos. É o que aconteceu na Índia. O que foi preciso? Uma boa universidade. O maior desafio para este país é a melhoria da educação.

ISTOÉ – Por que o Brasil não foi citado em seu livro O fim da pobreza?
Sachs –
Provavelmente, eu deveria ter escrito um livro mais abrangente. O Brasil
tem pobreza, mas felizmente não apresenta a miséria dos lugares onde passei
mais tempo, como a África. O Brasil teve muito progresso em índices de expectativa de vida, nutrição e sobrevivência das crianças. Isso não diminui os desafios das regiões pobres.

ISTOÉ – O que o sr. considera pobreza extrema?
Sachs –
É a pobreza que mata. É tão severa que as pessoas não conseguem contar com suas necessidades básicas. Não têm acesso a água potável, comida, tratamentos de saúde preventivos básicos. Não têm acesso a remédios, médicos. Este tipo de pobreza afeta um bilhão de pessoas no planeta. A África é o epicentro dessa miséria: metade da população luta para sobreviver diariamente nessas condições. Há também muitos pobres na China e na Índia, mas os números têm caído. Na América Latina, estima-se que 5% a 10% da população viva em pobreza. O Brasil tem muitas pessoas lutando não necessariamente pela sobrevivência diária, mas por um lugar ao sol na vida econômica, pela dignidade, pela oportunidade de educar seus filhos, por conforto e segurança. É a diferença entre a pobreza de US$ 1 dólar por dia, típica da África, e a de US$ 2 por dia. Infelizmente, há muitas pessoas no Brasil vivendo nesse nível.

ISTOÉ – Como vê o Bolsa Família?
Sachs –
O Bolsa Família tem sido útil, mas não é um programa completo. Garantiu uma renda mínima para muitas famílias pobres, deu incentivos para elas conseguirem tratamento básico de saúde e matrículas nas escolas. Mas não resolve o problema do emprego para as pessoas pobres. Não ataca o problema da falta de infra-estrutura nas regiões pobres. E não garante que a criança que recebe o benefício terá capacidade de ir além da educação primária e completar a secundária. Parece que é parte de uma estratégia. Eu gostaria de ver mais.

Fonte: Revista Isto É

Última atualização: 26/12/2006 às 10:28:00
Versão para impressão Diminuir tamanho das letras Voltar Página inicial Aumentar tamanho das letras

Comente esta notícia

Nome:
Nome é necessário.
E-mail:
E-mail é necessário.E-mail inválido.
Comentário:
Comentário é necessário.Máximo de 500 caracteres.
código captcha

Código necessário.
 

Comentários

Seja o primeiro a comentar.
Basta preencher o formulário acima.

Rua Nossa Senhora dos Remédios, 85
Benfica • Fortaleza/CE CEP • 60.020-120

www.igenio.com.br