Desde que o presidente Lula afirmou que as restrições da legislação ambiental são responsáveis por “travar” o país, principalmente em relação aos grandes projetos de infra-estrutura, o meio ambiente ganhou visibilidade e maior conotação política na agenda de discussão do país. Contudo, a sociedade brasileira não concorda com o presidente, pois não vê o meio ambiente como obstáculo para o crescimento da economia brasileira. Uma pesquisa, divulgada nesta quarta (20) pela ONG ambientalista WWF-Brasil e encomendada ao Ibope, mostra que 62% dos entrevistados acreditam que a corrupção é a principal causa para o baixo desempenho econômico, seguido da carga tributária e das altas taxas dos juros (44%); as restrições ambientais figuraram como responsáveis para apenas 7% das pessoas.
Para Samuel Barreto, coordenador do Programa Água para a Vida, da WWF-Brasil, a pesquisa revela que o meio ambiente não é obstáculo para o desenvolvimento do país. “Não dá para usar o meio ambiente como bode expiatório para explicar o baixo crescimento do Brasil. Ele não é antagônico ao desenvolvimento. Os brasileiros acreditam ser possível harmonizar desenvolvimento com conservação do meio ambiente. Na pesquisa, a sociedade demonstrou quais são as reais causas da estagnação, mesmo por que a falta recursos naturais também é um problema para o crescimento”. Barreto menciona a seca que assolou a Amazônia e o sul do país em 2005, afetando a produção agrícola e a sobrevivência das comunidades locais.
Por outro lado, quando questionados se concordam com a afirmação de Lula de que o meio ambiente é responsável pelo entrave do país, 21% dos entrevistados disseram concordar plenamente, enquanto 33% se manifestaram plenamente contra a afirmação do presidente.
A pesquisa também aponta que 80% das pessoas não estão dispostas a conviver com a degradação ambiental, mesmo que seja em troca de mais desenvolvimento e geração de emprego.
Para Barreto, os resultados refletem, em parte, a forma como o meio ambiente tem sido tratado nos últimos anos. “Tem um grande esforço da Ministra Marina Silva de fazer com que as ações ambientais sejam estratégias de governo e não só do Ministério. O tema do desmatamento, por exemplo, é discutido como central no governo e isso dá destaque”. Mesmo com uma maior visibilidade e entendimento da questão ambiental, o coordenador da WWF acredita que ainda é preciso que o setor ganhe mais força, principalmente no que se refere à aplicação da legislação ambiental e à elaboração mais cuidadosa de projetos governamentais e da iniciativa privada na área de infra-estrutura.
De acordo com a pesquisa, a sociedade demonstrou uma maior consciência sobre a questão ambiental. “Pelos resultados, parece que houve uma evolução na forma como a sociedade entende o meio ambiente. A participação e reforço da sociedade são extremamente importantes para a causa. Ela não pode ser só um assunto do governo ou das instituições especializadas, mas também tem que ser uma pauta da sociedade”, diz Barreto.
O coordenador da WWF, no entanto, faz uma ressalva dizendo que é preciso que os brasileiros mudem o comportamento no cuidado com os recursos naturais.
Água Além de abordar perguntas sobre a relação entre desenvolvimento e conservação do meio ambiente, a pesquisa da WWF avalia a percepção e a atitude dos brasileiros em relação à água e à sua utilização. Mais da metade dos entrevistados (52%) afirmam que o maior problema ambiental do Brasil é justamente a água, seguida do desmatamento (49%).
A pesquisa também mostra que 90% das pessoas acreditam que o Brasil terá problemas com o abastecimento hídrico a médio e longo prazo e entendem que os dois principais fatores agravantes de uma crise são o desperdício e o desmatamento. Nesse contexto, a maioria estaria disposta a mudar seus hábitos cotidianos, já que 55% dos entrevistados percebem que o próprio consumo pode ser reduzido.
“Os brasileiros entendem que a água é um elemento estratégico e houve uma melhora na forma crítica como vêem esse elemento. No entanto, há uma percepção ainda equivocada de que quem consome e polui mais a água é a indústria, enquanto a maior responsável é, na verdade, a agricultura”, analisa Barreto.
A pesquisa é a segunda edição do mesmo levantamento realizado pela ONG em 2004. Foram entrevistadas 1.001 pessoas pelo telefone, em 207 municípios de todas as regiões do país. Ela pode ser encontrada na íntegra no site da WWF-Brasil: www.wwwf.org.br .
Fonte: Agência Carta Maior
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